quarta-feira, 22 de maio de 2013

Concepção (Thais Azenha)



Já sentia dentro do útero
o frio na espinha, gosto do ácido
o cio da Terra, o toque áspero

Você pode achar que é o cúmulo
ou que o fim da meada está um pouco efêmero
fim da picada, um exagero

Mas eu já nasci absurda
Fina nos atos, sobro nas bordas
o pingo que com enfim o corpo transborda

Também não me sinto mais tão única
Faço o perfeito de todo imperfeito
ou quando detenho a certeza de eu não ter mesmo mais jeito

É um pouco tarde para o túmulo,
Ou cedo demais, sou improviso
O dia passou não foi por falta de aviso

quarta-feira, 15 de maio de 2013

Um poeta que vale a pena conhecer (postado por LUA)

Após voltar pra casa, 'poeta das ruas' continua a escrever histórias
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CARLA GUIMARÃES
COLABORAÇÃO PARA A FOLHA, EM GOIÂNIA


O "poeta das ruas" de São Paulo, Raimundo Sobrinho, 74, passou 20 anos no canteiro central da avenida Pedroso Morais, zona oeste. Em dezembro de 2005, a Folha contou sua história.

Há um ano, ele foi encontrado pelo irmão --graças a ajuda de uma publicitária que se sensibilizou com sua história-- e levado para morar em Goiânia com a família. Entre lacunas e imprecisões, o poeta conta sua trajetória.

*

Os documentos dizem Raimundo Arruda Sobrinho, nascido em 1º de agosto de 1938, na fazenda Sol Ferino, em Porto do Sítio [atual Goiatins, norte do TO].

Meu pai era vaqueiro. Nascido e criado na zona rural, fui levado aos 16 anos para a cidade, me entregaram para o prefeito, para educar.

De agosto de 1954 a janeiro de 1961 morei com o prefeito. Ia no período das aulas e passava férias em casa.

Em 1960 fui reprovado na segunda série ginasial, me desgostei e fui para São Paulo --cheguei em 10 de janeiro de 1961. Um conhecido me arranjou a passagem.

Fui procurá-lo [o conhecido] na Vila Madalena, num cortiço de madeira. Amanheceu e já fui trabalhar de jardineiro.

Em 1974 houve um desgosto qualquer, abandonei o jardim e fui vender livro velho pelas calçadas. Passava semana sem vender um. Não ganhei nem mais para alimentação.

Dois anos depois estive internado na psiquiatria do Hospital das Clínicas. Muita gente diz: "Tu não sabe o que é um hospital psiquiátrico".

Memórias do canteiro central

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Marlene Bergamo-21.dez.05/Folhapress
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Em dezembro de 2005, no canteiro central da avenida Pedroso de Morais, Raimundo Sobrinho, hoje com 74 anos, escreve em seus cadernos poemas abstratos que dava para as pessoas

Tive 14 endereços até 1978. Morei num quarto e cozinha sem luxo, mas asseado, onde ficou tudo que é meu.

Quando me fizeram abandonar a casa em que eu morava, em 29 de abril de 1978, comecei a dormir pelas ruas.

Ali me reconheci vítima de violação de direitos humanos. Procurei consulados, ninguém prestou atenção.

Sem dinheiro para nada, decidi em 1980 tentar ir para a Argentina. Fui até onde disseram que era Uruguaiana (RS). Cheguei em julho de 1980. Alegaram falta de documento...

Em outubro tentei o Paraguai. Cheguei num dia, no outro fui preso. Passei três dias na cadeia. O cônsul brasileiro me retirou. Deixaram-me onde disseram ser Foz do Iguaçu. Ali fui servente de pedreiro.

No Uruguai. entrei mas não pude ficar. As autoridades e eu nos desentendemos.

Voltei a São Paulo em 1983. Estive no Morumbi, Jardim Paulista, Ibirapuera. Em 1985 fui para a av. Amarílis, onde vivi até junho de 1989.

Numa madrugada chegou um carro cheio de rapazes, acordaram-me e ameaçaram-me. Na rua das Amoreiras fui apedrejado. Não mataram porque não quiseram.

Ficava num local enquanto podia. Havia demonstração de desapreço, me afastava.

Ali [canteiro central da Pedroso de Morais] cheguei era 27 de outubro de 1993. Vivia debaixo de plástico, noite e dia cercado por assaltantes.

Em 1986, em novembro, nasceu o atual diário --diário de uma vítima de violação de direitos humanos.

As mínipáginas não me lembro bem, mas nasceram nesse período. Tudo que escrevo assino, dato e localizo. O público dava os papéis.

A produção é reduzida. Se a pessoa chegasse e eu tivesse minipágina, dava. Se não tivesse, prometia, fazia e guardava à espera da pessoa.

Além delas tem os caderninhos. A capa é feita de papel de embrulho. Fiz centenas.

O barulho dos automóveis não alterava para escrever, só a má iluminação. Qualquer hora escrevia, até debaixo de chuva. Arranjava um plástico, sentava numa lata de 18 litros e continuava trabalhando.

Tem coisas nos meus escritos que considero de valor científico. Chegou um ponto que deixei de assinar meu nome, para assinar o pseudônimo "O Condicionado". Não me lembro a partir de quando. Comecei a ouvir "o condicionado". Descobri que era eu.

Em 1986 veio um pessoal que disse ser do programa Flávio Cavalcanti [então transmitido pelo SBT], me entrevistaram e perguntaram se poderia ir ao programa. Trouxeram a mulher do Antônio Souza Porto [ex-prefeito de Goiatins] e o filho dela.

Do programa me levaram para um hotel. No outro dia me arrastaram até Goiânia. Eu não queria vir. Passei um mês e voltei para o mesmo local que vivia, no Morumbi.

ADAPTAÇÃO

Desta vez disseram que foi com essa instituição dos celulares que me localizaram. Envolveu uma jovem que começou a frequentar o local que eu vivia [a publicitária Shalla Monteiro].

Disseram que ela se comunicou com o Francisco [Arruda, irmão dele]. Ele foi lá duas, três ou quatro vezes, e terminou arrastando-me para cá. Eu não queria.

Não teve problema de adaptação. Preferia continuar lá, porque aqui estou dando trabalho, ocupo espaço, consumo, como, bebo.

Aqui a ordem foi que não preciso trabalhar. O que posso ajudar, faço. Limpar, varrer embaixo dessas mangueiras.

Amanheceu o dia faço o que é possível, depois pego os papéis. O fundamental é o diário. As minipáginas faço o que posso. Aqui não tem muita necessidade delas. Lá precisava para dar a quem me desse alguma coisa, tenho a necessidade moral de retribuir com qualquer coisinha.

Não me considero escritor, mas uma pessoa que sabe gastar papel. Não ganhei um centavo à custa do que escrevi. Tentei. O mundo editorial não pôde pagar coisa nenhuma. Publicar não quero.

Não sei coisa nenhuma o que fazer da vida. Escrever, enquanto eu puder, vou escrever.

terça-feira, 30 de abril de 2013

UM QUÊ DE ALZHEIMER (Por Lua)


UM QUÊ DE ALZHEIMER


Um quê de Alzheimer na minha vida
Onde que foi que deixei minha bebida?
O cartão do banco, a chave do carro,
O livro que eu to lendo,
A capa do Cd?
Cade?
Cadê?
O meu cigarro?
O meu dinheiro?
Ah esse roubaram

Um quê de Alzheimer na minha vida
Minha querida
Não me lembro de você!
Não me lembro de nada
Não me lembro de ontem
Se você está no passado
É fácil te esquecer.
Só não esqueço do endereço de casa
Do caminho do bar
Do bar pra casa, da casa pro bar.



Line Lua

terça-feira, 9 de abril de 2013

Passagem das horas - o desespero ( Por Thaís Azenha)


Estou morrendo de saudades você, não sei da onde tirei a estúpida idéia de viver sem você.
Já sou longe de tudo, não preciso estar sem a sua presença também.
Sou confusa e absurda em termos desleais,
Mas eu te amo,
e só existe essa certeza no momento em minha mente bipolar.
Desculpe se fui demasiadamente impulsiva, e destilei meus horrores em você.
Você na verdade é tudo o que tem me acontecido de bom.
E sempre fui dessas de me sabotar.
Não sei o quanto de perdão eu mereço,
mas sinto falta do teu gosto, do teu cheiro.
Se ainda puder compreender o que esse furacão causou, estarei aqui.
Porque esse amor não cessa e me dói como uma faca cortando lentamente os meus órgãos, devido a distância.
Não sei quanto á você, mas nasci pra estar contigo.

sexta-feira, 8 de março de 2013

Enquanto os Anjos Dormem (Por LUA)


Enquanto os anjos dormem
 
 

 

O adormecer dos anjos

Desperta o desejo sonegado.

Declinamos corpo, alma e espírito

Aos prazeres do pecado.

Libertos desse dogma,

Desobrigados da culpa,

Atraídos e embriagados

Ofertamo-nos à divindade

Que habita o ser amado

 

O despertar da sutileza amaldiçoada

Faz desabrochar a flor nascida

Nas pegadas de Buda Gautama

Que nos conduzem ao Éden,

Entorpecem

Para atingirmos juntos o Nirvana

 

 

 

 

Line Lua

 

quinta-feira, 7 de março de 2013

Necrose Social (Por LUA)


Necrose Social
 

 

Desligo a TV como se fechasse a porta na cara daqueles que mentem

E é com a mente dormente que ignoro o ”quarto poder”

Abro a janela e respiro fundo inalando o cheiro da necrose social

O deus de papel quer sacrifícios

Miséria,sangue e sofrimento o fazem se sentir legal

Mas não faz mal, não faz mal

Hoje na TV vai passar carnaval

E o bom de não saber ler

 É não entender o que tem no jornal

 

Se cada era tem seu anti-cristo

Quem é que nós vamos culpar agora?

É tanta gente, meu deus

Eu não sei nem se minha vó fica de fora

Mas não faz mal, não faz mal

Hoje na TV vai passar carnaval

E o bom de não saber ler

É não entender o que tem no jornal

 

Line Lua

sábado, 2 de março de 2013

No silêncio (Por Stephanie Passos aos 11 anos)








No silêncio uma lágrima rola. Uma lágrima de angústia e de dor. Lágrimas de sofrimento e desperezo, lágrima de medo da verdade, pois a cada momento que se passa aumenta a minha ansiedade.
Ansiedade de descobrir se você gosta ou não de mim. Tudo isso vivo sozinha em silêncio. No silêncio outra lágrima rola. Podia ser de felicidade, mas essa não é a verdade. A verdade é que no meu silêncio vivo em lamento chorando por dentro.  Eu posso até estar sorrindo mas no silêncio só  eu sei a dor que estou passando. Tudo isso guardo dentro de mim. No silêncio do meu coração, no profundo não demonstrar as lágrimas de desprezo e dor. Por isso mesmo é que não posso mais continuar escrevendo, pois preciso ir a um lugar distante pra chorar no meu silêncio.