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quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

SHERLOCK HOLMES - O enigma de Reigate

Arthur Conan Doyle
O enigma de Reigate

Título original: The Reigate Puzzle
Publicado pela primeira vez na Strand Magazine,
em Junho de 1893 e com 6 ilustrações de Sidney Paget.

Sobre o texto em português:
Este texto digital reproduz a
tradução de The Reigate Puzzle publicado em
As Aventuras de Sherlock Holmes, Volume III,
editado pelo Círculo do Livro
e com tradução de Hamílcar de Garcia.
O que narro a seguir aconteceu um pouco antes de o meu amigo Sherlock Holmes ter-se restabelecido de uma enfermidade causada pêlos enormes esforços despendidos na primavera de 1887. Constituiria assunto apropriado a esta série de esboços a questão da Netherland-Sumatra Company e dos colossais projetos do barão Maupertuis, mas está tão recente na mente do público e tão intimamente relacionada com a política e as finanças que é melhor deixá-la de lado. No entanto, ainda que de um modo muito indireto, ela conduz a um problema complexo e singular, que deu a meu amigo uma oportunidade de demonstrar o valor de uma arma nova entre as muitas com que sustentou batalhas contra o crime ao longo da vida.
Recorrendo a minhas notas, verifico que foi no dia 14 de abril que recebi um telegrama de Lyon, na França, informando-me de que Holmes se encontrava doente, na cama, no Hotel Dulong. Vinte e quatro horas depois, eu estava no quarto do doente. Fiquei logo aliviado ao verificar que não havia nada de grave nos sintomas que apresentava. Porém, sua constituição de ferro cedera sob o esforço da investigação que se arrastara durante dois meses. Durante esse período nunca trabalhara menos de quinze horas por dia, e mais de uma vez, segundo me assegurou, ficou preso à sua tarefa por cinco dias ininterruptos. O resultado triunfante de seus labores não pôde salvá-lo da reação a tão terrível esforço. Quando toda a Europa repetia seu nome e seu quarto estava literalmente atulhado de telegramas de congratulações, encontrei-o dominado pela mais terrível depressão. Até o reconhecimento de que havia triunfado onde a polícia de três países fracassara, e de que excedera largamente em manobras o mais refinado trapaceiro da Europa, não foi suficiente para fazê-lo reagir contra aquela prostração nervosa.
Três dias depois estávamos de volta à Baker Street. Era evidente, porém, que meu amigo melhoraria muito com uma mudança de clima. E para mim a idéia de uma semana de primavera no interior era aliciante. Meu velho amigo, o coronel Hayter, que esteve entregue a meus cuidados profissionais no Afeganistão, e que arranjara uma casa perto de Reigate, no Surrey, convidara-me com freqüência para que lhe fizesse uma visita. Acrescentara, da última vez, que, se meu amigo me quisesse acompanhar, teria também o maior prazer em recebê-lo. Não obstante, foi necessário um pouco de diplomacia. Quando Holmes soube que a casa era de solteiro, e que lhe seria permitida plena e inteira liberdade, concordou com meus planos e, uma semana depois de nosso regresso de Lyon, estávamos em casa do coronel. Hayter era um excelente veterano, de fino trato e que correra mundo. Descobriu logo, como era de esperar, que Holmes e ele tinham muita coisa em comum.
Na noite da nossa chegada, após o jantar, sentamo-nos na sala de armas do coronel. Holmes estirou-se no sofá. Eu e Hayter examinávamos seu pequeno arsenal.
— A propósito — disse-me ele de repente —, vou levar uma dessas pistolas lá para cima, para a hipótese de um alarme.
— Um alarme! — exclamei eu.
— Sim, levamos um susto nesta zona recentemente. O velho Acton, que é um dos magnatas de nosso condado, teve a casa arrombada na última segunda-feira. Não houve nenhum grande prejuízo, mas os gatunos ainda andam à solta.
— Nenhum indício? — perguntou Holmes, olhando de soslaio para o coronel.
— Nenhum até agora. Mas o caso é muito insignificante. Um pequeno crime de província. Aliás, muito pequeno para merecer sua atenção, Sr. Holmes, depois daquele grande caso internacional.
Holmes acenou recusando o elogio, embora seu sorriso mostrasse que ele lhe agradara.
— Houve alguma coisa de interesse?
— Penso que não. Os ladrões saquearam a biblioteca, e conseguiram muito pouco pelo seu trabalho. Todo o local foi revolvido. As gavetas e os armários foram arrombados, resultando no desaparecimento de um bizarro volume de Homero, traduzido por Pope, dois candelabros de prata, um peso de papéis de marfim, um pequeno barómetro de carvalho e um rolo de barbante.
— Que extraordinária coleção! — exclamei.
— Oh! Evidentemente, eles levaram tudo o que puderam apanhar.
Holmes grunhiu do sofá.
— A polícia do condado precisava ver isso — disse ele. — Ora essa, é evidente, sem dúvida alguma, que...
Mas eu levantei o dedo em sinal de advertência:
— Meu caro, você está aqui para descansar. Pelo amor de Deus, não se envolva com outro problema quando tem os nervos em fiapos.
Holmes encolheu os ombros com um olhar de cômica resignação para o coronel, e a conversação enveredou por caminhos menos perigosos.
Estava escrito, porém, que todo o meu cuidado profissional seria tempo perdido, porque na manhã seguinte o problema foi-nos imposto de maneira tal que se tornou impossível ignorá-lo. E nossa estada na província tomou um rumo que nenhum de nós podia prever. Tomávamos o café matinal quando o mordomo do coronel entrou na sala sem qualquer cerimônia.
— Ouviu as notícias, senhor?! — arfou ele. — Na casa dos Cunninghams, senhor!
— Roubo? — indagou o coronel, com a xícara de café a meio caminho da boca.
— Assassinato!
O coronel assobiou.
— Por Júpiter! Quem morreu? O juiz de paz ou o filho?
— Nenhum deles, senhor. Foi William, o cocheiro. Alvejaram-no no coração, e nunca mais falou.
— Quem o alvejou, então?
— O ladrão, senhor. E depois fugiu como uma bala e desapareceu. Tinha entrado pela janela da copa, quando William se atirou a ele e encontrou a morte na defesa da propriedade do seu patrão.
— A que horas?
— À noite passada, mais ou menos à meia-noite.
— Bem, vamos lá imediatamente — disse o coronel, recomeçando friamente a tomar o desjejum. — É um negócio sujo — acrescentou, quando saiu o mordomo. — O velho Cunningham é o principal fidalgo da região. É uma pessoa muito decente. Isso vai afligi-lo bastante, porque o homem estava a seu serviço há muitos anos, e era um étimo empregado. Evidentemente, deve ser o mesmo tratante que entrou na casa de Acton.
— E roubou aquela coletânea tão estranha? — perguntou Holmes, pensativo.
— Exatamente.
— Hum! Talvez seja o acaso mais simples do mundo; todavia, à primeira vista, é um tanto curioso, não é? Era de esperar que um bando de ladrões, agindo no interior, variasse o cenário de suas operações, e não fizesse dois furtos no mesmo distrito em poucos dias. Quando o senhor falou a noite passada em tomar precauções, lembro-me de que me passou pela cabeça que esta provavelmente seria a última paróquia da Inglaterra a que um ladrão, ou ladrões, voltariam sua atenção; o que mostra que ainda tenho muito o que aprender.
— Deve tratar-se de algum profissional da região — disse o coronel. — Nesse caso, as casas de Acton e de Cunningham eram exatamente as que lhe podiam interessar, pois são as maiores que há por aqui.
— E eles são os mais ricos?
— Devem ser, mas tiveram uma demanda durante alguns anos, o que sugou o sangue a ambos, suponho eu. Parece que o velho Acton tem direito a metade das propriedades de Cunningham, e os advogados agarraram-se a isso com as duas mãos.
— Se o ladrão for daqui, não será difícil dar-lhe caça — disse Holmes com um bocejo. — Está certo, Watson, não tenciono intrometer-me.
— O inspetor Forrester, senhor — anunciou o mordomo, abrindo a porta com ímpeto.
Entrou o oficial, que era jovem, inteligente e de fisionomia viva.
— Bom dia, coronel. Não queria incomodá-lo, mas ouvi dizer que o Sr. Holmes, da Baker Street, está aqui.
O coronel fez um gesto com a mão em direção a meu amigo, e o inspetor fez uma vênia.
— Pensamos que talvez o senhor quisesse intervir.
— O destino está contra você, Watson — disse ele, rindo. — Estávamos conversando sobre o assunto quando o senhor entrou — disse ao inspetor. — Talvez nos possa dar alguns pormenores.
Inclinou-se para trás em sua cadeira, na atitude que lhe era familiar, e então percebi que o caso era sem esperança.
— Não tínhamos nenhum indício no caso de Acton. Mas neste temos uma porção deles para seguir, e não há dúvida de que foi a mesma pessoa que visitou ambas as casas. O homem foi visto.
— Ah!
— Sim, senhor. Mas fugiu como um veado depois do tiro que matou o pobre William Kirwan. O Sr. Cunningham viu-o da janela do quarto, e o Sr. Alec Cunningham viu-o do corredor dos fundos. Faltava um quarto para a meia-noite quando soou o alarme. O Sr. Cunningham acabava de se deitar, e o Sr. Alec, de roupão, fumava uma cachimbada em seu quarto de vestir. Ambos ouviram William, o cocheiro, pedindo socorro. O Sr. Alec desceu correndo para ver o que era. A porta dos fundos estava aberta, e quando chegou ao pé da escada, viu dois homens lutando do lado de fora. Um deles atirou, o outro caiu, e o assassino correu então através do jardim e pulou a cerca. O Sr. Cunningham, olhando pela janela de seu quarto, viu o indivíduo quando este chegava à estrada, mas logo o perdeu de vista. O Sr. Alec abaixou-se para ver se podia prestar auxílio ao moribundo, e entrementes o bandido fugiu. Além do fato de que era um homem de estatura média e vestido de preto, não temos mais nenhum indício pessoal. Estamos, porém, fazendo rigorosas investigações. Se for de fora, nós o descobriremos rapidamente.
— O que William fazia lá? Disse alguma coisa antes de morrer?
— Nem uma palavra. Mora na casa do guarda com sua mãe, e, como era um rapaz muito fiel, supomos que foi à casa com a intenção de ver se tudo ia bem. Como é natural, o caso de Acton pôs todo mundo de sobreaviso. O ladrão acabava de arrombar a porta, pois a fechadura fora forçada, quando William o apanhou.
— William disse alguma coisa à mãe antes de sair?
— Ela é muito velha e surda, e não lhe pudemos arrancar nenhuma informação. O choque deixou-a apatetada. Mais tarde fui informado de que ela nunca foi lúcida. Há, porém, uma circunstância muito importante. Olhem para isto!
E tirou um pedaço de papel rasgado de uma agenda, que alisou sobre o joelho.
— Isto foi encontrado entre o indicador e o polegar do morto. Parece um fragmento rasgado de uma folha grande. O senhor verá que a hora aqui mencionada é a mesma em que o pobre rapaz encontrou a morte. Pode supor-se que o assassino lhe arrebatou o resto da folha, ou ele, ao assassino. Parece tratar-se de um encontro marcado.
Holmes pegou na tira de papel, cujo fac-símile vai aqui reproduzido.
— Admitindo-se que fosse um encontro combinado — continuou o inspetor —, então deve supor-se que esse William Kirwan, que possuía a reputação de honesto, podia ter ligação com o gatuno. Podia tê-lo encontrado lá, e até auxiliado a arrombar a porta. Depois, podiam ter-se desavindo entre si.
— Este escrito é de extraordinário interesse — disse Holmes, examinando-o com cuidado e concentração. — As águas são muito mais profundas do que pensei. — E meteu a cabeça entre as mãos; o inspetor riu-se do efeito que o caso produzira no famoso especialista londrino. — Sua última observação — disse Holmes no mesmo instante —, quanto à possibilidade de ter havido cumplicidade entre o ladrão e o empregado, e de ser esta uma nota de compromisso entre eles, é uma suposição engenhosa e, aliás, não totalmente impossível. Porém, este escrito começa... — e mergulhou novamente a cabeça entre as mãos, permanecendo por alguns instantes na mais profunda concentração. Quando levantou o rosto, fiquei surpreso ao ver que tinha o rosto corado e os olhos brilhantes como antes de sua doença. Em seguida, levantou-se com toda a sua antiga energia.
— Eu lhe direi! — exclamou. — Gostaria de dar uma rápida olhadela nos pormenores deste caso. Há nele certas coisas que me fascinam extremamente. Se me permitir, coronel, eu o deixarei com meu amigo Watson e irei com o inspetor para verificar o acerto de uma ou duas pequenas fantasias minhas. Estarei novamente com vocês dentro de meia hora.
Passava já de hora e meia quando o inspetor voltou sozinho.
— O Sr. Holmes anda para baixo e para cima no campo em volta da casa — disse-nos. — E quer que subamos os quatro à casa.
— À casa do Sr. Cunningham?
— Exatamente.
— Para quê?
O inspetor encolheu os ombros.
— Não sei, senhor. Cá entre nós, penso que o Sr. Holmes ainda não se restabeleceu completamente. Tem-se conduzido de modo muito esquisito e está muito excitado.
— Acho que não precisa se alarmar — disse eu. — Geralmente, tenho verificado que há método em sua loucura.
— Aliás, pode haver quem diga que há loucura em seu método — murmurou o inspetor. — Mas ele está ansioso por prosseguir, coronel, de modo que o melhor é irmos, se estiverem prontos.
Encontramos Holmes andando de um lado para outro, com o queixo enterrado no peito e as mãos metidas nos bolsos das calças.
— O caso ganha em interesse — disse ele. — Watson, sua excursão ao interior foi um enorme êxito. Estamos tendo uma manhã encantadora.
— Ouvi dizer que o senhor já esteve no local do crime — falou o coronel.
— Sim. O inspetor e eu já fizemos um reconhecimento rápido, mas completo.
— Algum resultado?
— Ora, vimos coisas interessantes. Eu lhes direi o que fizemos enquanto caminhamos. Primeiro, vimos o corpo do pobre homem. Morreu certamente de um ferimento a bala, como dizem.
— Então o senhor tinha dúvidas?
— Oh, é bom comprovar tudo. Nossa inspeção não foi em vão. Entrevistamos o Sr. Cunningham e o filho, que mostraram o lugar exato onde o ladrão pulou a cerca do jardim na sua fuga. Era de grande interesse.
— Naturalmente.
— Em seguida, fomos ver a mãe do pobre rapaz. Por mais que nos esforçássemos, não pudemos obter nenhuma informação dela, porque é muito velha e fraca da cabeça.
— E qual o resultado de suas investigações? — perguntei.
— A convicção de que o crime é muito peculiar. Nossa visita talvez possa descobrir alguma coisa que o torne mais claro. Creio que estamos perfeitamente de acordo, inspetor, em que o fragmento de papel na mão do morto, indicando a hora exata de sua morte, é de extrema importância.
— Ele podia dar-nos uma pista, Sr. Holmes.
— Com efeito, ele a dá. Quem quer que tenha escrito a carta, foi o homem que tirou William Kirwan da cama àquela hora. Mas onde está o resto dessa folha de papel?
— Examinei o chão com todo o cuidado na esperança de encontrá-lo — disse o inspetor.
— Foi rasgada da mão do morto. Por que alguém haveria de desejá-la? Naturalmente, porque ela o incrimina. E o que faria com ela? Muito provavelmente a meteria no bolso, sem notar que um canto dela ficara nas mãos do cadáver. Se pudéssemos achar o resto da folha, é claro que teríamos progredido muito na solução do mistério.
— Exatamente! Mas como revistar o bolso do criminoso antes de prendê-lo?
— Bem, vale a pena pensar nisso. Há ainda outro ponto claro. A carta foi enviada a William. Quem a escreveu não podia levá-la; do contrário, transmitiria sua mensagem verbalmente. Quem levou-lhe a carta, então? Ou teria sido enviada pelo correio?
— Já investiguei — respondeu o inspetor. — William recebeu uma carta pelo correio ontem à tarde. O envelope foi destruído por ele.
— Excelente! — exclamou Holmes, dando umas palmadinhas nas costas do inspetor. — O senhor já falou com o carteiro. É um prazer trabalhar com o senhor. Bem, aqui está a casa; se o senhor quiser entrar, coronel, mostrar-lhe-ei o local do crime.
Passamos pela casinha onde morava o cocheiro, e subimos uma alameda ladeada de carvalhos até uma bonita casa do tempo da rainha Ana, que ostentava a data de Malplaquet sobre o dintel da porta. Holmes e o inspetor fizeram-nos contorná-la até chegarmos a um portão lateral, separado da cerca que ladeia a estrada por um trecho de jardim. Um policial estava de guarda à porta da cozinha.
— Abra a porta, oficial — disse Holmes. — Ora, foi nesta escada que o jovem Cunningham esteve, e viu os dois lutando justamente onde nós estamos. O velho Cunningham estava naquela janela... a segunda, à esquerda, e dali viu o indivíduo desaparecer à esquerda daquela moita. O filho, também. Ambos estão certos disso por causa da moita. Então o Sr. Alec saiu correndo e ajoelhou-se ao lado do ferido. O chão está muito duro, como vêem, e não há rastros para nos guiarem.
Enquanto falava, dois homens desceram a trilha do jardim, rodeando o canto da casa. Um era velho, de semblante grave, olhos fundos e tristes; o outro era um jovem impetuoso, cuja expressão, brilhante e sorridente, e a roupa esplêndida faziam um contraste estranho com o que nos trouxera ali.
— Ainda continua com isso? — disse ele a Holmes.
— Pensei que os londrinos nunca falhassem. O senhor não me parece assim tão rápido.
— Ah, é preciso dar-nos um pouco mais de tempo — respondeu Holmes, bem-humorado.
— Como quiser — disse o jovem Cunningham. — Podemos ajudá-lo a recolher indícios?
— Há apenas um — respondeu o inspetor. — Pensávamos que podíamos descobrir... Céus! O que houve, Sr. Holmes?
O rosto de meu pobre amigo apresentou de repente a mais terrível expressão. Seus olhos viraram-se para cima, seu rosto contraiu-se numa agonia e, com um sufocado gemido, caiu com o rosto no chão. Horrorizados com a rapidez e a violência do ataque, levamo-lo para a cozinha, onde o deitamos sobre um banco e o abanamos por alguns minutos. Finalmente, desculpando-se de sua fraqueza e com expressão de vergonha, levantou-se outra vez.
— Watson pode dizer-lhes que acabo de me restabelecer de uma prolongada doença — explicou-lhes. — Estou sujeito a estes repentinos ataques de nervos.
— Mandarei alguém levá-lo a casa de carro — propôs o velho Cunningham.
— Ora, visto que estou aqui, quero ver uns pormenores que gostaria muito de elucidar. Podemos verificá-los muito facilmente.
— De que se trata?
— Ora, parece-me muito possível que a chegada desse pobre William não tenha se dado antes, mas depois de o ladrão entrar na casa. O senhor parece estar certo de que, embora a porta tivesse sido arrombada, o ladrão não chegou a entrar na casa.
— Penso que é muito claro — disse o st. Cunningham com gravidade, — Visto que meu filho Alec ainda não fora deitar-se, certamente teria ouvido alguém a andar por aí.
— Onde ele estava sentado?
— Eu estava fumando em meu quarto de vestir.
— Em que janela?
— A última à esquerda, perto da de meu pai.
— Nesse caso, ambas as velas estavam acesas?
— Sem dúvida alguma.
— Há aqui pontos muito curiosos — disse Holmes, sorrindo. — Não é extraordinário que um ladrão... e um ladrão que já tenha experiência, entrasse deliberadamente numa casa no momento em que podia ver pela luz acesa que dois membros da família ainda estavam acordados?
— Ele deve ter agido com audácia e sangue-frio.
— Claro; se o caso não fosse esquisito, não lhe teríamos pedido auxílio — disse o Sr. Alec. — Mas, quanto à sua idéia de que o homem teria roubado a casa antes de William atacá-lo, julgo-a absurda. Não teríamos encontrado o local desarrumado e dado pela falta dos objetos que ele levasse?
— Depende — respondeu Holmes. — O senhor deve lembrar-se de que estamos lidando com um ladrão muito especial, que parece ter linhas próprias de ação. Olhe, por exemplo, para a porção de coisas esquisitas que levou da casa de Acton: o que eram? Uma bola de barbante, um peso de papéis e não sei que outras bugigangas!
— Bem, estamos inteiramente em suas mãos, Sr. Holmes — disse o velho Cunningham. — Tudo o que o senhor ou o inspetor sugerirem será feito imediatamente.
— Em primeiro lugar — disse Holmes —, gostaria que o senhor oferecesse uma recompensa... como iniciativa sua, para que os funcionários não percam muito tempo discutindo a respectiva quantia, pois essas coisas não se fazem correndo. Já rascunhei aqui a fórmula, se o senhor não vir inconveniente em assiná-la. Cinqüenta libras são suficientes, penso eu.
— Eu daria de boa vontade cem libras — respondeu o juiz de paz, pegando na tira de papel e no lápis que Holmes lhe oferecia.
— Mas isso não está certo — disse ele, olhando para o documento.
— Escrevi-o muito às pressas.
— Como vê, o senhor começa assim: "Devia faltar um quarto para a uma hora, na manhã de terça-feira, quando foi feita uma tentativa...", e assim por diante. Na realidade, era um quarto para a meia-noite.
Fiquei angustiado com o engano, porque sabia como Holmes havia de sentir um deslize dessa natureza. A exatidão nos fatos era sua especialidade. Mas sua recente doença abalara-o, e o incidente, embora insignificante, me mostrou que ele ainda estava longe de ser o mesmo. Ficou claramente embaraçado por um instante. O inspetor arregalou os olhos, e Alec Cunningham soltou uma gargalhada. O velho Cunningham corrigiu o engano e devolveu o papel a Holmes.
— Mande publicá-lo o mais depressa possível — disse ele.
Holmes pôs cuidadosamente a tira de papel em sua carteira.
— E agora — continuou —, seria realmente bom que percorrêssemos todos juntos a casa para verificar se este excêntrico ladrão não levou nada com ele.
Antes de entrar, Holmes examinou a porta que fora forçada. Era evidente que fora introduzido um formão ou canivete na fechadura, forçando-a para trás. Vimos as marcas na madeira, no lugar onde fora empurrada.
— O senhor não usa trancas?
— Nunca as julgamos necessárias.
— Não tem cão?
— Temos. Mas está preso do outro lado da casa.
— A que horas se deitam seus criados?
— Cerca das dez horas.
— Seria portanto natural que a essa hora William estivesse também na cama?
— Perfeitamente.
— É curioso que na noite do crime estivesse acordado. Ora, ficarei muito contente se o senhor quiser ter a bondade de nos mostrar toda a casa, Sr. Cunningham.
Um corredor de laje, com uma cozinha ao fundo, dava, por uma escada de madeira, diretamente para o primeiro andar, e terminava num terraço fronteiriço; depois, havia uma segunda escada, mais ornamentada, que levava para o pórtico da fachada. Daí entrava-se na sala de estar e em diversos quartos, incluindo o do Sr. Cunningham e o do filho.
Holmes andava devagar, anotando com cuidado a planta da casa. Eu podia adivinhar pela sua expressão que estava na pista certa, mas não podia imaginar, nem de longe, em que direção as suas deduções o levavam.
— Meu caro senhor — disse o Sr. Cunningham —, isso é sem dúvida alguma desnecessário. Aquele ao fundo da escada é meu quarto, o do meu filho fica do outro lado. Deixo a seu critério se seria possível ao ladrão subir até aqui sem nos perturbar.
— O senhor deve dar meia-volta e tentar descobrir uma pista fresca, creio eu — disse o filho com um sorriso malicioso.
— Paciência; preciso pedir-lhes que tenham um pouco mais de paciência comigo. Gostaria, por exemplo, de ver a que distância do chão ficam as janelas da frente. Este, suponho, é o quarto de seu filho — e empurrou a porta —, e este outro, presumo, é o quarto de vestir onde Alec Cunningham estava fumando quando foi dado o alarme. Para onde dá a janela daquele? — Dirigiu-se para o quarto, abriu a porta e olhou em volta.
— Suponho que agora já esteja satisfeito — falou o Sr. Cunningham de mau humor.
— Muito obrigado; creio que já vi tudo o que queria.
— Então, se for realmente necessário, podemos entrar em meu quarto.
— Se não for pedir demais.
O juiz de paz encolheu os ombros e abriu caminho para seu próprio quarto, que era comum e mobiliado com simplicidade. Caminhando na direção da janela, Holmes atrasou-se tanto que eu e ele éramos os últimos do grupo. Perto da cama havia uma mesa quadrada sobre a qual estavam uma fruteira com laranjas e uma garrafa de água. Ao passar por ela, para meu enorme espanto, curvou-se à minha frente e esbarrou nela, derrubando-a com tudo o que estava em cima.
O que era de vidro fez-se em mil pedaços, e as frutas rolaram pêlos quatro cantos do quarto.
— Que lindo serviço, Watson! — disse ele friamente.
— Veja a porcaria que fez no tapete.
Baixei-me confuso para apanhar as frutas, compreendendo que devia haver um motivo para que meu companheiro quisesse que eu arcasse com a culpa. Os outros ajudaram-me, e a mesa foi posta de pé novamente.
— Oh! — exclamou o inspetor. — Aonde foi ele? Holmes desaparecera.
— Esperem um instante — disse o jovem Cunningham. — O homem não regula bem da cabeça, parece-me. Venha, pai, vamos ver para onde foi.
Saíram do quarto, deixando o inspetor, o coronel e eu a olharmos uns para os outros.
— Palavra que estou quase concordando com o Sr. Alec — disse o oficial. — Pode ser o efeito da doença, mas parece-me que...
Suas palavras foram cortadas por um grito repentino de alarme. "Socorro! Socorro! Assassino!" Com um estremecimento, reconheci a voz de meu amigo. Saí como louco do quarto para o patamar. Os gritos, que se transformavam num rouco e inarticulado berreiro, vinham do quarto que visitáramos primeiro. Precipitei-me para lá, e depois para o quarto de vestir.
Ambos os Cunninghams estavam curvados sobre a figura prostrada de Sherlock Holmes; o mais jovem apertava-lhe a garganta com ambas as mãos, e o mais velho pareceu-me estar torcendo seu pulso. Num instante os separamos, e Holmes cambaleou para ficar de pé, muito pálido, evidentemente exausto.
— Prenda estes homens, inspetor! — arfou ele.
— Sob que acusação?
— A do assassínio do cocheiro William Kirwan!
O inspetor olhou-o, muito confuso.
— Oh, Sr. Holmes, ora vamos — disse ele —, estou certo de que o senhor não quer dizer que...
— Basta, homem, olhe para a cara deles! — gritou Holmes secamente.
Era verdade; jamais vi uma confissão de culpa mais completa em rosto humano. O velho parecia entorpecido e pasmado, com uma expressão grave e sombria que lhe marcava fortemente o rosto. O filho, por outro lado, perdera toda a altivez, a maneira impetuosa que o caracterizava, e a ferocidade de um animal selvagem brilhava em seus olhos escuros, deformando-lhe as feições correias. O inspetor nada mais disse.
Dirigiu-se para a porta e soprou seu apito. Dentro de poucos instantes, dois guardas apareceram.
— Não tenho outra alternativa, Sr. Cunningham — disse ele. — Espero que tudo isto venha a ser um absurdo engano; mas pode ver que... Quer fazer o favor? Solte-o!
— Bateu com a mão, e um revólver, cujo gatilho o mais jovem tentava nesse momento premir, retiniu no soalho.
— Guarde-o — disse Holmes, pondo-lhe rapidamente o pé em cima. — Vai ver que lhe será muito útil no tribunal. Mas era isto o que realmente queríamos. — E sacou um pequeno pedaço de papel amarrotado.
— O resto da folha? — gritou o inspetor.
— Exatamente.
— E onde estava?
— Onde eu estava certo de que devia estar. Esclarecer-lhe-ei agora mesmo todo o assunto. Creio, coronel, que o senhor e Watson podem ir-se agora. Estarei com vocês dentro de uma hora no máximo. O inspetor e eu precisamos trocar uma palavra com os prisioneiros. Mas estarei de volta para o almoço.
Sherlock Holmes cumpriu sua palavra, pois cerca de uma hora depois estava conosco na sala de fumar do coronel. Estava acompanhado por um cavalheiro baixo e de certa idade, que foi apresentado como o Sr. Acton, cuja casa fora objeto do primeiro furto.
— Eu queria que o Sr. Acton estivesse presente enquanto eu lhes explico este caso — disse Holmes —, porque é natural que ele tenha o mais vivo interesse pêlos pormenores. Receio, meu caro coronel, que lamente a hora em que deixou entrar em sua casa um pássaro de tormenta como eu.
— Pelo contrário — respondeu o coronel calorosamente —, considero que o maior privilégio foi ter-me sido permitido observar seus métodos de atuação. Confesso que eles excederam minhas expectativas, e que sou inteiramente incapaz de explicar seu resultado. Não vi ainda o menor vestígio de um indício.
— Temo que minha explicação possa desiludi-lo, mas sempre tive o hábito de não ocultar nenhum de meus métodos, quer a meu amigo Watson, quer a qualquer outro que por eles mostre um interesse inteligente. Mas antes, como estou muito abalado pelo ataque no quarto de vestir, creio que me faria bem um trago de seu licor, coronel. Minhas forças foram submetidas a uma dura prova ultimamente.
— Espero que não tenha mais daqueles ataques de nervos.
Sherlock Holmes riu cordialmente.
— Chegaremos a isso na devida hora — disse ele. — Eu lhes farei a narrativa dos acontecimentos na ordem certa, mostrando-lhes os vários pontos que me guiaram em minha decisão. Interrompam-me, por favor, se houver qualquer explicação que não seja perfeitamente clara.
"É da mais alta importância, na arte da dedução, distinguir em determinados fatos os que são incidentais e os que são fundamentais. De outra forma, a energia e a concentração se dissiparão, em vez de se concentrarem. Ora, neste caso, não tive, desde o princípio, a mais leve dúvida de que a chave de todo o problema tinha de ser procurada no pedaço de papel que o morto tinha na mão.
"Antes de entrar nisso, quero chamar sua atenção para o fato de que, se a narrativa de Alec Cunningham fosse verdadeira, e se o assaltante, depois de atirar em William Kirwan, tivesse fugido instantaneamente, então é claro que não podia ser ele quem arrancara o papel da mão do morto. Mas, se não fora ele, devia ter sido o próprio Alec Cunningham, porque, quando o velho desceu, vários criados já estavam no local. O pormenor é simples, mas o inspetor desprezara-o, porque tinha partido da hipótese de que aqueles magnatas do condado nada tinham a ver com a coisa. Ora, faço questão de nunca ter qualquer preconceito e de seguir docilmente qualquer fato que me oriente, e assim, na primeira fase da investigação, considerei com um pouco de desconfiança a parte que fora representada pelo Sr. Alec Cunningham.
"Fiz então um exame cuidadoso no pedaço de papel que o inspetor nos tinha mostrado. Logo me pareceu que ele formava parte de um documento muito importante. Aqui está ele. Não notam qualquer coisa muito sugestiva a seu respeito?"
— Tem um aspecto muito irregular — observou o coronel.
— Meu caro senhor — exclamou Holmes —, não pode restar a menor dúvida de que foi escrito por duas pessoas formando palavras alternadas. Se lhe chamar a atenção para os tt fortes de "quarto" e meia-noite", e lhe pedir para compará-los com o de "quanta", reconhecerá imediatamente esse fato. Uma breve análise dessas quatro palavras o habilitaria a dizer com a máxima confiança que o "verá" e o "pode ser" também são escritos com mão forte, e o "quanta", com mão mais fraca.
— Por Júpiter! É claro como o dia — gritou o coronel. — Por que razão esses dois homens haviam de escrever uma carta desse modo tão estranho?
— É evidente que o negócio era sujo, e um dos homens, que desconfiava do outro, estava resolvido, acontecesse o que acontecesse, a que cada um devia ter nele parte igual. Ora, está claro que aquele dos dois homens que escreveu "quarto" e "meia-noite" era o cabeça.
— Como chega a essa conclusão?
— Poderíamos deduzir isso simplesmente pelas características da letra, comparada com a outra. Mas temos razões mais seguras do que essa. Se examinar este pedaço de papel com atenção, chegará à conclusão de que o homem de mão forte escreveu primeiro todas as suas palavras, deixando os espaços para o outro preencher. Esses espaços nem sempre foram suficientes, e o senhor pode ver que o segundo homem teve pouco espaço para colocar o seu "para a" entre "quarto" e "meia-noite", o que mostra que essas palavras já estavam escritas. O que escreveu todas as palavras primeiro é sem dúvida alguma o que planejou este negócio.
— Excelente! — gritou o Sr. Acton.
— Mas muito superficial — respondeu Holmes. — Entretanto, chegamos agora ao ponto mais importante. Os senhores talvez não saibam que o cálculo da idade de um homem pela sua caligrafia tem sido levado a considerável exatidão pêlos peritos. Em casos normais, pode-se colocar um homem em sua verdadeira década com suficiente segurança. Digo em casos normais, porque o mau estado de saúde e a fraqueza física apresentam sinais de velhice, mesmo quando o inválido é jovem. Nesse caso, olhando-se para a mão forte e ousada de um e para a aparência muito arqueada da do outro, mas que ainda conservava sua legibilidade, embora os tt tenham começado a perder os cortes, podemos dizer que um era jovem e outro, avançado em anos, sem ser positivamente decrépito.
— Excelente — exclamou o Sr. Acton outra vez.
— Há ainda um ponto, entretanto, que é mais sutil e de maior interesse. Há qualquer coisa em comum nessas duas caligrafias. Elas pertencem a homens que são parentes. Ao senhor pode parecer muito claro nos ss, mas para mim há pontos muito menores que indicam a mesma coisa. Não tenho a menor dúvida de que um maneirismo de família pode ser identificado nesses dois espécimes de caligrafia. É claro que estou dando agora apenas os resultados principais de meu exame do papel. Há vinte e três outras deduções que seriam de mais interesse para os peritos do que para os senhores. Tudo tendia a enraizar em mim a impressão de que os Cunninghams, pai e filho, escreveram o bilhete. Depois de ir tão longe, eu devia, sem dúvida, entrar nos pormenores do crime e ver até onde poderiam auxiliar-nos. Fui à casa com o inspetor e vi tudo o que se devia ver. O ferimento do morto era, como pude determinar com absoluta segurança, causado por uma bala de revólver atirada a uma distância de menos de quatro metros... Não havia enegrecimento de pólvora na roupa. Claro que Alec Cunningham mentira quando dissera que os dois homens estavam lutando quando soou o tiro. Além disso, pai e filho concordam quanto ao local na estrada onde o homem desapareceu. Acontece, porém, que nesse ponto há uma fossa larga, com lama no fundo. Como não houve indícios de pegadas de botas ao redor dessa fossa, não só fiquei absolutamente certo de que os Cunninghams mentiam outra vez, como ainda de que, de fato, nunca houve esse homem desconhecido em cena.
"Então, tinha de imaginar o motivo daquele crime singular. Para chegar a ele, tive de me esforçar primeiro para descobrir a razão do primeiro furto em casa do Sr. Acton. Soube, devido a alguma coisa que o coronel nos contou, que há uma ação judiciária em andamento entre o senhor, Sr. Acton, e os Cunninghams. É claro que logo me ocorreu que eles tinham assaltado sua biblioteca com a intenção de se apossarem de algum documento que podia ser de muita importância no caso."
— Exatamente — disse o Sr. Acton. — Não pode haver a menor dúvida possível quanto às suas intenções. Tenho o mais legítimo direito a metade de suas propriedades atuais, e se pudessem descobrir certo papel, que felizmente estava no cofre de meus advogados, teriam invalidado com certeza nossa ação.
— Aí está — disse Holmes, sorrindo. — Foi uma tentativa perigosa e temerária, na qual procurei descobrir a influência do jovem Alec. Não tendo descoberto nada, tentaram desviar as suspeitas fazendo com que parecesse um furto comum, e para isso levaram tudo aquilo em que puderam deitar a mão.
"Tudo isso está bastante claro, mas havia muita coisa que continuava obscura. O que eu queria, acima de tudo, era conseguir a parte da folha que faltava. Eu estava certo de que Alec a arrancara da mão do morto, e quase certo de que ele a devia ter colocado no bolso do roupão. Em que outro lugar poderia tê-la colocado? A única questão era saber se ainda estaria lá. Valia um esforço investigá-lo. E para esse fim fomos todos à casa.
"Os Cunninghams juntaram-se a nós, como sem dúvida se lembram, do lado de fora da porta da cozinha. Era, portanto, da máxima importância que não se lembrassem da existência desse papel, pois logo o destruiriam. O inspetor estava para lhes revelar nosso interesse quando, pela casualidade mais feliz do mundo, sofri uma espécie de ataque, e assim se desviou a conversa."
— Valha-me Deus! — exclamou o coronel, sorrindo. — O senhor quer dizer que toda a nossa simpatia foi desperdiçada, e seu ataque era uma impostura!
— Falando como profissional, foi admiravelmente realizado — disse eu, olhando com espanto para aquele homem que sempre me confundia com alguma nova faceta da sua astúcia.
— É uma arte muitas vezes útil — disse ele. — Quando me restabeleci, elaborei um plano que talvez tivesse um pouco de ingenuidade, para levar o velho Cunningham a escrever a palavra "meia-noite" a fim de compará-la com a "meia-noite" do papel.
— Oh! Que tolo fui eu! — exclamei.
— Eu notei que você estava com pena de minha fraqueza — disse Holmes com uma risada. — Fiquei triste por causar essa simpática dor que eu sei que sentia. Então, subimos juntos a escada e, entrando no quarto e vendo o roupão pendurado atrás da porta, pensei em fazer cair a mesa para prender a atenção deles por alguns momentos, enquanto me esgueirava para lhe revistar os bolsos. Entretanto, mal eu tinha conseguido o papel, que estava num dos bolsos, como esperava, quando os Cunninghams caíram sobre mim, e creio verdadeiramente que me teriam assassinado ali, não fora o auxílio pronto e amigo dos senhores. Por assim dizer, ainda sinto a pressão dos dedos do jovem ao redor de minha garganta, e o pai torcendo-me o pulso na ânsia de me arrancar o papel da mão. Viram que eu devia saber tudo a respeito do caso e, como compreendem, a mudança repentina da segurança absoluta para um completo desalento tornou-os inteiramente desesperados.
"Depois, falamos um pouco com o velho Cunningham sobre o motivo do crime. Estava bastante tratável. Mas seu filho parecia um perfeito demónio, pronto a fazer saltar seus próprios miolos ou os de qualquer outro se pudesse agarrar um revólver. Quando Cunningham viu que a acusação contra ele era muito grave, perdeu todo o ânimo e fez uma confissão completa de tudo. Parece que William seguiu os dois amos secretamente, na noite em que fizeram o assalto à casa do sr. Acton, e, tendo-os assim em seu poder, ameaçava revelar tudo para explorá-los. Todavia, o Sr. Alec era um homem muito perigoso para um jogo daquela espécie. Foi uma façanha de gênio de sua parte ver no sobressalto do ladrão, que convulsionou toda a região, uma oportunidade para se livrar airosamente do homem que temia. William foi traído e alvejado; e, caso eles se tivessem apossado da carta toda e dessem um pouco mais de atenção aos pormenores, é bem possível que a suspeita nunca se levantasse.
— E a carta?
Sherlock Holmes juntou os dois papéis diante de nós.
— É exatamente a espécie de coisa que eu esperava — disse-nos. — Certamente, não podemos saber ainda que relações pode ter havido entre Alec Cunningham, William Kirwan e essa Annie Morrison. O resultado, de qualquer modo, mostra que a ratoeira foi habilmente armada. Estou certo de que os senhores não podem deixar de se deleitar com os traços de hereditariedade mostrados no p e no g. A ausência dos pingos nos ii, na letra do velho, também é característica. Watson, creio que nosso tranqüilo descanso no campo foi um verdadeiro triunfo, e certamente voltarei muito mais revigorado à Baker Street amanhã.

SHERLOCk HOLMES - O ritual Musgrave

Arthur Conan Doyle
O ritual Musgrave

Título original: The Musgrave Ritual
Publicado pela primeira vez na Strand Magazine,
em Maio de 1893 e com 6 ilustrações de Sidney Paget.

Sobre o texto em português:
Este texto digital reproduz a
tradução de The Musgrave Ritual publicado em
As Aventuras de Sherlock Holmes, Volume III,
editado pelo Círculo do Livro
e com tradução de Hamílcar de Garcia.
Uma anomalia que muitas vezes me chocou na personalidade de meu amigo Sherlock Holmes era que, muito embora seus métodos de pensamento fossem os mais esmerados e lógicos da humanidade, e embora afetasse também certo pedantismo sóbrio no trajar, apesar disso, nos hábitos pessoais era um dos homens menos asseados que já arrastaram um companheiro de quarto ao desespero. Não que eu próprio seja convencional nesse aspecto. A azáfama no Afeganistão levou ao cúmulo minha natural disposição para a boêmia, e tornou-me mais relaxado do que fica bem a um médico. Mas comigo há um limite, e quando encontro uma pessoa que guarda os charutos no balde de carvão, o tabaco, nos chinelos persas, e correspondência por responder, espetada com um canivete bem no centro da prateleira da lareira, então começo a dar-me ares de virtuoso. Sempre afirmei também que o uso da pistola devia ser exclusivamente um passatempo ao ar livre; e quando Holmes, num de seus humores esquisitos, se sentava numa poltrona, com o gatilho e cem cartuchos de Boxer, e começava a adornar a parede oposta com um patriótico V. R. [1] feito a buracos de balas, eu sentia que nem a atmosfera nem a aparência de nossa sala melhoravam com isso.
Nossos alojamentos estavam sempre cheios de ingredientes químicos e relíquias de crimes, que tinham a capacidade de perambular pêlos lugares mais impróprios e reapareciam na manteigueira, ou em qualquer outro lugar ainda menos desejável. Mas seus papéis eram minha grande cruz. Tinha horror de destruir documentos, especialmente os que se relacionavam com seus casos passados. E só uma vez em cada um ou dois anos mostrava energia para rotulá-los e arrumá-los. Como já mencionei algures nestas memórias incoerentes, a explosão de energia apaixonada na execução de façanhas notáveis, às quais seu nome estava associado, era seguida por reações de letargia, durante as quais se deixava ficar com seu violino e seus livros, sem se mexer, a não ser do sofá para a mesa. Assim, mês após mês, seus papéis se acumulavam, até que cada canto da sala ficava coberto de maços de manuscritos que de modo nenhum podiam ser queimados, e só o dono podia jogá-los fora.
Uma noite de inverno, quando estávamos sentados junto do fogo, aventurei-me a sugerir-lhe que, quando acabasse de colar os extratos de sua agenda, empregasse as duas horas seguintes para tornar nossa sala um pouco mais habitável. Não pôde negar a justeza de meu pedido, de modo que, com uma cara muito triste, saiu da sala, voltando logo depois arrastando uma caixa de zinco. Colocou-a no meio do assoalho e, acocorando-se num tamborete em frente dela, destapou-a. Reparei que já era a terceira de sua coleção, cheia de maços de papéis, atados com fita vermelha em pacotes separados.
— Há aqui bastantes casos, Watson — disse ele, olhando para mim com expressão maliciosa. — Creio que, se você soubesse tudo o que esta caixa contém, me pediria que tirasse alguns, em vez de guardar os outros.
— São as notas de seus principais trabalhos, então? — perguntei. — Desejei muitas vezes ter a relação desses casos.
— Sim, meu caro; foram investigados muitos anos antes de meu biógrafo aparecer para me glorificar. — E levantou pacote após pacote, num gesto de carícia quase terna. — Watson, nem todos eles foram êxitos, sabe. Mas há aqui problemas muito curiosos. Aqui está a lista dos assassínios de Tarleton, e o caso de Vamberry, o comerciante de vinho, a aventura da velha russa, o caso singular da muleta de alumínio, bem como uma narrativa completa sobre aquele Ricoletti com o pé virado para dentro e sua abominável esposa. E aqui... ah! este é realmente muito especial.
Mergulhou o braço no fundo da caixa e retirou um pequeno estojo de madeira, com tampa corrediça, como aqueles em que se guardam os brinquedos das crianças. De dentro extraiu um pedaço de papel enrugado, uma velha chave de bronze, uma pequena estaca de madeira cravada numa bola de barbante e três discos de metal velhos e enferrujados.
— Bem, meu amigo, o que faria você desta bugiganga? — perguntou ele, sorrindo de minha expressão.
— É uma coisa curiosa!
— Muito curiosa, e a história que está ligada a ela o chocará ainda mais.
— Então estas relíquias têm uma história?
— Tanto que são história.
— Que quer dizer com isso?
Sherlock Holmes olhou-as uma por uma, e espalhou-as na borda da mesa. Depois, sentou-se de novo na cadeira, examinando-as com um brilho de satisfação nos olhos.
— Isto — disse ele — é tudo o que restou para me lembrar do episódio do ritual Musgrave.
Eu o ouvira mencionar o caso mais de uma vez, embora nunca tivesse conhecido os pormenores.
— Gostaria imenso — disse eu — que me contasse o que se passou.
— E deixar a desordem como está? — exclamou maliciosamente. — Afinal, seu gosto pelo asseio não sofrerá muito, Watson. Mas ficaria contente se você acrescentasse este caso a seus anais, porque há nele pontos que o tornam totalmente único nos registros de crimes deste ou, como creio, de qualquer outro país. Uma coleção dos meus insignificantes feitos certamente ficaria incompleta se não contivesse a narrativa deste singularíssimo caso.
"Deve lembrar-se de que o caso do Gloria Scott, e minha conversa com o infortunado homem cujo destino lhe contei, foi o primeiro a encaminhar-me para a profissão que se transformou no trabalho de minha vida. Agora que meu nome se tornou amplamente conhecido, sou geralmente considerado, tanto pelo público como pela força oficial, a corte final de apelação nos casos duvidosos. Até quando me conheceu pela primeira vez, por ocasião do caso que registrou em Um estudo em vermelho, eu já estabelecera uma considerável clientela, embora não muito lucrativa. No entanto, não sabe como foi difícil a princípio, e como me custou esperar antes de ser bem sucedido.
"Quando vim pela primeira vez a Londres, tinha meus aposentos na Montague Street, exatamente na esquina do Museu Britânico, e ocupava minhas inúmeras horas de lazer no estudo de todos os ramos da ciência que pudessem tornar-me mais eficiente. Constantemente me apareciam casos, devido principalmente à indicação de meus velhos colegas de estudo, porque, durante meus últimos anos na universidade, falavam muito a meu respeito e sobre os métodos que eu empregava. O terceiro desses casos foi o do ritual Musgrave. E foi devido ao interesse suscitado por essa singular cadeia de acontecimentos e às grandes questões que entraram em jogo, que dirigi meus primeiros passos para a posição que hoje desfruto.
"Reginald Musgrave e eu freqüentáramos o mesmo curso na universidade, e mantive com ele uma amizade superficial. Não era geralmente popular entre os não-graduados, embora sempre me parecesse que sua atitude orgulhosa era, de fato, uma tentativa para encobrir sua extrema desconfiança natural. Na aparência, era um homem de tipo excessivamente aristocrático, magro, de nariz nobre e olhos grandes, maneiras lânguidas, embora corteses. Era na verdade o descendente de uma das famílias mais antigas do reino, embora viesse de um irmão mais novo que se separara dos Musgraves do norte, no século XVI, e se estabelecera no oeste de Sussex, onde o solar de Hurlstone é talvez o edifício habitado mais antigo do condado. Qualquer coisa do lugar onde nascera me pareceu retratada no homem, e nunca olhei para seu rosto pálido e vivo, ou para a posição de sua cabeça, sem associá-lo aos arcos cinzentos, às janelas de fasquias e a todos os restos veneráveis do domínio feudal. Conversávamos bastantes vezes, e recordo que mais de uma vez ele expressou interesse por meus métodos de observação e dedução.
"Ia para quatro anos que nada sabia dele, até que uma manhã entrou em minha sala da Montague Street. Estava pouco mudado, trajava-se como jovem da alta sociedade — ele fora sempre um bocado pelintra — e mantinha a mesma maneira calma e suave que anteriormente o distinguira.
"— Como vão as coisas, Musgrave? — perguntei, depois de cordialmente apertarmos as mãos.
"— Provavelmente ouviu falar da morte de meu pobre pai — respondeu. — Foi-me arrebatado, há dois anos. Desde então tenho tido, é claro, as propriedades de Hurlstone para dirigir, e também, como membro de meu distrito, levo uma vida muito ocupada; mas fui informado, Holmes, de que você está pondo em prática aqueles poderes com que nos costumava assombrar.
"— Sim — disse eu —, resolvi viver de expedientes.
"— Fico contente de ouvi-lo dizer isso, porque neste momento seu conselho me seria excessivamente valioso. Têm se passado em Hurlstone coisas muito estranhas, e a polícia não foi capaz de esclarecer o assunto. É realmente um caso extraordinário e inexplicável.
"Deve imaginar com que ansiedade o ouvia, Watson. A verdadeira oportunidade pela qual suspirara durante todos aqueles meses de inação parecia agora a meu alcance. No mais íntimo do coração, julgava poder triunfar onde outros haviam fracassado, e agora tinha ocasião de me pôr à prova.
"— Por favor, dê-me os pormenores — exclamei.
"Reginald Musgrave sentou-se à minha frente e acendeu um cigarro que lhe passei.
"— Você sabe que, embora celibatário, tenho de manter um número de criados considerável em Hurlstone, que é um casarão muito vasto, que exige muito trabalho. E conservo-o também porque nos meses de caça ao faisão temos habitualmente uma festa em casa, e nessa altura não pode haver falta de pessoal. Há constantemente oito criadas, a cozinheira, o mordomo, dois lacaios e um menino. A chácara e os estábulos têm pessoal separado, evidentemente.
"Desses criados, aquele que esteve por mais tempo a nosso serviço foi Brunton, o mordomo. Era um jovem professor desempregado quando pela primeira vez foi contratado por meu pai. Mas era homem de grande energia e caráter, e logo se tornou inteiramente indispensável em casa. Tinha boa estatura, era bonito, com uma esplêndida fronte e, embora houvesse quase vinte anos que estava conosco, não podia ter mais de quarenta. Com suas vantagens pessoais e os extraordinários dons que possuía, pois sabia falar diversas línguas e tocar quase todos os instrumentos musicais, era espantoso que se contentasse por tanto tempo com tal posição. Suponho que convinha bem a seu comodismo e que lhe faltava energia para qualquer mudança. O mordomo de Hurlstone é sempre a coisa mais lembrada por todos os que nos visitam.
"Mas esse modelo tem um defeito. É um bocado dom juan, e deve imaginar que, para um homem como ele, não é um papel difícil de representar num pacato distrito do interior. Quando era casado, tudo ia muito bem. Acontece, porém, que ficou viúvo, e nossa luta com ele não tem fim. Alguns meses atrás tínhamos a esperança de que tudo se normalizasse de novo, pois ele contratou casamento com Rachel Howells, nossa segunda caseira. Mas desfez o noivado com ela e agarrou-se a Janet Tregeilis, filha do chefe dos guarda-caças. Rachel, que é muito boa moça, mas de excitável temperamento galês, sofreu um agudo ataque de febre cerebral. Passou a andar pela casa — como fez até ontem — como uma sombra, sem semelhança com o que fora. Foi nosso primeiro drama em Hurlstone, mas o seguinte atirou-o para segundo plano, e foi prenunciado pela desgraça e demissão do mordomo Brunton.
"Foi assim que aconteceu. Já lhe disse que o homem é inteligente. E essa mesma inteligência foi a causa de sua ruína. Parece que o levou a uma curiosidade insaciável, sobre coisas que não lhe diziam respeito. Eu não tinha a menor ideia do ponto a que esta o levaria, até que o mais insignificante incidente me abriu os olhos.
"Eu disse que é um casarão enorme. Certa noite da semana passada, na quinta-feira, para ser exato, descobri que não podia dormir por ter tomado imprudentemente uma xícara de café preto após o jantar. Depois de lutar contra a insônia até as duas da manhã, senti que era inteiramente inútil, de modo que me levantei e acendi a vela, com o intuito de continuar o romance que estava lendo. Entretanto, deixara o livro na sala de bilhar. Vesti meu roupão e saí para ir buscá-lo.
"Para chegar ao salão de bilhar, tinha de descer um lance de escadas e atravessar a parte da frente do corredor, que vai dar à biblioteca e à sala de armas. Pode imaginar minha surpresa quando, ao olhar para o fundo do corredor, vi o brilho de uma luz que vinha da porta aberta da biblioteca. Apaguei minha vela e fechei a porta que dá para o quarto. Naturalmente, minha primeira idéia foi que se tratava de ladrões. Os corredores de Hurlstone têm paredes decoradas com muitos troféus de velhas armas. De um desses retirei um machado de guerra e então, deixando minha vela, desci na ponta dos pés o corredor e espreitei pela porta aberta.
"Brunton, o mordomo, estava na biblioteca. Achava-se sentado numa cadeira de repouso, completamente vestido, com uma tira de papel, que parecia um mapa, nos joelhos, e a fronte mergulhada na mão, em profunda meditação. Fiquei mudo de espanto, observando-o da escuridão. Uma pequena vela na borda da mesa derramava uma luz fraca, mas suficiente para mostrar que estava totalmente vestido. De repente, quando eu olhava, ele se levantou da cadeira, e, dirigindo-se a uma secretária ao lado, abriu-a e puxou uma das gavetas. Desta sacou um papel e, voltando a seu assento, inclinou-se perto da vela na borda da mesa e começou a estudá-lo com muita atenção. Minha indignação pela calma com que examinava documentos de nossa família venceu-me, de modo que dei um passo em frente, e Brunton, olhando para cima, viu-me de pé no limiar da porta. Pôs-se de pé rapidamente, com o rosto lívido de medo, e enfiou no peito o papel, semelhante a um mapa, que estivera estudando.
"— Então — disse eu —, é assim que paga a confiança que temos depositado no senhor? Pode deixar seu lugar amanhã.
"Curvou-se, com a aparência de um homem que está inteiramente esmagado, e saiu sem uma palavra. A vela ficou ainda na mesa, e assim consegui ver o papel que Brunton tirara da secretária. Para minha surpresa, não tinha qualquer importância. Era simplesmente uma cópia das perguntas e respostas da velha observância chamada "ritual Musgrave". É uma espécie de cerimônia peculiar de nossa família, que cada Musgrave, por séculos, tem repetido quando chega à maioridade. . . uma coisa de interesse privado, e talvez de pouca importância até para o arqueólogo, assim como nossos brasões e armas, sem nenhum outro uso prático.
"— Voltaremos ao papel depois — disse eu.
"— Se acha realmente necessário — respondeu Musgrave, com certa hesitação. Então, continuando a narrativa, abri a secretária servindo-me da chave que Brunton deixara, e estava quase voltando para o quarto quando descobri que o mordomo regressara e estava de pé diante de mim.
"— Sr. Musgrave — exclamou ele numa voz rouca de emoção —, não posso tolerar a desgraça. Fui sempre orgulhoso, mais do que permite minha condição, e a desgraça me mataria. Meu sangue cairá sobre sua cabeça... cairá, na verdade... se me lançar no desespero. Se não pode me conservar depois do que se passou, então, pelo amor de Deus, deixe-me pedir-lhe a demissão e sair dentro de um mês, como se fosse de minha livre vontade. Poderei enfrentar isso, sr. Musgrave, mas não ser despedido diante de toda a gente que conheço tão bem.
"— Não merece muita consideração, Brunton — respondi. — Sua conduta foi muito infame. Todavia, está há muito tempo na família, e não desejo tornar pública sua desgraça. No entanto, um mês é muito. Demita-se dentro de uma semana, e dê a razão que quiser para sua demissão.
"— Somente uma semana, senhor? — gritou com voz desesperada. — Uma quinzena, diga pelo menos uma quinzena.
"— Uma semana — repeti —, e pode julgar-se tratado com muita indulgência.
"Ele arrastou-se para fora, cabisbaixo, como um homem angustiado, enquanto eu apagava a luz e voltava ao quarto.
"Durante dois dias Brunton foi muito aplicado no desempenho de seus deveres. Não fiz nenhuma alusão ao que se passara, e esperei, com certa curiosidade, para ver como iria ocultar sua desgraça. Na terceira manhã, ele não apareceu como de costume, depois da refeição matinal, para receber minhas instruções para o dia. Quando deixei a sala de jantar, aconteceu-me encontrar Rachel, a criada. Já lhe disse que ela se restabelecera havia pouco tempo de uma doença, e parecia tão pálida e lívida que a censurei por andar trabalhando.
"— Você devia estar na cama — disse-lhe. — Volte às suas obrigações quando estiver mais forte.
"Ela olhou para mim com uma expressão tão estranha que comecei a suspeitar que seu cérebro estivesse afetado.
"— Estou bastante forte, sr. Musgrave — disse ela.
"— Veremos o que diz o médico — respondi. — Você agora vai deixar de trabalhar, e quando descer diga que quero ver Brunton.
"— O mordomo foi-se embora — respondeu.
"— Foi? Para onde?
"— Foi-se embora. Ninguém o viu. Não está no quarto. Oh, sim, foi-se, foi-se! — Caiu contra a parede com acessos de riso, enquanto eu, horrorizado com aquele repentino ataque histérico, toquei a campainha para pedir auxílio. A moça foi reconduzida a seu quarto gritando e soluçando, enquanto eu fazia inquérito a respeito de Brunton. Não restava dúvida de que desaparecera. Sua cama não fora usada, não fora visto desde a noite anterior, quando se retirou para seus aposentos, e, todavia, era difícil saber como podia ter deixado a casa com todas as portas e janelas encontradas fechadas de manhã. Suas roupas, relógio e dinheiro estavam no quarto — mas o traje preto, que costumava usar, desaparecera. Os chinelos também faltavam, mas não as botas. Aonde poderia o mordomo ter ido durante a noite, e o que lhe poderia ter acontecido?
"É claro que revistamos a casa toda, mas não existia nenhum vestígio do homem. E, como disse, há o labirinto de uma casa antiga, especialmente a ala primitiva, que está agora praticamente desabitada. Mas foi examinado quarto por quarto até o sótão, sem se encontrar sinal do desaparecido. Era incrível que fugisse deixando toda a bagagem, mas onde estava ele? Chamei a polícia local, mas sem resultado. A chuva caíra durante a noite anterior, e examinamos o jardim e os caminhos em redor da casa, mas em vão. O assunto estava nesse estado quando um novo acontecimento afastou inteiramente nossa atenção do mistério original.
"Durante dois dias, Rachel permaneceu doente. Algumas vezes com delírio, outras, com histerismo. Arranjou-se uma enfermeira para passar a noite com ela. Na terceira noite depois do desaparecimento de Brunton, a enfermeira, julgando que a doente estivesse repousando, adormeceu na poltrona. Quando acordou de manhã cedo, viu o leito vazio, a janela aberta, e nenhum sinal da moça. Fui imediatamente acordado e, com os dois lacaios, saí à procura da jovem. Não foi difícil saber a direção que tomara, porque, partindo-se de sob a janela, podíamos seguir-lhe as pisadas facilmente através do bosque até a beira da lagoa, onde desapareciam, rente ao caminho encascalhado que segue em direção aos campos. A lagoa tem dois metros e meio de profundidade, e imagine o que sentimos quando vimos que o rasto da pobre demente terminava ali.
"Fomos buscar os ganchos, e imediatamente nos pusemos a trabalhar para encontrar seus restos; mas nada descobrimos. Por outro lado, trouxemos à superfície um objeto da mais inesperada espécie. Era um saco de linho, contendo uma grande quantidade de metal antigo, enferrujado e descolorido, e diversos pedaços de seixos ou vidros opacos e sem cor. Esse estranho achado foi tudo o que pudemos retirar da lagoa, e, embora ontem fizéssemos todas as pesquisas e investigações possíveis, não sabemos coisa alguma do destino de Rachel Howells nem de Richard Brunton. A polícia do condado já não sabe mais o que fazer, e eu venho ter com você como último recurso.'
"Pode imaginar, Watson, com que ansiedade ouvi essa extraordinária seqüência de acontecimentos, e como me esforcei para juntá-los e descobrir uma linha comum que os explicasse.
"O mordomo fora-se. A criada, também. Ela amava o mordomo, mas depois tivera motivos para odiá-lo. Rachel era de sangue galês, furioso e apaixonado. Ficara terrivelmente excitada logo após o desaparecimento dele. Atirou ao lago um saco que continha algumas coisas curiosas. Foram esses todos os fatores que tive de levar em consideração, e todavia nenhum deles atingia perfeitamente o âmago do assunto. Qual seria o ponto de partida dessa cadeia de acontecimentos? Aí é que estava o nó do problema.
"— Preciso ver, Musgrave — disse eu —, aquele papel que seu mordomo julgava valer a pena consultar, até mesmo sob o risco de perder o emprego.
"— É uma coisa muito absurda, esse nosso ritual — respondeu ele. — Todavia, tem o encanto da antigüidade para desculpá-lo. Tenho aqui uma cópia das perguntas e respostas, se quiser dar um vista de olhos.
"E passou-me este mesmo papel que aqui tenho, Watson, e é este o estranho catecismo a que cada Musgrave tinha de se submeter quando chegasse à maioridade.
"Vou citar as perguntas e respostas, tais como estão registradas:
"— De quem era?
— De quem morreu.
— Quem a terá?
— Quem vier.
— Qual era o mês?
— O sexto desde o primeiro.
— Onde estava o sol?
— Lá no carvalho.
— Onde estava a sombra?
— Debaixo do olmo.
— Como se andava?
— Norte dez e dez, leste cinco e cinco, sul dois e dois, oeste um e um, e então embaixo.
— O que daremos por ela?
— Tudo o que é nosso.
— Por que devemos dar-lhe?
— Por causa da confiança.'
"— O original não tem data, mas tem a ortografia dos meados do século XVII — observou Musgrave. — Receio, todavia, que seja de pouco valor para você resolver este problema.
"— Pelo menos — respondi —, ele nos apresenta outro mistério, e mais interessante que o primeiro. Pode ser que a solução de um seja a solução do outro. Há de me desculpar, Musgrave, se disser que seu mordomo parece ter sido um homem muito inteligente, e deve ter tido uma intuição mais lúcida que dez gerações de seus amos.
"— Não o compreendo — disse Musgrave. — O papel parece-me sem a menor importância prática.
"— Mas a mim parece-me imensamente prático, e penso que Brunton tinha a mesma opinião. Provavelmente vira-o antes daquela noite em que você o apanhou.
"— É muito possível. Não tínhamos o menor cuidado em escondê-lo.
"— Ele simplesmente queria, segundo creio, avivar a memória nessa última ocasião. Tinha, como entendo, uma espécie de mapa ou carta que estava comparando com o manuscrito, e que meteu no bolso quando você apareceu?
"— Exatamente. Mas que relação poderia ter com este costume antigo da família, e o que significa esta embrulhada?
"— Não me parece muito difícil descobri-lo — respondi. — Com sua permissão, tomaremos o primeiro trem para Sussex e estudaremos um pouco mais o caso no próprio local.
"Nessa mesma tarde, estivemos ambos em Hurlstone. Possivelmente você já viu retratos e leu descrições dos famosos edifícios antigos. Portanto, limitar-me-ei a dizer que é uma construção em forma de L, sendo o braço mais comprido a parte mais moderna, e o mais curto, o núcleo antigo de onde o outro partiu.
"Embaixo, sobre a pesada porta com verga, no centro dessa parte antiga está esculpida a data 1607, mas os peritos concordam em que as obras de madeira e de pedra são realmente muito mais antigas. As paredes bem grossas e as janelas estreitas dessa parte da casa tinham impelido a família para o edifício da ala nova, e a velha servia então de armazém e de adega, quando era preciso. Um esplêndido parque com um bonito bosque antigo rodeava a casa, e o lago, a que o meu cliente fizera referência, ficava perto da alameda, a cerca de cento e oitenta metros do edifício.
"Eu já estava firmemente convencido de que não havia três mistérios isolados, mas um só, e que, se pudesse ler corretamente o ritual Musgrave, teria na mão o indício que me levaria à verdade, tanto no que se referia ao mordomo Brunton como à criada Rachel Howells. A esse, então, dediquei todas as minhas energias. Por que estaria ansioso esse criado por decifrar aquela velha fórmula? Evidentemente, porque via alguma coisa nela que escapou a todas as gerações dos cavalheiros do condado, e de que ele esperava vantagem pessoal. O que era, então, e como lhe afetou o destino?
"Era-me perfeitamente claro na leitura do ritual que as medidas deviam referir-se a algum lugar a que aludia o resto do documento, e que, se pudesse descobri-lo, estaria no caminho certo para conhecer o segredo que os antigos Musgraves tinham julgado necessário perpetuar de maneira tão curiosa. Havia duas balizas para começar, um carvalho e um olmo. Quanto ao carvalho, não podia haver nenhuma dificuldade. Bem em frente da casa, do lado esquerdo da estrada, permanecia um patriarca entre os carvalhos, uma das árvores mais esplêndidas que já vi.
"— Estaria aqui quando o ritual foi escrito? — perguntei quando passamos por ela.
"— Estava aqui quando da conquista normanda, com certeza — respondeu ele. — Tem uma circunferência de sete metros.
"Eu já determinara um dos meus pontos fixos.
"— Você tem algum olmo velho? — perguntei.
"— Havia um muito antigo lá adiante, mas foi queimado por um raio há dez anos atrás e cortamos seu tronco.
"— Sabe onde estava?
"— Oh, sim.
"— Não havia outros olmos?
"— Nenhum antigo, mas uma quantidade de faias.
"— Gostaria de ver onde aquele cresceu.
"Tínhamos vindo num carro de duas rodas, e nele fomos imediatamente, sem entrarmos em casa, a uma rocha solitária no bosque onde o olmo estava. Era quase meio caminho entre o carvalho e a casa. Minha investigação parecia progredir.
"— Suponho que é impossível saber qual a altura do olmo? — perguntei.
"— Posso dá-la imediatamente. Era de dezenove metros e meio.
"— Como veio a saber? — perguntei com surpresa.
"— Quando meu velho preceptor costumava dar-me exercícios de trigonometria, tomava sempre medidas de altura como exemplo. Em rapaz, lidei com todas as árvores e edifícios da propriedade.
"Isto era um golpe inesperado de sorte. Meus dados vinham mais rapidamente do que eu podia razoavelmente esperar.
"— Diga-me — perguntei —, seu mordomo fez-lhe alguma vez semelhante pergunta?
"Reginald Musgrave olhou para mim com espanto.
"— Agora que você fala nisso — respondeu —, recordo que me perguntou a altura da árvore alguns meses antes, devido a uma pequena discussão com o homem da cavalariça.
"Foi uma excelente notícia, Watson, porque me mostrou que estava no caminho certo. Olhei para o sol. Começava a cair, e calculei que em menos de uma hora cairia justamente em cima dos galhos mais altos do velho carvalho. Uma condição mencionada no ritual se cumpriria então. E a sombra do olmo devia significar o extremo mais adiante da sombra, do contrário o tronco teria sido escolhido como baliza. Deveria descobrir então onde cairia a extremidade distante da sombra quando o sol incidisse exatamente no carvalho."
— O que deve ter sido difícil, Holmes, pois o olmo já não estava lá.
— Eu pelo menos sabia que, se Brunton pudera fazê-lo, eu também o poderia. Fui com Musgrave a seu escritório e preparei este bastão, ao qual atei este comprido cordel, fazendo um nó a cada metro. Então tomei dois comprimentos de uma vara de pescar, o que deu justamente um metro e oitenta, e voltei com meu cliente ao local onde o olmo existira. O sol estava roçando exatamente a copa do carvalho. Amarrei a vara numa extremidade, marquei a direção da sombra, medindo-a em seguida. Era de dois metros e setenta de comprimento. O cálculo era agora muito simples. Se uma vara de um metro e oitenta projeta uma sombra de dois metros e setenta, uma árvore de dezenove metros e meio projetaria uma sombra de vinte e nove metros, e a linha de uma seria por certo a linha da outra. Medi-lhe a distância, o que me levou quase à parede da casa, e finquei uma estaca no lugar. Deve imaginar minha exultação, Watson, quando a cerca de cinco centímetros de minha estaca vi uma depressão cónica no chão. Descobri que era a marca que Brunton fizera quando de suas medidas, e que portanto eu estava em sua pista.
"Desse ponto de partida continuei a andar, tomando primeiro os pontos cardeais com uma bússola de bolso. Dez passos de trinta centímetros cada um levaram-me ao paralelo da parede da casa, e marquei de novo o lugar com uma estaca. Então contei cuidadosamente cinco passos para leste, e dois para o sul. E cheguei ao limiar da porta antiga. Um passo para oeste significava agora que eu tinha de descer a passagem de uma laje, o lugar indicado pelo ritual.
"Nunca senti semelhante arrepio de desapontamento, Watson. Por um momento pareceu-me que devia haver um engano radical em meus cálculos. O sol brilhava em cheio sobre o soalho da passagem; pude ver que as pedras com que era pavimentado, cinzentas e gastas pelas pisadas, estavam firmemente unidas por cimento, e certamente há muitíssimos anos não eram removidas. Brunton não trabalhara ali. Bati no chão, mas por toda parte soava o mesmo ruído, e não havia nenhum sinal de fenda ou greta. Mas, por felicidade, Musgrave, que estava tão excitado como eu, tirou seu manuscrito para comparar meus cálculos.
"— É embaixo! — gritou. — Você omitiu o 'embaixo'.
"— Supunha que isso significasse que tínhamos de cavar, mas percebo que estava errado. Há uma adega embaixo, então? — indaguei.
"— Sim, e tão antiga como a casa. Aqui embaixo, por esta porta.
"Descemos uma escada de pedra em espiral, e meu companheiro, riscando um fósforo, acendeu um grande lampião que estava em cima de uma barrica ao canto. Ficou logo evidente que tínhamos chegado ao verdadeiro lugar, e que não tínhamos sido as únicas pessoas a visitá-lo recentemente.
"Fora usado para depósito de madeira, mas a lenha que estivera espalhada no chão estava agora empilhada ao lado, de modo a deixar um espaço claro no meio. Nesse espaço jazia uma laje enorme e pesada, com um anel de ferro enferrujado ao centro, no qual um capuz de pastor estava arrumado.
"— Por Júpiter! — gritou Musgrave. — É o cachecol de Brunton. Eu o vi com ele, posso jurar. O que estaria o bandido fazendo aqui?
"Por minha sugestão, foram chamados dois policiais do condado para presenciarem a cena, e então esforcei-me por levantar a pedra, puxando-a pelo cachecol. Apenas podia mexê-la de leve, e foi com o auxílio de um dos policiais que consegui finalmente colocá-la de lado. Um buraco escuro escancarou-se debaixo dela, pelo qual todos olhamos para dentro, enquanto Musgrave, ajoelhado ao lado, atiçou o lampião.
"Uma pequena câmara de cerca de dois metros e dez de profundidade e um metro e vinte de diâmetro se escancarava diante de nós. De lado estava uma caixa de madeira chata guarnecida de zinco, cuja tampa era trancada na parte de cima com esta chave curiosa, de tipo antigo, projetando-se da fechadura. Estava guarnecida na parte de fora por uma espessa camada de ferro, e a umidade e os carunchos tinham comido toda a madeira, de modo que uma cultura de fungos vivos ia crescendo do lado de dentro. Diversos discos de metal, moedas aparentemente antigas, tais como as que seguro aqui, estavam espalhadas por todo o fundo da caixa, mas ela não continha mais nada.
"Nessa altura, não pensamos mais na velha caixa, porque nossos olhos se cravaram no que estava ao lado dela. Era a figura de um homem vestido de preto, acocorado sobre as nádegas, com a fronte mergulhada na beira da caixa e os braços estendidos abraçando-lhe ambos os lados. Essa postura tinha-lhe trazido ao rosto todo o sangue estagnado, e ninguém poderia reconhecer aquela fisionomia disforme, de cor de fígado. Mas a estatura, a roupa e os cabelos eram suficientes para mostrar a meu cliente, quando o corpo foi levantado, que era na verdade seu mordomo desaparecido. Morrera havia alguns dias, mas não apresentava nenhum ferimento ou contusão no corpo que mostrasse como encontrara seu terrível fim. Quando foi removido da adega, estávamos perante um novo problema, quase tão impressionante como aquele com que tínhamos iniciado.
"Confesso, Watson, que até eu estava desapontado com minha investigação. Imaginara resolver o assunto assim que encontrasse o lugar referido no ritual; mas agora estava ali, aparentemente longe de saber o que a família escondera com semelhantes precauções. É verdade que havia descoberto o destino de Brunton, mas não esclarecera como lhe sobreviera esse destino, e qual a parte desempenhada no assunto pela mulher que desaparecera. Sentei-me num barril ao canto e pensei em todo o caso com muito cuidado.
"Você conhece meus métodos em tais circunstâncias, Watson. Coloquei-me no lugar do homem. E, depois de avaliar sua inteligência, tentei imaginar como eu teria agido em circunstâncias semelhantes. Nesse caso, a tarefa foi simplificada pela inteligência de Brunton, que era de primeira classe, de modo que era desnecessário fazer qualquer concessão de equação pessoal, como dizem os astrônomos. Ele sabia que alguma coisa de valor estava escondida. Marcara o lugar. Sabia que a pedra que a cobria era muito pesada para que um homem, sem auxílio, a removesse. O que faria então? Podia procurar auxílio de fora se tivesse alguém em quem pudesse confiar, mas teria que tirar as trancas das portas, com um considerável risco de ser descoberto. Era melhor, se pudesse, encontrar auxílio dentro de casa. No entanto, a quem poderia solicitá-lo? Àquela jovem que lhe fora devotada. O homem dificilmente admite ter perdido o amor de uma mulher, por pior que a tenha tratado. Tentaria com pequenas provas de atenção fazer as pazes com a jovem Howells e então a usaria como cúmplice. À noite, desceriam juntos à adega, e a força de ambos seria suficiente para levantar a pedra. De forma que pude seguir-lhe os passos todos como se realmente os tivesse acompanhado.
"Mas para duas pessoas só, das quais uma era mulher, devia ser uma tarefa difícil levantar a pedra. Um corpulento policial de Sussex e eu não a achamos assim tão fácil. Levantei-me e examinei cuidadosamente as diferentes achas de lenha que estavam espalhadas no chão. Encontrei rapidamente o que procurava. Um pedaço, com cerca de noventa centímetros de comprimento, estava todo denteado na extremidade, e achatado de um lado, como se tivesse sido comprimido por um peso considerável. Era evidente que, quando levantaram a pedra, lançaram o pau na fenda, até que por fim, quando a abertura se tornara suficientemente grande para se passar por ela, mantiveram-na aberta por meio de uma tora colocada ao comprido, que podia muito bem ficar cheia de dentes na parte inferior, desde que todo o peso da pedra fizesse pressão para baixo na borda da outra laje. Até ali, eu estava em terra firme.
"E depois, como deveria proceder para reconstituir aquele drama da meia-noite? É claro que só uma pessoa podia entrar no buraco: Brunton. A moça devia esperar em cima. Brunton destrancou então a caixa, mandou para cima seu conteúdo, — visto que não foi achado —, e então o que aconteceu?
"Que ardente fogo de vingança não teria repentinamente explodido em chamas na alma daquela apaixonada celta quando viu o homem que lhe fizera mal — talvez a tivesse prejudicado mais do que nos é possível suspeitar — em seu poder? Seria por um acaso que o pau escorregou e a pedra fechou Brunton no que veio a ser seu sepulcro? Ela seria apenas culpada do silêncio quanto à sua sorte? Ou teria um golpe repentino de sua mão retirado o suporte, deixando a pedra deslizar para seu lugar?
"Seja o que for, parece-me ver aquela figura de mulher, agarrada ao tesouro achado, voando pela escada em caracol com os ouvidos a zumbir devido aos gritos ensurdecedores que deixava para trás e ao tamborilar de mãos frenéticas contra a laje de pedra, que abafava a vida do amante infiel.
"Eis o segredo do rosto pálido, dos nervos descontrolados, das risadas histéricas na manhã seguinte. Mas o que haveria na caixa? E o que fez ela disso? Naturalmente, era o metal velho e as pedras que meu cliente retirara da lagoa. Atirou-os para lá na primeira oportunidade para remover o último vestígio de seu crime.
"Durante vinte minutos fiquei sentado, imóvel, pensando no assunto. Musgrave estava com o rosto muito pálido, agitando a lanterna e olhando para o fundo da adega.
"— São moedas de Carlos I — disse ele, retirando algumas que haviam ficado na caixa. — Bem vê que estávamos certos quanto à data do ritual.
"— Podemos encontrar qualquer coisa mais de Carlos I — disse eu, quando o significado provável das duas primeiras perguntas do ritual me irrompeu de repente: — Deixe-me ver o conteúdo do saco que pescou na lagoa.
"Subimos a seu escritório e ele espalhou os restos diante de mim. Ao olhá-los, compreendi que poderiam ser considerados de pouca importância, pois o metal estava quase preto e as pedras, sem brilho. Esfreguei uma delas em minha manga, e brilhou imediatamente como uma centelha na concha de minha mão. O metal tinha a forma de um anel duplo, mas fora muito retorcido, alterando-se assim sua forma original.
"— Você deve recordar-se — disse eu — que os partidários do rei mantiveram-se na Inglaterra mesmo depois da morte do rei, e, quando por fim fugiram, deixaram provavelmente muitas de suas preciosas posses sepultadas com a intenção de vir buscá-las em épocas mais pacíficas.
"— Meu antepassado, Sir Ralph Musgrave, era um cavalheiro e o braço direito de Carlos II — disse meu amigo.
"— Ah, muito bem — respondi. — Suponho que agora temos realmente o último elo de que precisávamos. Devo felicitá-lo por entrar na posse, ainda que de maneira muito trágica, de uma relíquia de grande valor intrínseco, mas ainda de maior importância como curiosidade histórica.
"— Qual é então? — perguntou com espanto.
"— Nada menos que a antiga coroa dos reis de Inglaterra.
"— A coroa!
"— Precisamente. Considere o que diz o ritual. Como reza? 'De quem era?' 'De quem morreu.' Foi depois da execução de Carlos I. 'Então de quem será?' 'De quem vier.' Trata-se de Carlos II, cujo advento já era previsto.
Creio que não pode haver dúvida de que este diadema arruinado e já sem forma coroou um dia a fronte dos reais Stuarts.
"— E como veio parar aqui? Como ficou escondido?
"— Oh, esta é uma pergunta que levará algum tempo a responder. — Então, expliquei toda a longa cadeia de hipóteses e provas que construíra. O crepúsculo findava e a lua brilhava intensamente antes de eu concluir minha narrativa.
"— E por que Carlos II não conseguiu reaver sua coroa quando regressou? — perguntou Musgrave, colocando a relíquia no saco.
"— Ah! Este é o ponto que possivelmente não poderemos nunca esclarecer. É provável que o Musgrave detentor do segredo tivesse morrido no intervalo, e deixasse por descuido este regulamento ao descendente sem lhe explicar o significado. Desde essa época até hoje, tem sido transmitido de pai para filho, até que chegou ao alcance de um homem que lhe desvendou o segredo e morreu na aventura.
"Esta é a história do ritual Musgrave, Watson. Eles têm agora a coroa em Hurlstone — embora tivessem encontrado certa dificuldade legal e devessem pagar uma soma considerável antes que lhes fosse permitido conservá-la. Estou certo de que, se mencionar meu nome, eles terão o maior prazer em mostrá-la a você. Da mulher nada mais se soube, e é provável que houvesse deixado a Inglaterra, levando a recordação de seu crime para o além-mar."

[1] Iniciais de Victoria Regina, aludindo-se à rainha Vitória. (N. do T.)

SHERLOCk HOLMES - A escola do priorado

Arthur Conan Doyle
A escola do priorado

Título original: The Priory School
Publicado pela primeira vez na Collier’s Weekly,
em Janeiro de 1904, com 6 ilustrações de Frederic Dorr Steele
e na Strand Magazine, em Fevereiro de 1904,
com 9 ilustrações de Sidney Paget.

Sobre o texto em português:
Este texto digital reproduz a
tradução de The Priory School publicado em
As Aventuras de Sherlock Holmes, Volume IV,
editado pelo Círculo do Livro
e com tradução de Lígia Junqueiro.
Frederic Dorr Steele, 1904
Em nosso pequeno palco, na Baker Street, temos tido dramáticas entradas e saídas, mas não posso me lembrar de nada mais súbito e surpreendente do que a primeira aparição do dr. Thorneycroft Huxtable, M. A., Ph. D., etc. O cartão, que parecia pequeno demais para conter a lista de seus diplomas, precedeu-o de alguns segundos. Depois, entrou o homem: tão grande, tão pomposo, tão digno, que era a personificação da solidez. Apesar disso, seu primeiro gesto, depois de fechar a porta, foi apoiar-se à mesa, cambaleante. No minuto seguinte, escorregou para o chão, e lá ficou a majestosa figura, estendida, inconsciente, no nosso tapete de pele de urso.
Sidney Paget, 1904
Tínhamo-nos levantado de um salto e, por segundos, ficamos olhando, em silencioso espanto, para aquele náufrago, que nos falava de alguma tempestade fatal no mar da vida. Depois, Holmes correu com uma almofada, que colocou sob a cabeça do homem, e eu com um cálice de conhaque, para reanimá-lo. O rosto pálido tinha rugas causadas pela preocupação, sob os olhos havia círculos escuros, a boca descaía dolorosamente nos cantos, o rosto estava de barba por fazer. A camisa e o colarinho apresentavam vestígios de uma longa viagem, e os cabelos estavam em desalinho, na cabeça bem-feita. O homem a nossos pés era uma criatura ferida pelo destino.
— Que me diz, Watson? — perguntou-me Holmes.
— Completa exaustão... talvez apenas fome e cansaço — respondi, segurando o pulso, onde a vida se fazia sentir debilmente.
— Passagem de regresso para Mackleton, no norte da Inglaterra — disse Holmes, tirando-lhe o bilhete do bolso do colete. — Ainda não é meio-dia. Não há dúvida de que partiu cedo.
As pálpebras inchadas tinham começado a estremecer, e agora uns olhos cinzentos, de expressão vazia, fitavam-nos. No momento seguinte, o homem pôs-se de pé, rubro de vergonha.
— Perdoe-me a fraqueza, sr. Holmes; ando esgotado. Muito obrigado. Se me derem um copo de leite e um biscoito, creio que me sentirei melhor. Vim pessoalmente, sr. Holmes, para lhe pedir que volte comigo. Receei que um telegrama, por mais insistente que fosse, não o convencesse da urgência do caso.
— Depois que estiver melhor.
— Estou bem. Não sei como pude sentir tal fraqueza. Desejo que me acompanhe a Mackleton no próximo trem, sr. Holmes.
Meu amigo sacudiu a cabeça.
— Meu colega, o dr. Watson, poderá dizer-lhe que estamos muito ocupados presentemente. Estou trabalhando no caso dos Documentos Ferrers e no assassinato de Abergavenny, que em breve irá a julgamento. Somente um assunto muito grave me afastaria de Londres nesta altura.
— Grave! — exclamou nosso visitante, atirando as mãos para o ar. — Não ouviu falar do rapto do único filho do duque de Holdernesse?
— O quê? O ministro?
— Exatamente. Procuramos manter o fato fora dos jornais, mas houve uma alusão no Globe, ontem à noite. Pensei que talvez tivesse chegado aos seus ouvidos.
Holmes estendeu o braço longo e magro e apanhou o volume "H" de sua enciclopédia particular.
— "Holdernesse, sexto duque, K. G., P. C." Quase metade do alfabeto...! “Barão Beverley, conde de Garston”... Deus do céu, que lista! "Lorde-tenente de Hallamshire desde 1900. Casou-se com Edith, filha de Sir Charles Appiedore, em 1888. Tem um único filho e herdeiro, Lorde Saltire. Dono de duzentos e cinquenta acres. Minas em Lancashire e Gales. Endereço: Carlton Terrace; Holdernesse Hall, em Hallamshire; Castelo Carston, em Bangor, Gales. Lorde do Almirantado, 1872; secretário-chefe de...” Bom, bom, não há dúvida de que este homem é um dos maiores súditos da coroa!
— O maior e talvez o mais rico. Sei, sr. Holmes, que o senhor é muito digno, quando se trata da profissão, e que está sempre pronto a trabalhar por amor ao trabalho. Mas quero dizer-lhe que Sua Graça já declarou que um cheque de cinco mil libras será entregue à pessoa que lhe disser onde está seu filho, e mais um de mil, para aquele que indicar o nome ou os nomes das pessoas que o raptaram.
— Oferta principesca — declarou Holmes. — Watson, creio que acompanharemos o dr. Huxtable ao norte da Inglaterra. E agora, dr. Huxtable, depois de ter tomado o seu leite, peço-lhe que me conte o que aconteceu, quando e como, e o que tem o senhor, dr. Thorneycroft Huxtable, da Escola do Priorado, perto de Mackleton, a ver com o caso, e por que vem, três dias após o acontecimento (percebo-o pelo estado da sua barba), pedir a minha humilde colaboração.
Nosso visitante tinha tomado o leite e os biscoitos. Voltara-lhe o brilho aos olhos e a cor às faces, e começou a explicar a situação, com vigor e lucidez.
— Quero informá-los, senhores, de que a Escola do Priorado é uma escola preparatória, da qual sou fundador e diretor. Meu livro Huxtable's sidelights on Horace [1] talvez faça com que se lembre do meu nome. A escola é, sem dúvida, a melhor e a mais seleta escola preparatória da Inglaterra. Lorde Leverstoke, o conde de Blackwater, Sir Cathcart Soames — todos eles me confiaram os seus filhos. Mas achei que minha escola chegara ao apogeu quando, há três semanas, o duque de Holdernesse mandou seu secretário, sr. James Wilder, avisar-me que Lorde Saltire, de dez anos de idade, seu filho e herdeiro, me seria confiado. Mal sabia eu que isto seria o prelúdio do maior infortúnio de minha vida.
"O menino chegou no dia 1.° de maio, começo das aulas de verão. Era um menino encantador, que logo se habituou às normas do internato. Creio poder dizer-lhes (espero não estar sendo indiscreto, mas num caso como este é necessário falar com absoluta franqueza) que o menino não era muito feliz em casa. Ninguém ignora que a vida matrimonial do duque não foi das mais venturosas, pois terminou em separação, por consentimento mútuo, tendo a duquesa ido residir no sul da França. Havia pouco tempo que isso acontecera, e era sabido que o menino se inclinava para o lado da mãe. Parece que ficou triste, após sua partida de Holdernesse Hall, e foi por esse motivo que o pai resolveu mandá-lo para minha escola. Depois de quinze dias, o menino já se sentia completamente à vontade, parecendo muito feliz em nossa companhia.
"Foi visto pela última vez na noite de 13 de maio, isto é, na última segunda-feira. Seu quarto ficava no segundo andar, ao qual se tinha acesso por outro quarto maior, onde dormiam dois meninos. Estes nada viram ou ouviram, de modo que calculamos que o jovem Saltire não tenha saído por lá. Sua ausência foi notada às sete da manhã, na terça-feira. A cama estava desfeita e a janela aberta; pelas paredes da casa cresce hera, desde o chão até esta altura. Não vimos vestígio algum, mas não há outra saída. Ele se vestira completamente, e saíra com sua jaqueta preta de Eton e calças cinza. Não havia sinais de alguém ter entrado no quarto, e não há dúvida de que gritos ou luta teriam sido ouvidos, uma vez que Caunter, o menino mais velho, que dorme no quarto contíguo, tem um sono muito leve.
"Quando verifiquei que Lorde Saltire havia desaparecido, chamei todo o estabelecimento, alunos, professores e criados. Foi então que verificamos que Lorde Saltire não era o único desaparecido. Sentimos a falta de Heidegger, professor de alemão. O quarto dele ficava no segundo andar, na extremidade oposta do prédio, e dava para o mesmo lado que o de Saltire. Também sua cama estava desfeita, mas aparentemente ele saíra meio vestido apenas, pois encontramos sua camisa e suas meias no chão. Deve ter descido pela hera, pois vimos as marcas de seus pés quando caiu na grama. Sua bicicleta desaparecera.
"Trabalhava comigo há dois anos, tendo trazido as melhores referências, mas era um homem silencioso, soturno, não muito popular entre alunos e professores. Não encontramos sinal dos fugitivos, e hoje, quinta-feira, estamos na mesma ignorância de terça. Claro que mandamos imediatamente indagar em Holdernesse Hall, que fica apenas a alguns quilômetros de distância. Imaginamos que o menino, ao se sentir subitamente indisposto, tivesse ido procurar o pai, mas lá não sabiam de coisa alguma. O duque está muito preocupado. Quanto a mim, os senhores viram a que estado de nervosismo e prostração me vi reduzido pela expectativa, e pelo senso de responsabilidade. Sr. Holmes, se algum dia usou ao máximo seus dons, suplico-lhe que o faça agora, pois dificilmente terá encontrado caso mais digno deles."
Sherlock Holmes ouvira, com a máxima atenção, as palavras do infeliz mestre-escola. Sua expressão séria mostrava que não precisava que o incitassem a concentrar a atenção num problema que, além dos grandes interesses em jogo, devia apelar para seu amor ao complexo e ao incomum. Tirou o caderno de notas e tomou um ou dois apontamentos.
— Fez muito mal em não me procurar mais cedo — disse severamente. — Faz-me começar a investigação com uma grande desvantagem. É incrível que a hera, por exemplo, não revelasse coisa alguma para um perito.
— A culpa não é minha, sr. Holmes. Sua Graça desejava que não houvesse escândalo. Receava que a desventura da família fosse exposta ao público. Tem horror a essas coisas.
— Mas houve investigação oficial?
— Sim, senhor, e foi decepcionante. Foi obtido um indício, imediatamente, pois viram um menino e um homem apanharem o primeiro trem, numa estação vizinha. Ontem à noite, soubemos que os dois tinham sido procurados em Liverpool, mas ficou provado que nada tinham a ver com o caso. Foi aí que, desesperado, após uma noite de insônia, vim procurá-lo, pelo primeiro trem.
— Com certeza a investigação local foi desprezada, enquanto seguiam a pista falsa.
— Foi abandonada por completo.
— Então temos três dias perdidos. O caso foi tratado de maneira deplorável.
— Sinto isso e reconheço-o.
— Apesar de tudo, é possível encontrar uma solução. Terei muito prazer em aceitar o caso. Conseguiu estabelecer relação entre o menino e o professor de alemão?
— Nenhuma.
— Era aluno desse professor?
— Não, e nunca trocaram uma palavra, ao que sabemos.
— É estranho... O menino tinha bicicleta?
— Não.
— Desapareceu mais alguma?
— Não.
— Tem certeza? — perguntou Holmes.
— Absoluta.
— Mas o senhor não supõe que o alemão tenha saído no meio da noite, de bicicleta, com o menino nos braços, não?
— Claro que não.
— Então qual é sua teoria?
— Talvez a bicicleta tenha sido usada como pista falsa. Talvez esteja em algum lugar, tendo eles partido a pé.
Sidney Paget, 1904— Exatamente. Mas teria sido uma artimanha absurda, não acha? Havia outras bicicletas guardadas?
— Várias.
— Não teriam escondido duas, se quisessem dar a impressão de que tinham partido de bicicleta?
— Creio que sim.
— Claro que sim. A teoria da pista falsa não serve. Mas o incidente é um admirável ponto de partida para a investigação. Afinal de contas, uma bicicleta não é coisa fácil de se ocultar ou destruir. Outra pergunta. Alguém veio visitar o menino, no dia do seu desaparecimento?
— Não.
— Recebeu cartas?
— Recebeu uma.
— De quem?
— Do pai.
— O senhor abre as cartas dos alunos?
— Não.
— Como sabe que era do pai?
— Havia o brasão no envelope, e o endereço fora escrito na letra característica, dura, do duque. Além disso, o duque se lembra de lhe ter escrito.
— Quando recebera o menino outra carta, antes dessa?
— Dias antes.
— Chegou alguma da França?
— Não; nunca.
— Naturalmente o senhor sabe aonde quero chegar. Ou o menino foi levado à força, ou foi de livre vontade. Neste último caso, é de supor que seria preciso algum incitamento de fora, para fazer com que um menino dessa idade agisse assim. Se não recebeu nenhuma visita, esse incitamento deve ter vindo por carta. Por isso procuro saber quem lhe escreveu.
— Creio que não posso ajudá-lo muito. Pelo que sei, somente o pai lhe escrevia.
— E escreveu-lhe no dia do desaparecimento. As relações entre pai e filho eram afetuosas?
— O duque não é afetuoso com ninguém. Está completamente submerso nos negócios públicos, e imune às emoções comuns. Mas, à sua maneira, sempre foi bom para o menino.
— Mas este estava do lado da mãe?
— Estava.
— Ele disse isso?
— Não.
— Foi o duque então?
— Santo Deus, não!
— Então como é que sabe?
— Tive uma conversa particular com o secretário, sr. James Wilder. Foi quem me deu as informações a respeito dos sentimentos de Lorde Saltire.
— Está certo. Por falar nisso, a última carta do duque... foi encontrada no quarto do menino, depois que ele partiu?
— Não. Deve tê-la levado consigo. Creio, sr. Holmes, que está na hora de partirmos para a estação.
— Vou mandar chamar um carro. Dentro de um quarto de hora estaremos às suas ordens. Se telegrafar para casa, sr. Huxtable, é bom que a vizinhança pense que as investigações continuam em Liverpool, ou onde estiverem seus homens. Nesse meio tempo, trabalharei tranqüilamente na escola. Talvez a pista não esteja tão fraca, a ponto de dois cães de caça, como Watson e eu, nada poderem farejar.
Encontramo-nos nessa noite no clima frio e excitante de Peak, onde ficava a famosa escola. Estava escuro quando lá chegamos. Havia um cartão na mesa, e o mordomo murmurou qualquer coisa para o patrão, que se voltou para nós muito agitado.
— O duque está aqui — disse ele. — O duque e o sr. Wilder estão no meu escritório. Venham, senhores, vou apresentá-los a eles.
Eu, naturalmente, conhecia o grande estadista, de fotografia, mas o homem era diferente. Alto e imponente, vestido com esmero, de rosto fino e abatido, nariz grotescamente curvo e longo. Sua pele era extraordinariamente pálida, contrastando com a barba ruiva, que descia até o colete, por entre os fios do qual brilhava a corrente do relógio. Era essa a augusta personagem que nos olhava duramente, de pé, sobre o tapete do dr. Huxtable. A seu lado, um rapaz que tomei como sendo Wilder, o secretário particular. Era baixo, nervoso, alerta, com inteligentes olhos azuis. Foi ele quem, em tom positivo e claro, iniciou a conversa.
Sidney Paget, 1904
— Vim vê-lo hoje de manhã, dr. Huxtable, tarde demais para impedir sua ida a Londres. Fiquei sabendo que sua intenção era convidar o sr. Sherlock Holmes para investigar o caso. Sua Graça ficou admirado, dr. Huxtable, pelo fato de o senhor ter tomado tal iniciativa sem consultá-lo.
— Quando soube que a polícia fracassara...
— Sua Graça não está de forma nenhuma convencido de que a polícia tenha fracassado.
— Mas, enfim, sr. Wilder...
— O senhor sabe perfeitamente que Sua Graça deseja evitar um escândalo. Prefere que o mínimo possível de pessoas tomem conhecimento do caso.
— O remédio é fácil — disse o abatido professor. — O sr. Holmes poderá voltar para Londres, pelo trem da manhã.
— Nada disso, doutor, nada disso — disse Holmes, no seu tom mais suave. — O ar do norte é revigorante e agradável, de modo que pretendo passar uns dias aqui, da melhor maneira possível. Se terei o abrigo da sua casa, ou da estalagem da vila, é coisa que o senhor decidirá.
Vi que o pobre professor estava no auge da indecisão, mas foi socorrido pela profunda e sonora voz do duque de barba ruiva, que soou como um gongo.
— Concordo com o sr. Wilder, dr. Huxtable, quando diz que eu devia ter sido consultado. Mas, já que o sr. Holmes foi inteirado do caso, seria absurdo não utilizarmos seus serviços. Em vez de ir para a estalagem, sr. Holmes, eu teria prazer em hospedá-lo em Holdernesse Hall.
— Agradeço a Vossa Graça. Mas, para o sucesso de minha investigação, acho que será acertado eu permanecer na cena do mistério.
— Como quiser, sr. Holmes. Qualquer informação que desejar de mim ou do sr. Wilder estará, é claro, à sua disposição.
— Será, provavelmente, necessário visitá-lo na mansão — disse Holmes. — Só desejo lhe perguntar agora se tem, pessoalmente, alguma teoria a respeito do misterioso desaparecimento de seu filho.
— Não, senhor, não tenho.
— Perdoe-me aludir a algo que lhe deve ser penoso, mas não tenho outra alternativa. Acha que a duquesa tem alguma relação com o caso?
O ministro mostrou certa hesitação.
— Não creio — respondeu finalmente.
— Outra possibilidade é o menino ter sido raptado, para efeito de resgate. Não recebeu nenhum pedido nesse sentido?
— Não, senhor.
— Mais uma pergunta. Ouvi dizer que escreveu a seu filho, no dia do ocorrido.
— Não; escrevi na véspera.
— Exatamente. Mas ele recebeu a carta no dia, não?
— Recebeu.
— Havia em sua carta alguma coisa que pudesse perturbá-lo e levá-lo a dar tal passo?
— Não, senhor, de forma nenhuma.
— O senhor mesmo pôs a carta no correio?
A resposta foi dada pelo secretário, que falou acaloradamente.
— Sua Graça não tem o hábito de levar suas cartas ao correio — disse ele. — A carta foi colocada junto com as outras, na mesa do escritório, e eu mesmo a coloquei na sacola do correio.
— Tem certeza de que estava no meio das outras?
— Sim.
— Quantas cartas escreveu Sua Graça naquele dia?
Desta vez foi o duque quem respondeu.
— Vinte ou trinta." Mantenho vasta correspondência. Mas, certamente, isto é sem importância, não?
— Não de todo — declarou Holmes.
— De minha parte, aconselhei a polícia a dedicar sua atenção ao sul da França — informou o duque. — Já disse que não acredito que a duquesa tenha participação em ato tão monstruoso, mas o menino tem idéias errôneas, e é possível que tenha ido procurá-la, ajudado por esse alemão. Creio, sr. Huxtable, que vamos regressar à mansão.
Vi que Holmes não tinha mais perguntas a formular, mas a atitude brusca do duque indicou que dava a entrevista por terminada. Não havia dúvida de que aquela conversa sobre assuntos de família desagradava sumamente à sua natureza aristocrática, e ele temia que novas perguntas lançassem luz sobre os pontos obscuros de sua história ducal.
Depois que o duque e o secretário partiram, Holmes atirou-se ao trabalho, com o zelo habitual.
O quarto do menino foi examinado cuidadosamente, mas nada nos revelou, a não ser que a fuga se dera pela janela. O quarto do alemão também nada nos esclareceu. Ali, um ramo de hera se quebrara sob o peso do homem, e vimos com uma lanterna a marca dos saltos onde ele caíra. Aquela marca na grama era a única prova material da inexplicável fuga noturna.
Sherlock Holmes saiu de casa sozinho, e só voltou depois das onze horas. Conseguira um vasto mapa da região. Levou-o para o meu quarto e estendeu-o na cama. Equilibrando o candeeiro no centro, começou a examiná-lo, mostrando de vez em quando, com a boquilha do cachimbo pontos de interesse.
— O caso me interessa, Watson — disse ele. — Há, sem dúvida, alguns pontos interessantes. Mesmo no início, quero que note a topografia, que poderá nos ser útil.
Holmes fez uma pausa.
— Olhe para este mapa. O quadrado escuro indica a escola. Ponho aqui um alfinete. Esta linha indica a estrada. Veja que vai de leste para oeste, passando pela escola, e note que não há atalhos, numa extensão de um quilômetro e meio, nem de um lado nem de outro. Se os dois seguiram por alguma estrada, foi por esta aqui.
— Exatamente.
Ilustração da edição brasileira

— Por uma feliz e singular coincidência, podemos verificar o que se passou nesta estrada, na noite da fuga. Neste ponto, onde o meu cachimbo descansa, um policial esteve de guarda da meia-noite às seis da manhã. Como vê, é a primeira encruzilhada, a leste. O homem garante que não se afastou um instante de seu posto e tem certeza de não ter visto homem ou criança passar por ali. Conversei com ele e parece-me pessoa de absoluta confiança. Isso exclui este lado. Temos agora o outro. Há aqui uma estalagem, Touro Vermelho, e sua proprietária estava doente. Ela mandara alguém a Mackleton chamar um médico, mas este chegou de manhã, pois estava ocupado com outro caso. O pessoal da estalagem ficou acordado a noite toda à espera, e parece que esteve sempre uma ou outra pessoa vigiando a estrada. Declaram que não passou ninguém. Se pudermos acreditar nisso, temos a sorte de poder também excluir o lado oeste e dizer que os fugitivos não se serviram da estrada.
— Mas, e a bicicleta? — perguntei.
— Exatamente. Já chegaremos à bicicleta. Continuando o nosso raciocínio: se eles não foram pela estrada, devem ter atravessado o campo, ao norte ou ao sul da casa. Isso é certo. Vamos analisar as hipóteses. Ao sul da casa existe, como você vê, um grande trecho de terra de lavoura, dividida em pequenos campos, separados por muros de pedra. Aqui é impossível admitir-se a hipótese da bicicleta. Podemos abandonar a idéia. Voltemos nossa atenção para o norte. Temos um bosque pequeno, assinalado "Ragged Shaw", e na extremidade há o pântano Lower Gill, estendendo-se por dezesseis quilômetros e subindo gradualmente. Deste lado, fica Holdernesse Hall, a dezesseis quilômetros da estrada, mas a apenas dez do pântano. Lugar estranhamente deserto. Há alguns pequenos fazendeiros, que criam bois e ovelhas. A não ser eles, os únicos habitantes são aves, até que se chegue à auto-estrada de Chesterfield. Ali há uma igreja, como vê, algumas casas e uma estalagem, a Galo de Briga. Adiante, os morros se tornam mais escarpados. Não há dúvida de que aqui, para o norte, é que devemos procurar.
— Mas, e a bicicleta? — perguntei.
— Ora, ora! — exclamou Holmes, impaciente. — Um bom ciclista não precisa de boa estrada. O pântano está cheio de veredas, e a lua brilhava no céu. Oh, que é isso?
Ouviu-se bater agitadamente à porta. No momento seguinte, o dr. Huxtable entrava no quarto. Na mão trazia um boné azul, com uma divisa branca em cima.
— Finalmente, um indício! — disse ele. — Graças a Deus, estamos na pista do querido menino! Eis o seu boné.
— Onde foi encontrado?
— Na carroça dos ciganos acampados no pântano. Eles saíram na terça-feira. Hoje a polícia os alcançou e examinou a caravana. O boné foi encontrado com eles.
— Como os ciganos explicam isso?
— Esquivaram-se às perguntas e mentiram, dizendo que o tinham encontrado no pântano, na manhã de terça-feira Sabem onde está o menino, os miseráveis! Felizmente estie todos na cadeia. O medo da lei, ou o dinheiro do duque, acabarão por fazer com que soltem a língua.
— Até aqui, muito bem — disse Holmes, depois que o professor finalmente se retirou. — Pelo menos isso reforça a teoria de que é do lado do pântano que devemos esperar resultados. A polícia não fez realmente nada, a não ser prender esses ciganos. Veja isso, Watson! Passa um riacho através do pântano. Está aqui marcado no mapa. Em alguns lugares, abre-se num paul, principalmente na região entre Holdernesse Hall e a escola. É inútil procurar a pista em outro ponto, com esta seca, mas ali há a possibilidade de terem ficado marcas. Irei acordá-lo amanhã muito cedo, e juntos procuraremos desvendar o mistério.
O dia começava a clarear, quando acordei e vi o vulto magro e alto de Holmes a meu lado. Ele estava completamente vestido e parecia já ter saído.
— Examinei o gramado e o galpão das bicicletas — disse ele. — Estive no bosque Ragged Shaw. Agora Watson, um chocolate o espera no quarto contíguo. Peço-lhe que se apresse, pois temos um dia cheio à nossa frente.
Seus olhos brilhavam e seu rosto estava corado, com a alegria do artesão que sabe que o trabalho está à sua espera. Um Holmes muito diferente, esse homem alerta, ativo, do introspectivo e pálido sonhador da Baker Street. Ao olhar para a figura flexível, repleta de energia nervosa, compreendi que tínhamos, de fato, um dia atarefado à nossa espera.
Mas começou com a maior das decepções. Atravessamos, esperançosos, o pântano cheio de veredas, até chegarmos à larga faixa verde do paul entre a escola e Holderness Hall. Se o menino se dirigira para casa, certamente passara por ali e não podia ter passado sem deixar vestígios. .Mas não havia sinal dele, e tampouco do alemão. Com expressão sombria, meu amigo andou pela margem, observando atentamente todos os sinais de lama na relva. Havia, em profusão, marcas de patas de ovelhas, e em certo ponto, a quilômetros de distância, via-se que também haviam passado bois por ali. Nada mais.
— Decepção número um — disse Holmes, olhando melancolicamente a vasta extensão de pântano. — Há outro paul mais longe ainda. Ora, que é isto?
Tínhamos chegado a uma vereda que formava um traço escuro no chão. No meio, viam-se claramente as marcas de uma bicicleta.
— Viva! — exclamei. — Acertamos.
Mas Holmes sacudiu a cabeça, com o rosto perplexo e expectante, mais do que alegre.
— Uma bicicleta, sem dúvida, mas não a bicicleta. Conheço quarenta e duas impressões deixadas por pneumáticos. Estas aqui são, como pode ver, de pneus Dunlop, com um remendo do lado de fora. Os pneus do professor alemão, Heidegger, eram de marca Palmer, e deixavam riscos longitudinais. O professor de matemática, Aveling, foi categórico nesse ponto. Não é, portanto, a bicicleta de Heidegger.
— Do menino, então.
— Provavelmente, se pudermos provar que estava de posse de uma bicicleta. Mas não conseguimos apurar nada nesse sentido, como sabe. Essas marcas foram feitas por pessoa que vinha do lado da escola.
— Ou que para lá se dirigia?
— Não, não, caro Watson. A marca mais forte é, naturalmente, feita pela roda traseira, onde recai o peso. Você vê vários lugares por onde ela passou e apagou a marca mais fraca da roda da frente. A bicicleta, indubitavelmente, vinha do lado da escola. Isso pode ou não ter relação com o caso, mas vamos seguir as marcas, para trás, antes de tentar qualquer outra coisa.
Foi o que fizemos, mas dali a centenas de metros perdemos as marcas, ao sairmos da parte lamacenta do pântano. Voltando, encontramos um lugar onde havia uma nascente. Também ali se viam marcas de bicicleta, embora quase apagadas pelas patas dos bois. Depois disso, não havia mais nada, mas a vereda entrava no bosque Ragged Shaw, que ia quase até a escola. Dali devia ter saído o ciclista. Holmes sentou-se numa pedra e descansou o rosto nas mãos. Fumou dois cigarros, antes de se levantar.
— Ora, ora — disse, afinal. — É possível, naturalmente, que um homem esperto trocasse os pneus da bicicleta, para deixar sinais diferentes. O criminoso capaz de pensar nisso é homem com quem eu sentiria prazer em lutar. Deixemos isso por enquanto e vamos voltar, pois ficou muita coisa por explorar.
Continuamos a busca sistemática e logo nossa perseverança foi recompensada.
Sidney Paget, 1904
Bem no meio da parte baixa do paul, havia um caminho lamacento. Holmes soltou um grito de prazer ao aproximar-se. Vimos uma marca, como que de fios telegráficos.
— Aqui está Herr Heidegger, sem a menor dúvida! — exclamou Holmes, exultante. — Meu raciocínio estava certo, Watson.
— Parabéns.
— Mas temos muito o que fazer ainda. Faça o favor de sair do caminho. Vamos agora seguir a pista. Receio que ela não nos leve muito longe.
À medida que avançávamos, víamos que aquele trecho do pântano estava cheio de marcas leves, e, embora muitas vezes perdêssemos a pista, logo adiante encontrávamos as marcas da bicicleta.
— Percebe que aqui o ciclista começou a acelerar? — perguntou Holmes. — Veja esta impressão onde se notam claramente as marcas dos dois pneus, tanto do da frente como do de trás, pelo fato de o ciclista se inclinar para a frente com o esforço. Por Deus! Aqui ele caiu.
Uma marca grande, irregular, cobria um trecho da vereda. Depois, havia pegadas e, logo adiante, surgiam de novo as marcas da bicicleta.
— Uma escorregadela — disse eu.
Holmes segurava um galho de urze em flor. Vi, com horror, que os botões amarelos estavam manchados de vermelho. Também na vereda havia manchas escuras de sangue.
— Mau, mau! — disse Holmes. — Fique de lado, Watson. Nem um passo desnecessário! Que vejo aqui? Ele caiu ferido, levantou-se, tornou a subir na bicicleta e continuou. Mas não há outras marcas. Passou gado por aqui. Teria ele sido atacado por um touro? Impossível! Mas não noto vestígios de pessoas em parte alguma. Temos de continuar, Watson. Não há dúvida de que, com as manchas de sangue a nos guiar, além da marca dos pneus, ele não poderá escapar.
Nossa busca não foi demorada. As marcas dos pneus descreviam agora curvas fantásticas, no chão úmido. De repente, ao olhar para diante, um brilho de metal chamou-me a atenção, no meio das moitas de urzes. Dali tiramos uma bicicleta, com pneus Palmer. Um pedal estava torto, e a frente da bicicleta, toda manchada de sangue. Corremos para trás dela e lá encontramos o infeliz ciclista. Era um homem alto, de barba, óculos, com uma das lentes quebrada. A morte fora causada por uma terrível pancada na cabeça, que lhe esmagara o crânio. O fato de ter continuado, após ter recebido tão rude golpe, indicava que era homem de coragem e energia. Estava de sapatos, mas sem meias e, pelo casaco aberto, via-se que ainda vestia roupa de dormir. Era, sem dúvida, o professor alemão.
Sidney Paget, 1904
Holmes virou respeitosamente o corpo e examinou-o com atenção. Sentou-se, depois, ficando em profunda meditação. Vi, pela sua atitude, que aquela descoberta não o auxiliava no esclarecimento do caso.
— É um pouco difícil saber o que se deve fazer, Watson — disse ele finalmente. — Meu desejo seria prosseguir, pois já perdemos tanto tempo, que não podemos desperdiçar uma hora sequer. Por outro lado, temos de informar a polícia sobre esta descoberta, para que venham retirar o corpo do pobre homem.
— Eu podia ir avisar.
— Mas preciso da sua companhia e do seu auxílio. Espere um pouco! Está ali um sujeito, cortando turfa. Traga-o aqui, e ele irá buscar a polícia.
Fui chamar o assustado camponês, e Holmes despachou-o com um bilhete para o dr. Huxtable.
— Agora, Watson, já conseguimos dois indícios, hoje de manhã. Um foi a bicicleta com pneus Palmer, e vimos ao que ela nos conduziu. O outro é a bicicleta com um pneu Dunlop remendado. Antes de começarmos a investigar, temos de verificar o que sabemos, para tirar o máximo proveito, e separar o essencial do acidental. Em primeiro lugar, quero frisar que o menino fugiu de livre e espontânea vontade. Desceu pela janela e partiu, só ou acompanhado. Isso é certo.
Concordei com as deduções.
— Voltemo-nos agora para o infeliz professor. O menino estava completamente vestido quando partiu. Sabia, portanto, o que ia fazer. Mas o mestre estava sem meias. É evidente que saiu precipitadamente.
— Não há dúvida.
— Por que saiu? Porque viu a fuga do menino, pela janela do seu quarto. Porque desejava alcançá-lo e fazê-lo regressar. Pegou a bicicleta e seguiu o garoto, encontrando assim a morte.
— É o que parece.
— Chego agora à parte crítica da minha argumentação. O natural, para um homem que perseguisse um menino, seria correr atrás dele. Sabia que poderia alcançá-lo. Mas o alemão não o fez. Ouvi dizer que era ótimo ciclista. Apanhou a bicicleta, mas não o teria feito, a não ser que percebesse que o menino tinha um meio rápido de evasão.
— A outra bicicleta.
— Continuemos a reconstituição. Ele é morto a oito quilômetros da escola, não por uma bala, note bem, que até um menino poderia disparar, mas por um golpe forte, desferido por um homem. O menino tinha, portanto, um companheiro. E a fuga foi rápida, uma vez que um bom ciclista levou oito quilômetros para alcançá-lo. Já examinamos a cena da tragédia. Que encontramos? Sinais de gado, nada mais. Examinei o local, e não há caminho no espaço de cinqüenta metros. Outro ciclista não poderia ter tido relação com o crime. E não há pegadas.
— Holmes, isso é impossível! — exclamei.
— Admirável! Observação esclarecedora. É impossível da maneira como descrevi a situação, e, portanto, devo tê-la descrito erradamente. Você já o percebeu. Pode sugerir onde está a falha?
— Não poderia ele ter quebrado a cabeça na queda?
— Num paul, Watson?
— Não sei o que pensar.
— Calma, já resolvemos problemas mais duros. Temos, pelo menos, muito material, se soubermos usá-lo. Venha. Já que acabamos de examinar os pneus Palmer, vamos ver o que os Dunlop poderão nos revelar.
Pegamos a vereda e por ela seguimos durante algum tempo. Mas logo o pântano começou a subir, coberto de urzes, e deixamos para trás o riacho. Já não podíamos esperar encontrar sinais no chão. Do ponto onde vimos as últimas marcas dos pneus Dunlop, podia-se ir para Holdernesse Hall, cujas torres se erguiam à nossa esquerda, a alguns quilômetros de distância, ou então para a vila baixa, cinzenta, que estava à nossa frente e que indicava a posição da auto-estrada de Chesterfield.
Quando nos aproximamos da estalagem sombria e abandonada, com um galo de briga em cima da porta, Holmes deixou escapar um gemido e agarrou-se ao meu ombro, para não cair. Torcera o tornozelo e teve de ir coxeando até a porta, onde vimos um homem atarracado, moreno, fumando um cachimbo.
Sidney Paget, 1904
— Como vai, sr. Reuben Hayes? — perguntou Holmes.
— Como vai o senhor, e como sabe o meu nome? — perguntou o homem, com um brilho suspeito nos olhos astutos.
— Pois bem, está escrito na tabuleta acima da sua cabeça. É fácil reconhecer o dono da casa. Não tem uma carruagem na sua cocheira?
— Não, não tenho.
— Mal posso firmar o pé no chão.
— Pois não o faça.
— Mas não posso andar.
— Então pule.
O homem estava longe de se mostrar amável, mas Holmes aceitou-o com extraordinário bom humor.
— Escute aqui, homem — disse ele. — Estou em maus lençóis. Pouco me importa a maneira como terei de continuar.
— A mim também — respondeu o calmo estalajadeiro.
— O caso é sério. Ofereço-lhe um soberano pelo empréstimo de uma bicicleta.
— Aonde quer ir?
— A Holdernesse Hall.
— Amigos do duque, com certeza? — perguntou ele, olhando com ironia para as nossas roupas enlameadas.
Holmes soltou uma gargalhada.
— Ele há de ficar satisfeito ao nos ver.
— Por quê?
— Porque levo boas notícias do filho desaparecido.
O homem teve um sobressalto.

— Estão no seu encalço?
— Sei que tiveram notícias dele, em Liverpool. Esperam encontrá-lo a qualquer momento.
Houve de novo uma mudança no rosto pesado, mal-barbeado, do estalajadeiro. O homem tornou-se subitamente alegre.
— Não tenho motivos para querer bem ao duque, pois fui seu cocheiro e ele me tratou muito mal — declarou. — Despediu-me, sem referências, por ter dado ouvidos a um mentiroso negociante de trigo. Mas estou satisfeito por saber que o menino está em Liverpool, e vou ajudá-lo a levar a notícia à mansão.
— Muito obrigado — disse Holmes. — Vamos comer qualquer coisa, primeiro, depois pode trazer sua bicicleta.
— Não tenho bicicleta.
Holmes mostrou-lhe o soberano.
— Já disse, homem, que não tenho bicicleta — declarou o sujeito. — Posso emprestar-lhes dois cavalos.
— Bom, bom, falaremos sobre isso depois de termos comido — disse Holmes.
Quando nos vimos a sós, na sala de pedra, foi extraordinária a maneira como o tornozelo torcido ficou bom. Era quase noite, e nada tínhamos comido desde a manhã, de modo que nossa refeição foi longa. Holmes, perdido em seus pensamentos, foi uma ou duas vezes até a janela, e ficou olhando para fora. A janela dava para um pátio imundo. Na outra extremidade havia uma forja, onde trabalhava um garoto sujo. Do outro lado ficava a cocheira. Holmes sentara-se de novo, após uma das suas idas à janela, quando, de repente, se levantou de um salto, exclamando:
— Diabos, Watson, creio que descobri! — exclamou ele. — Sim, sim, deve ter sido isso, Watson; lembra-se de ter visto sinais de patas de gado?
— Sim, muitos.
— Onde?
— Por toda parte. No paul, na vereda e perto do lugar onde Heidegger foi morto.
— Exatamente. Agora, Watson, quantos bois você viu no pântano?
— Não me lembro de ter visto um sequer.
— Estranho, Watson, que tenhamos visto as marcas e nenhum boi, em todo o pântano. Muito estranho, hein, Watson?
— Sim, de fato.
— Agora, Watson, faça um esforço, procure lembrar-se! Vê essas marcas no caminho?
— Vejo, sim.
— Consegue lembrar-se de que eram marcas assim... — Holmes colocou sobre a mesa várias partículas de pão, da seguinte maneira : : : : :, e às vezes assim: • : • : • : • , e, de vez em quando assim: . • . • . • Lembra-se?
— Não, não me lembro.
— Mas eu me lembro. Podia jurar que é assim. Mas vamos voltar, com calma, para verificar. Que idiota fui, em não ter tirado minha conclusão.
— Que conclusão?
— Que somente um boi extraordinário poderia andar, trotar e galopar. Com mil diabos, Watson, não foi um camponês que pensou em semelhante dissimulação! Parece que o campo está livre, a não ser por aquele garoto, na forja. Vamos sair de mansinho e ver o que há por aí.
Na cocheira havia dois cavalos maltratados. Holmes ergueu a pata traseira de um deles e soltou uma risada.
— Ferraduras velhas, mas ferradas recentemente; ferraduras velhas, mas pregos novos. Este caso merece ser considerado clássico. Vamos até a forja.
O garoto continuava trabalhando, sem olhar para nós. Vi Holmes olhar para a direita e para a esquerda, por entre os ferros e a madeira espalhada pelo chão. De repente, ouvimos passos atrás de nós e demos com o estalajadeiro, de sobrancelhas contraídas sobre os olhos selvagens, o rosto convulsionado pela cólera.
Tinha na mão uma curta barra de ferro e avançava tão ameaçadoramente que me senti feliz por ter o revólver no bolso.
— Espiões do inferno! — exclamou ele. — Que estão fazendo aqui?
— Ora, sr. Reuben Hayes, até parece que está com medo de que venhamos a descobrir alguma coisa — disse Holmes friamente.
O homem dominou-se com um tremendo esforço e soltou uma risada falsa, que era mais ameaçadora do que a carranca.
— A forja está às suas ordens — disse ele. — Mas fique sabendo, cavalheiro, que não gosto que andem revistando a casa sem minha licença, de modo que, quanto mais depressa pagarem a conta e desaparecerem, melhor.
— Está bem, sr. Hayes, não houve má intenção — disse Holmes. — Estivemos examinando os seus cavalos, mas acho que prefiro ir a pé, afinal de contas. Creio que não é longe.
— Não mais de três quilômetros, até os portões da mansão — respondeu o homem, olhando-nos com ar sombrio, quando nos afastamos.
Não fomos muito longe, na estrada, pois Holmes parou no momento em que uma curva nos escondeu dos olhos do estalajadeiro.
— Estava "quente", como dizem as crianças, lá na estalagem — disse ele. — E parece que vai ficando "frio", a cada passo que dou em direção contrária. Não, não posso sair daqui.
— Estou convencido de que aquele homem sabe de tudo — observei. — Que sujeito mal-encarado!
— Oh, achou? Lá estão os cavalos, a forja. Sim, é interessante essa Galo de Briga. Creio que vamos dar mais uma espreitadela, disfarçadamente.
Atrás de nós erguia-se uma colinazinha, coberta por pedras cheias de limo. Deixamos a estrada e começamos a subir o morro, quando, olhando na direção de Holdernesse Hall, vimos um ciclista que de lá vinha apressadamente.
— Deite-se, Watson! — exclamou Holmes, pondo a mão pesada no meu ombro.
Sidney Paget, 1904
Mal nos escondêramos, o homem passou voando pela estrada. No meio de uma nuvem de poeira, vi um rosto pálido e agitado, com o horror estampado em todas as feições, a boca aberta, os olhos fixos na estrada à sua frente. Era uma caricatura do correio James Wilder que víramos na noite anterior.
— O secretário do duque! — exclamou Holmes. — Venha, Watson, vamos ver o que ele vai fazer.
Andamos de pedra em pedra até chegar a um ponto de onde podíamos ver a entrada da estalagem. A bicicleta de Wilder estava à porta. Ninguém se movia dentro de casa, nem víamos pessoa alguma às janelas. Lentamente, descia a noite, à medida que o sol se ocultava atrás das altas torres de Holdernesse Hall.
Vimos, então, acenderem-se duas luzes, numa carruagem que estava na cocheira. Logo em seguida ouvimos ruídos de patas de cavalos, quando o carro ganhou a estrada, dirigindo-se velozmente para Chesterfield.
— Que me diz disso? — murmurou Holmes.
— Parece uma fuga.
— Apenas um homem nessa carruagem, ao que parece. Bom, não é o sr. Wilder, pois lá está ele, na porta.
Um retângulo de luz rubra se refletia da casa. No meio, vimos o vulto do secretário com a cabeça para a frente, perscrutando a escuridão. Não havia dúvida de que esperava alguém. Finalmente ouvimos passos na estrada, e logo outro vulto surgiu no retângulo de luz. Fechou-se a porta e de novo ficou tudo escuro. Cinco minutos mais tarde, acendeu-se uma luz no andar de cima.
— Parece que a Galo de Briga tem fregueses estranhos — observou Holmes.
— Mas a estalagem fica do outro lado.
— De fato. Aqueles são os que poderíamos chamar de "hóspedes particulares". Agora, que diabo estará o sr. Wilder fazendo na estalagem, a estas horas, e quem é a pessoa que veio ao encontro dele? Vamos, Watson, temos de nos arriscar a investigar mais um pouco.
Sidney Paget, 1904
Juntos, dirigimo-nos para a estalagem. A bicicleta ainda estava contra a porta. Meu amigo riscou um fósforo, e vi-o dar uma risadinha, quando a luz caiu sobre os pneus Dunlop. Lá em cima a luz brilhava, no primeiro andar.
— Tenho de dar uma olhadela, Watson — disse Holmes. — Se você se abaixar, encostando-se à parede, creio que me arranjarei.
No momento seguinte, seus pés firmavam-se nos meus ombros. Mas ele desceu imediatamente.
— Vamos, amigo, nosso dia de trabalho foi bastante longo. Temos uma boa caminhada até a escola, e quanto mais depressa partirmos, melhor.
Mal abriu a boca enquanto atravessamos o pântano, e nem entrou na escola quando lá chegamos. Continuou até a estação de Mackleton, de onde expediu alguns telegramas. Já tarde da noite, ouvi-o consolar o dr. Huxtable, muito abalado com a morte do professor de alemão. Mais tarde ainda, entrou no meu quarto, parecendo tão vivo e alerta como nas primeiras horas do dia.
— Tudo bem, amigo — disse ele. — Prometo-lhe que, antes que o dia de amanha termine, teremos a solução do mistério.
Às onze da manhã do dia seguinte, meu amigo e eu entrávamos na alameda de teixos de Holdernesse Hall. Fizeram-nos passar pelo magnífico portal elisabetano, e entramos no escritório do duque. Ali encontramos o sr. Wilder, grave e cortês, mas ainda com vestígios do horror da noite anterior nos olhos furtivos e nas feições contraídas.
— Vieram ver Sua Graça? Sinto muito, mas o caso é que o duque não está passando bem. Ficou abalado com a trágica notícia. Recebemos ontem um telegrama do dr. Huxtable contando-nos sua descoberta, sr. Holmes.
— Preciso ver o duque, sr. Wilder.
— Mas ele está no quarto.
— Então tenho de ir ao quarto.
— Creio que ainda está na cama.
— Vê-lo-ei de qualquer maneira.
A atitude fria e inexorável de Holmes mostrou ao secretário que não adiantava insistir na negativa.
— Muito bem, sr. Holmes, dir-lhe-ei que estão aqui.
Meia hora mais tarde, aparecia o nobre senhor. Seu rosto estava mais cadavérico do que nunca, os ombros, caídos para a frente, e pareceu-me muito mais velho do que na manhã anterior. Recebeu-nos com muita cortesia e sentou-se à escrivaninha, com a barba ruiva batendo na madeira.
— Então, sr. Holmes?
Os olhos de meu amigo estavam fixos no secretário, atrás da cadeira do patrão.
— Creio, senhor, que falarei mais livremente na ausência de seu secretário.
O rapaz tornou-se mais pálido e lançou a Holmes um olhar malévolo.
— Se Vossa Graça assim o desejar...
— Sim, sim, é melhor sair. Agora, sr. Holmes, que tem a dizer?
Meu amigo esperou até que a porta se fechasse, após a saída, do secretário.
— O fato é, senhor duque, que meu amigo e eu ouvimos o dr. Huxtable dizer que há uma recompensa, neste caso. Gostaria de ouvir isso de seus próprios lábios.
— Sem dúvida, sr. Holmes.
— Parece-me que são cinco mil libras a quem lhe disser onde está seu filho.
— Exatamente.
— E mais mil para aquele que indicar a pessoa ou pessoas que o mantêm prisioneiro.
— Exatamente.
— Neste último caso, estão incluídas não só as pessoas que o levaram como também as que conspiram para mantê-lo preso?
— Sim, sim — disse o duque com impaciência. — Se fizer bem seu trabalho, sr. Holmes, não poderá queixar-se de mesquinhez da minha parte.
Meu amigo esfregou as mãos, mostrando uma avidez que me surpreendeu, pois conhecia-lhe os gostos simples.
— Parece-me que vejo seu talão de cheques sobre a mesa — continuou Holmes. — Gostaria que me passasse um cheque de seis mil libras.
O duque estava muito rígido, em sua cadeira, e olhou com frieza para meu amigo.
— É algum gracejo, sr. Holmes? Parece-me que o caso não é para brincadeiras.
— De forma nenhuma, senhor duque. Nunca estive mais sério em minha vida.
— Que quer dizer, então?
— Quero dizer que mereço a recompensa. Sei onde está seu filho e os nomes pelo menos de algumas das pessoas que o mantêm prisioneiro.
A barba do duque tornou-se agressivamente mais ruiva, contra o rosto horrivelmente pálido.
— Onde está ele? — perguntou.
— Está, ou estava, na noite passada, na Galo de Briga, a três quilômetros dos seus portões.
O duque afundou-se na cadeira.
— E a quem o senhor acusa?
A resposta de Holmes foi surpreendente. Adiantou-se rapidamente e tocou no ombro do duque.
— Acuso o senhor — disse ele. — E, agora, espero que me dê o cheque.
Nunca me esquecerei da expressão do duque, ao levantar-se, agarrando-se à mesa como alguém que se afunda num abismo. Depois, com extraordinário esforço, dominou-se. Sentou-se e escondeu o rosto nas mãos. Só falou dali a minutos.
— O que é que sabe? — perguntou finalmente, sem erguer a cabeça.
— Vi-os juntos a noite passada, ao senhor e a ele.
— Alguém mais, além de seu amigo, sabe disso?
— Não falei com ninguém.
O duque apanhou uma pena com dedos trêmulos e abriu o talão de cheques.
— Cumprirei minha promessa, sr. Holmes. Vou passar o cheque, por mais desagradável que me seja a informação que o senhor conseguiu obter. Quando ofereci a recompensa, mal sabia do caminho que tomariam os acontecimentos. Mas o senhor e seu amigo são discretos, sr. Holmes?
— Não compreendo o que quer dizer.
— Falarei mais claramente, sr. Holmes. Se apenas os senhores souberem do incidente, não há por que se tornar mais conhecido. Creio que lhe devo doze mil libras, não?
Holmes sorriu, sacudindo a cabeça.
— Receio que o assunto não possa ser resolvido com essa facilidade. Temos de nos lembrar da morte do professor de alemão.
— Mas James não sabia disso. O senhor não pode responsabilizá-lo. Foi obra daquele selvagem que ele teve a infelicidade de tomar ao seu serviço.
— Na minha opinião, senhor duque, quando um homem se lança a um crime, é moralmente responsável por qualquer crime que derive do primeiro.
— Moralmente, sr. Holmes. Certamente tem razão. Mas não aos olhos da lei. Um homem não pode ser condenado por um assassinato ao qual não esteve presente e que abomina tanto como o senhor. No momento em que soube disso, James confessou-me tudo, tão grande era seu horror e seu remorso. Não se demorou em ir recriminar o assassino. Oh, sr. Holmes, precisa salvá-lo, precisa salvá-lo.
O duque renunciara ao esforço de procurar dominar-se. Andava de um lado para outro, com expressão convulsa. Finalmente, acalmou-se e voltou para a escrivaninha.
— Aprecio sua conduta, vindo procurar-me antes de falar com qualquer outra pessoa — disse ele. — Pelo menos podemos ponderar a melhor forma de abafar o escândalo.
— Exatamente — disse Holmes. — Acho que isso só poderá ser feito se falarmos com absoluta franqueza. Estou pronto a ajudá-lo, da melhor maneira possível, mas, para isso, preciso de todos os pormenores. Parece-me que se referiu ao sr. Wilder e que ele não é o criminoso.
Sidney Paget, 1904
— Não é; o criminoso fugiu.
Sherlock Holmes sorriu.
— Vossa Graça não deve conhecer a reputação que tenho, pois do contrário não acharia tão fácil uma pessoa me escapar. O sr. Reuben Hayes foi preso em Chesterfield, às onze horas da noite passada, graças às informações por num fornecidas. Recebi um telegrama do chefe da polícia antes de sair da escola, hoje de manhã, comunicando-me a sua prisão.
O duque recostou-se na cadeira e olhou com espanto para meu amigo.
— O senhor parece ter poderes sobre-humanos — disse ele. — Então Reuben Hayes foi preso? Estou satisfeito por ouvir isso, se o fato não prejudicar James.
— Seu secretário?
— Não, senhor, meu filho.
Foi a vez de Holmes ficar admirado.
— Confesso que isso para mim é novidade. Peço-lhe que seja mais explícito.
— Nada lhe ocultarei. Concordo com o senhor em que há necessidade de absoluta franqueza. Por mais penoso que me seja isso, é a melhor política, nesta situação desesperada a que nos reduziu a loucura e a inveja de James. Quando eu era jovem, sr. Holmes, amei como só se ama uma vez na vida. Quis me casar com a mulher dos meus sonhos, mas, alegando que isso me arruinaria a carreira, ela se recusou a aceitar meu pedido. Se ela não tivesse morrido, nunca teria me casado com mais ninguém. Morreu e deixou-me esse filho, que criei por amor a ela e a quem me afeiçoei. Não pude reconhecer a paternidade aos olhos do mundo, mas dei-lhe a melhor educação possível, e, quando cresceu, trouxe-o para minha companhia. Ele descobriu meu segredo, e desde então procurou fazer valer o que julga ser seu direito, ameaçando-me de escândalo, coisa que sabe que abomino. Sua presença foi, em parte, responsável pelo fracasso de meu casamento. Acima de tudo, ele odiava Lorde Saltire, meu filho legítimo e meu herdeiro. O senhor me perguntará por que o conservava aqui, nessas circunstâncias, mas posso lhe responder que é porque via em seu rosto os traços da mãe, e por amor a ela não queria afastá-lo. Todos os seus gestos me lembravam a mulher que amei outrora, e eu não podia mandá-lo embora. Mas receei que fizesse alguma coisa contra Arthur — isto é, Lorde Saltire —, e por isso mandei o menino para a escola do dr. Huxtable.
"James conheceu aquele tal Hayes quando o sujeito era meu inquilino, e James, meu administrador. O homem foi sempre um canalha. É incrível que James se tornasse íntimo... mas sempre gostou da companhia de gente baixa. Quando James resolveu raptar Lorde Saltire, lembrou-se de tomar Hayes ao seu serviço. O senhor se recorda de que escrevi a meu filho, na véspera da fuga. Pois bem, James abriu o envelope e acrescentou um bilhete, pedindo a Arthur que fosse ao seu encontro, no bosque Ragged Shaw; perto da escola. Serviu-se do nome da duquesa e, assim, fez com que o menino fosse. Naquela noite, James foi para lá de bicicleta — estou lhe dizendo o que ele próprio me confessou — e disse a Arthur, com quem se encontrou no bosque, que sua mãe estava ansiosa por tornar a vê-lo, que o esperava no pântano e que, se ele voltasse para o bosque à meia-noite, ali encontraria um homem com um cavalo, e que o sujeito o levaria até a duquesa. O pobre menino caiu na armadilha. Foi à entrevista e encontrou Hayes, que lhe trazia um cavalo. Arthur montou, e os dois seguiram juntos. James só ontem soube que eles tinham sido seguidos, que Hayes atacou o professor com uma barra de metal, matando-o. Hayes levou meu filho para a Galo de Briga, prendendo-o num quarto do andar de cima, onde ficou aos cuidados da sra. Hayes, mulher bondosa, mas dominada pelo marido.
"Pois bem, sr. Holmes, era esse o estado de coisas, quando o vi pela primeira vez, há dois dias. Não fazia a menor ideia da verdade. O senhor me perguntará que motivos teve James para agir dessa forma. Respondo que, de fato, há muito de loucura e fanatismo no ódio que ele tem ao meu herdeiro. Na sua opinião, ele é que deve ser o herdeiro de todas as minhas propriedades e não se conforma com as leis que tornam isso impossível. Por outro lado, tinha também um motivo definido. Estava ansioso por que eu quebrasse o vínculo, achando que eu tinha o poder de fazê-lo. Pretendia propor-me um negócio: devolver-me Arthur se eu quebrasse o vínculo, fazendo assim com que fosse possível deixar-lhe as propriedades em testamento. Sabia perfeitamente que eu nunca chamaria de boa vontade a polícia. Creio que me faria tal proposta, mas não chegou a fazê-la, pois os acontecimentos se precipitaram e ele não teve tempo de pôr em prática sua idéia.
"O maldoso plano foi frustrado quando o senhor descobriu o corpo de Heidegger. James ficou horrorizado. Soubemos disso ontem, quando estávamos sentados no escritório. O dr. Huxtable mandou um telegrama. James ficou tão transtornado, que minhas suspeitas, que já existiam, transformaram-se em certeza. Acusei-o. Ele fez uma confissão completa. Depois, suplicou-me que guardasse segredo por mais três dias, para dar tempo ao seu miserável cúmplice de fugir e se salvar. Acedi — como sempre — aos seus rogos, e logo James correu para a Galo de Briga, para prevenir Hayes e facilitar-lhe a fuga. Eu não podia ir lá de dia sem provocar comentários, mas, assim que caiu a noite, fui ver meu querido Arthur. Encontrei-o bem, mas horrorizado com o crime que presenciara. Por causa de minha promessa e contra a minha vontade, consenti em deixar o menino lá mais três dias, aos cuidados da sra. Hayes, já que parecia impossível informar a polícia do seu paradeiro sem contar quem era o assassino... e eu não via maneira de punir esse assassino sem que também James ficasse desgraçado. O senhor pediu franqueza, sr. Holmes, e concordei plenamente, pois contei-lhe tudo, sem a menor reserva. Seja, por sua vez, franco comigo."
— Com certeza — disse Holmes. — Em primeiro lugar, sou obrigado a dizer que o senhor se colocou numa posição muito delicada aos olhos da lei. Tornou-se conivente num crime e ajudou a fuga de um assassino, pois não duvido de que o dinheiro que James Wilder levou ao cúmplice tenha vindo dos cofres de Vossa Graça.
O duque inclinou a cabeça.
— É, de fato, um assunto muito sério. Mais repreensível ainda, na minha opinião, é a sua atitude em relação a seu filho mais novo. O senhor o deixa naquele antro por mais três dias...
— Sob promessa formal...
— Que adiantam as promessas dessa gente? O senhor não tem a menor garantia de que não o levem novamente. Para fazer a vontade de seu filho mais velho, culpado, o senhor expôs o mais novo, inocente, a um perigo desnecessário. Foi uma atitude injustificável.
O orgulhoso senhor de Holdernesse não estava habituado a ser tratado dessa forma no seu salão ducal. O sangue subiu-lhe ao rosto, mas a consciência obrigou-o a ficar mudo. Holmes continuou:
— Vou ajudá-lo, mas com uma condição. É que toque a campainha e permita que eu dê ao lacaio as ordens que bem entender.
Sem uma palavra, o duque apertou o botão da campainha. Entrou um lacaio.
— Vai ficar satisfeito por saber que seu patrãozinho foi encontrado — disse Holmes. — O duque deseja que a carruagem vá imediatamente à Galo de Briga, para trazer Lorde Saltire para casa.
Depois que o criado, muito feliz, desapareceu, Holmes continuou:
— Agora, tendo tratado do futuro, procuremos ser condescendentes quanto ao passado. Não tenho cargo oficial, e não há motivo, contanto que se faça justiça, para eu revelar o que sei. Quanto a Hayes, nada tenho a dizer. Espera-o a força, e nada farei para salvá-lo. Não sei o que ele poderá revelar, mas não duvido de que Vossa Graça possa fazê-lo compreender que é de seu interesse guardar silêncio. Do ponto de vista da polícia, ele raptou seu filho para efeito de resgate. Se não descobrirem mais nada, não vejo razão para lhes abrir os olhos. Gostaria, no entanto, de prevenir Vossa Graça de que a contínua presença do sr. James Wilder em sua casa só poderá causar-lhe desventura.
— Estou de acordo, sr. Holmes, e já ficou combinado que ele me deixará para sempre e irá tentar a vida na Austrália.
— Nesse caso, já que o senhor mesmo me disse que o fracasso de seu casamento teve por causa a presença dele aqui, aconselhá-lo-ei a desculpar-se perante a duquesa, procurando recomeçar a vida matrimonial, tão desastrosamente interrompida.
— Também pensei nisso, sr. Holmes, e já escrevi à duquesa hoje de manhã.
Holmes ergueu-se.
— Nesse caso, acho que meu amigo e eu podemos congratular-nos quanto a alguns aspectos felizes de nossa visita aqui ao norte. Há ainda um ponto que desejo esclarecer. Aquele Hayes ferrou os cavalos com ferraduras que imitavam patas de gado. Foi com o sr. Wilder que aprendeu truque tão extraordinário?
O duque ficou pensativo por um momento, com expressão de grande surpresa na fisionomia. Depois abriu uma porta e conduziu-nos a um salão que parecia um museu. Levou-nos até uma vitrina a um canto e apontou para uma inscrição. Lemos:
"Estas ferraduras foram desenterradas dos fossos de Holdernesse Hall. São para cavalos, mas feitas com uma chapa de ferro partida ao meio, para despistar perseguidores. Acredita-se que tenham pertencido aos barões de Holdernesse, na Idade Média".
Holmes abriu a vitrina, molhou os dedos e passou-os pelas ferraduras. Ainda havia nelas leves sinais de lama.
— Muito agradecido — disse ele, fechando a porta de vidro. — É a segunda coisa interessante que vi aqui no norte.
— E a primeira?...
Holmes dobrou o cheque e guardou-o cuidadosamente.
— Não sou muito rico — respondeu.
Bateu afetuosamente na carteira, pondo-a no bolso.


[1] "Notas de Huxtable sobre Horácio." (N. do E.)