segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

UTILIDADE PÚBLICA - Como gelar a cerveja em 3 minutos (Por LUA)

Como gelar a cerveja em 3 minutos



Showzinhos, festinhas, reuniões, noite do poker, barzinhos... sou uma boêmia assumida. Bebo sim, estou vivendo, tem gente que não bebe e está morrendo. Poucas coisas me agradam mais que uma cerveja que nem precisa estar tão gelada.



Essa história de cerveja estupidamente gelada é um conceito criado pelas macro-cervejarias que não contam para ninguém que temperaturas muito baixas provocam uma inibição dos receptores de sabor que existem na língua, fazendo com que o consumidor não distinga um bom produto de um produto de qualidade duvidosa.

Conveniente e inteligente, porque essas empresas se aproveitam do nosso clima tropical ( tá um frio do caralho hoje!) para basear seus produtos em determinados aspectos que não o sabor ou a qualidade.

Teoricamente, então, deveríamos empurrar goela abaixo cerveja quente, para ficarmos putos a ponto de nos unirmos (cervejeiros de todo o Brasil) para exigir nosso direito de tomar uma cerveja de qualidade e sabor requintado. Podemos também fazer um boicote às empresas de cerveja. Não colocaremos uma gota de cerveja em nossa boca até nossas exigências serem atendidas.

Ah, tá!! Tá bom que vamos fazer jejum de cerveja. Eu pelo menos não vou. Não sou tão engajada assim e se fui um dia, agora não quero mais ser. Então o que nos resta é tocarmos o foda-se e beber cerveja gelada até nossos receptores de sabor da língua ficarem tão inibidos que nada mais vai lhes restar a não ser vestir a roupa e se mandar pra bem longe. De preferência para a língua de algum gringo que more na groelândia e só tome cerveja de água de ice-berg (já explicado em outra matéria que pode ser lida no link: http://cervejasetal.blogspot.com.br/2012/11/utilidade-publica-cervejas-em.html

Enquanto isso, no Brasil, a gente vai tomando cerveja vagabunda mesmo e ficando muito feliz por isso. E quanto mais gelada melhor. Para isso a gente só precisa de ciência, 3 minutos e os ingredientes abaixo:

  • - Recipiente (balde, bacia ou de preferência uma caixa de isopor)
  • - Um saco de gelo
  • - Álcool líquido
  • - Sal


  • O sal se dissolve facilmente na água e reduz seu ponto de congelamento. Pura, a água congela a cerca de 0 ºC. Já a água com sal precisa de uma temperatura menor, que pode chegar a dezenas de graus abaixo de zero. Quando o sal é colocado no gelo, parte dos cubos derretem, “roubando” calor durante a troca de estado físico e esfriando a mistura como um todo. Além disso, o sal dissolvido provoca uma reação endotérmica, ou seja, reduz mais a temperatura da mistura. O álcool tem um papel semelhante: derrete o gelo “roubando” calor e diminui ainda mais o ponto de congelamento. É usado porque quando a temperatura ficar abaixo de -9 ºC, o sal perde um pouco do efeito, mas o álcool não.

    ATENÇÃO: De olho no relógio: o alumínio é bom condutor de calor, e 3 minutos são suficientes para que as latinhas mergulhadas encontrem o equilíbrio térmico. Como a temperatura fica abaixo de zero, após alguns minutos, a bebida vai estar tão gelada que não vai dar para sentir o gosto e periga congelar.

    O procedimento é muito simples:
     
    Passo 1
    Coloque as latinhas de cerveja no recipiente. 
    Passo 2
    Espalhe o gelo em cima (e em baixo) das latinhas. Faz assim: coloca uma camada de gelo, uma da latinha, outra de gelo, outra de latinha. Deixa espaço pro gelo se acumular entre as latas, vai acelerar o processo.
     
    Passo 3
    Pegue um pouco de sal (um copinho +-, varia de acordo com o tanto de cerveja) e larga por cima da cerveja.

    A essa altura do campeonato sempre aparece um chato pra reclamar do gosto de sal da latinha. Manda ele pra putaquiuspariu. A solução pra isso é fácíl: é só não beber porra nenhuma. Cervejeiro que é cervejeiro só quer saber se a cerveja está  gelada.
     
    Passo 4
    Pega o álcool e vira por cima de tudo. Um litro, dois, quanto você achar conveniente. Retire os fumantes do local para que a cerveja não corra nenhum tipo de risco.
     
    Passo 5
    Misture e aguarde um pouco. Se possível tampe o lugar onde estão as cervejas. Se ele for térmico melhor, claro.
    O gelo vai derreter muito mais rápido do que normalmente, mas em questão de alguns minutos a cerveja vai estar muito gelada. Estupidamente gelada!!!!

     

    Editora Globo
     

     

    DRINKS DA LUA - Smirnoff Ice do C.E.B

    A receita de champagne falso tá fazendo sucesso, eu mesma estava sem grana esse fim de semana mas tomei champagne a rodo, com taça de cristal e tudo. Tá certo que o smirnoff Ice não é tão caro quanto o champagne, então é mais fácil ir em uma distribuidora e comprar uma garrafinha, mas não tem o mesmo charme de fazer em casa.

    A medida usada é uma lata de 350 ml.

    Ingredientes:

    • 1 lata de vodka smirnoff (tá, pode ser uma mais barata também)
    • 2 latas de sprite
    • 1 envelope de suco clight de limão
    • 1 lata de água com gás
    Modo de fazer:


    Misture a vodka com o suco e agite bem. Depois misture a água com gás e depois o sprite. A água e o sprite devem ser misturados bem devagar para não sair o gás.

    A dica é fazer com os ingredientes bem gelados.




     
     

    DRINKS DA LUA - Iogurte que mamãe não gosta

     


    Gelatina de vodka, drink com balinha... bom mesmo é ser criança grande. Então vai aí o:

    IOGURTE QUE MAMÃE NÃO GOSTA!!




    Ingredientes:

    • 1 litro de vodka
    • 4 pacotes de halls
    • 1 lata de leite condensado
    • gelo

    Modo de preparo:

    Bata tudo no liquidificador até ficar homogêneo. Depois é só beber e falar pra sua mãe que tomou todo o iogurte.


    DRINKS DA LUA - Arco-Íris da Alegria

     ARCO-ÍRIS DA ALEGRIA!!



    Esse dá um pouquinho mais de trabalho, mas fica bom, bonito e docim.
    Tome de todas as cores e descubra o que tem no fim do arco-íris!!!!







    Ingredientes:

    • vários pacotes de skitlles (ou mentos teens)
    • água
    • vodka
    • balança
    • garrafinhas de agua

    Modo de preparo:



    Separe as balinhas em cores, cada cor tem um sabor diferente. Coloque as balinhas coloridas nas garrafinhas de agua. Cada 150 g de balinhas para 150 ml de agua, quanto mais balinha e menos agua, mais forte fica o sabor, você pode ir dosando conforme o seu gosto e o numero de balinhas que você tem.

    Agite bem as garrafinhas, e deixe descansar até que as balinhas percam a cor, depois com um filtro de papel (daqueles de fazer café) você coa essa mistura, e coloca numa outra garrafa.








    Depois misture o "suquinho" colorido com a vodka e tá pronto!

    Ahh, não esquece de usar um filtro para cada cor, senão pode pegar gosto...


    DRINKS DA LUA - Gelatina Louca

     
     
     
     
    GELATINA LOUCA

    Tenho alma de criança e como toda criança adoro gelatina, mas sou uma criança crescidinha então faço gelatina de gente crescidinha, mas fico tão animada comendo essas gelatinas como quando eu era criança e mamãe fazia para mim. Tão animada...ou mais, bem mais rsrrss


    Ingredientes:

    • 2 pacotes de gelatina
    • 1/2 litro de agua fervente
    • 1/2 litro de pinga gelada
    • copinhos de café



    Modo de preparo:



    Dissolva a gelatina na agua fervente, depois que dissolver bem, acrescente a pinga e misture bem. Quando estiver tudo bem misturado, coloque nos copinhos de café e leve para gelar. Depois que estiver consistente basta apertar a 'bundinha' do copo que a gelatina sai todinha. DICA: engula de uma vez, não tente mastigar! rs Ah... você pode trocar a pinga por vodka!

    Drinks da LUA - Saudade do Mike

    SAUDADE DO MIKE - Vodka com Halls





    Ingredientes:

    • 1 litro de vodka
    • 6 pacotes de halls (à sua escolha)
    • Gelo
     
     
    Modo de preparo:


    1 (para beber amanhã) -> Com um socador de alho (bem limpinho) ou algo que dê pra socar, soque um pouco os halls para ficar em pedaços menores. Com uma faca (e muito cuidado) tire o bocal da vodka e vá colocando os halls dentro dela, cuidado para não desperdiçar a bebida, conforme a garrafa for enchendo você coloca a vodka excedente num copo. Depois fecha, agita um pouco, virando a garrafa de cabeça pra baixo e pra cima, e assim vai. Coloca no refrigerador até o halls derreter todo e a vodka ficar coloridinha.



    2 (para beber agora) - > Bata no liquidificador a vodka, o halls e o gelo. Beba em seguida! =D

    quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

    DRINKS DA LUA - MAMÃE NAS TREVAS

    Que minha amiga Kal não leia essa postagem, mas se tem uma coisa que eu gosto, embora sinta uma pontinha de vergonha de falar é o famoso Cantina das Trevas, conhecido também pelos chatos como Cantina da Serra. Vinhozinho bom (vou chamar de vinho para não fazer bullying com o pobrezinho). Vinho doce, com aroma de groselha, cor de framboesa, um toque de uva e personalidade de morador de rua. Responsável por ressacas homéricas de pessoas que não citarei os nomes.

    Falando em nomes, estava eu no trabalho pensando nas minhas amigas Thais, Stephanie, Candice e Patrícia quando, sem mais nem menos, sem razão ou coisa parecida, lembrei dessa iguaria e, em homenagem à elas aí vai uma receita muito requintada para aquelas noites em que tivermos um pouquinho mais que R$ 6, 50 no bolso:

    Ingredientes


     
     
    • 1 dose de rum
    • 1 copo (chopp) de Cantinão
    • 1 lata creme de leite
    • 1 lata de leite condensado
    • Pedras de gelo
    • Morangos ou uvas
     

    Modo de Preparo

    1. Bater tudo no liquidificador
    2. Coloque as pedras do gelo e pronto.
     
    Se a grana tiver curta tira o rum porque o Cantinão sozinho já faz um estrago.
     
    Com esse drink é possível servir cantinão até pra sua mãe. É só colocar um moranguinho na borda do copo e pronto. O Morango é responsável em fazer você acreditar que esse drink tão singelo, enfeitadinho com morango e tudo, não vai ter dar a ressaca das Trevas.

    UTILIDADE PÚBLICA - CANONIZAMOS A CERVEJA (Por LUA)


    Em novembro, o Ministério da Agricultura, Alimentação e Meio Ambiente da Espanha promoveu o SIMPÓSIO INTERNACIONAL DA CERVEJA E A SAÚDE. Eita povo doido esses espanhóis, gosto disso. Juntaram um monte de médicos, nutricionistas, especialistas de toda união Européia, de várias áreas da medicina, todos cachaceiros obviamente, em uma reunião que, imagino eu, deve ter sido muito animada, só para poderem alardear pelos quatro cantos que Cerveja é o néctar divino, faz bem, alivia as tensões, te transforma em um ótimo dançarino, torna as pessoas mais bonitas, mais engraçadas. Mas não pára por aí não.

     

    No fim da festa, quer dizer, simpósio, divulgaram que a cerveja atua de forma protetora na osteoporose, nos problemas cardiovasculares e nos distúrbios da menopausa (eu mesma previno com cerveja os distúrbios da menopausa desde os 15 anos mais ou menos. Sou uma mulher muito prevenida.).

    A cerveja é fonte de vitamina B, ácido fólico, antioxidantes e colágeno. Poderia ser uma ótima opção para as mulheres já que os nutrientes favorecem especialmente o sexo feminino, além de ser um excelente repositor de estrogênio, hormônio que reduz na menopausa, provocando aqueles sintomas malditos da menopausa. (Essa é a hora de chamar as amigas para cuidar da saúde no barzinho mais próximo).

    E nossa amiguinha cerveja tem mais qualidades. Ela contém alumínio e silício, que fortalecem os ossos, é fonte de fibras e melhora o funcionamento do intestino, além de ser mais gostosa do que activia.
     

    Esse Simpósio maravilhoso ainda nos fez o favor de colocar a cerveja na pirâmide alimentar e indica a bebida, até mesmo para grávidas – a versão sem álcool (eles também não iam ser assim tão caras-de-pau) – por causa da presença do ácido fólico na composição.Os polifenois presentes na cerveja também fortalecem o leite materno e favorecem o bebê (é o simpósio que está dizendo, não sou eu, juro!).

    Mas não é só para a mulherada que a cerveja faz bem. Ficou comprovado que o consumo de cerveja após exercícios físicos é tão eficaz quanto a água para a hidratação. Aliás a frase contida no dossiê é a seguinte: “Não foi encontrado nenhum efeito negativo que pudesse ser atribuído à ingestão de cerveja em comparação com a ingestão de água”. Foi apresentado um estudo, também, que descarta que exista “qualquer relação” entre o consumo da bebida e a tendência a desenvolver “barriga de chopp”. Até porque cerveja é cerveja, chopp é chopp, mas enfim...Queria mesmo era saber onde é que posso me consultar com médicos assim tão legais.

    Como eu precisava resumir o dossiê para compartilhar com vocês cortei umas partezinhas que falavam qualquer coisa sobre consumo moderado, duas latas por dia, mas isso é só blá, blá, blá. O que importa mesmo é que a CERVEJA É A NOSSA UTOPIA, QUE ABRIGA A NOSSA MAIS ALTA FILOSOFIA.

    Aliás, depois disso tudo cheguei à conclusão que a cerveja deveria ser o novo cafezinho. Ter de graça em qualquer lugar.

    Drinks da LUA - Caipirinha de CERVEJA



    O nome do blog já diz tudo. Nôs adoramos uma cervejinha e isso não é segredo para ninguém. O que é segredo e agora vou contar é que a cerveja também pode ser usada para fazer drinks bem gostosos.  E eu, em um acesso de bondade, compartilharei meus segredos cervejeiros com vocês. Aproveito o momento também para dizer que quando forem testar as minhas receitas, pode me convidar. Vocês levam os drinks e eu levo minha alegria e amizade.

     

    CAIPIRINHA DE CERVEJA


    Ingredientes

    • 1 latinha de Cerveja Pilsen, eu prefiro Brahma
    • 2 doses Vodka
    • 2 Limões
    • 1 Píres com Sal
    • Gelo a gosto.

    Como fazer

    • Misture a vodka, a cerva e o suco dos dois limões.
    • Passe o que sobrou dos limões na borda do copo e passe essa borda no píres com sal para que forme uma borda salgada.
    • Coloque a mistura de vodka com limão e gelo no copo, misture a cerva BEM GELADA.

     

    quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

    SHERLOCK HOLMES - O enigma de Reigate

    Arthur Conan Doyle
    O enigma de Reigate

    Título original: The Reigate Puzzle
    Publicado pela primeira vez na Strand Magazine,
    em Junho de 1893 e com 6 ilustrações de Sidney Paget.

    Sobre o texto em português:
    Este texto digital reproduz a
    tradução de The Reigate Puzzle publicado em
    As Aventuras de Sherlock Holmes, Volume III,
    editado pelo Círculo do Livro
    e com tradução de Hamílcar de Garcia.
    O que narro a seguir aconteceu um pouco antes de o meu amigo Sherlock Holmes ter-se restabelecido de uma enfermidade causada pêlos enormes esforços despendidos na primavera de 1887. Constituiria assunto apropriado a esta série de esboços a questão da Netherland-Sumatra Company e dos colossais projetos do barão Maupertuis, mas está tão recente na mente do público e tão intimamente relacionada com a política e as finanças que é melhor deixá-la de lado. No entanto, ainda que de um modo muito indireto, ela conduz a um problema complexo e singular, que deu a meu amigo uma oportunidade de demonstrar o valor de uma arma nova entre as muitas com que sustentou batalhas contra o crime ao longo da vida.
    Recorrendo a minhas notas, verifico que foi no dia 14 de abril que recebi um telegrama de Lyon, na França, informando-me de que Holmes se encontrava doente, na cama, no Hotel Dulong. Vinte e quatro horas depois, eu estava no quarto do doente. Fiquei logo aliviado ao verificar que não havia nada de grave nos sintomas que apresentava. Porém, sua constituição de ferro cedera sob o esforço da investigação que se arrastara durante dois meses. Durante esse período nunca trabalhara menos de quinze horas por dia, e mais de uma vez, segundo me assegurou, ficou preso à sua tarefa por cinco dias ininterruptos. O resultado triunfante de seus labores não pôde salvá-lo da reação a tão terrível esforço. Quando toda a Europa repetia seu nome e seu quarto estava literalmente atulhado de telegramas de congratulações, encontrei-o dominado pela mais terrível depressão. Até o reconhecimento de que havia triunfado onde a polícia de três países fracassara, e de que excedera largamente em manobras o mais refinado trapaceiro da Europa, não foi suficiente para fazê-lo reagir contra aquela prostração nervosa.
    Três dias depois estávamos de volta à Baker Street. Era evidente, porém, que meu amigo melhoraria muito com uma mudança de clima. E para mim a idéia de uma semana de primavera no interior era aliciante. Meu velho amigo, o coronel Hayter, que esteve entregue a meus cuidados profissionais no Afeganistão, e que arranjara uma casa perto de Reigate, no Surrey, convidara-me com freqüência para que lhe fizesse uma visita. Acrescentara, da última vez, que, se meu amigo me quisesse acompanhar, teria também o maior prazer em recebê-lo. Não obstante, foi necessário um pouco de diplomacia. Quando Holmes soube que a casa era de solteiro, e que lhe seria permitida plena e inteira liberdade, concordou com meus planos e, uma semana depois de nosso regresso de Lyon, estávamos em casa do coronel. Hayter era um excelente veterano, de fino trato e que correra mundo. Descobriu logo, como era de esperar, que Holmes e ele tinham muita coisa em comum.
    Na noite da nossa chegada, após o jantar, sentamo-nos na sala de armas do coronel. Holmes estirou-se no sofá. Eu e Hayter examinávamos seu pequeno arsenal.
    — A propósito — disse-me ele de repente —, vou levar uma dessas pistolas lá para cima, para a hipótese de um alarme.
    — Um alarme! — exclamei eu.
    — Sim, levamos um susto nesta zona recentemente. O velho Acton, que é um dos magnatas de nosso condado, teve a casa arrombada na última segunda-feira. Não houve nenhum grande prejuízo, mas os gatunos ainda andam à solta.
    — Nenhum indício? — perguntou Holmes, olhando de soslaio para o coronel.
    — Nenhum até agora. Mas o caso é muito insignificante. Um pequeno crime de província. Aliás, muito pequeno para merecer sua atenção, Sr. Holmes, depois daquele grande caso internacional.
    Holmes acenou recusando o elogio, embora seu sorriso mostrasse que ele lhe agradara.
    — Houve alguma coisa de interesse?
    — Penso que não. Os ladrões saquearam a biblioteca, e conseguiram muito pouco pelo seu trabalho. Todo o local foi revolvido. As gavetas e os armários foram arrombados, resultando no desaparecimento de um bizarro volume de Homero, traduzido por Pope, dois candelabros de prata, um peso de papéis de marfim, um pequeno barómetro de carvalho e um rolo de barbante.
    — Que extraordinária coleção! — exclamei.
    — Oh! Evidentemente, eles levaram tudo o que puderam apanhar.
    Holmes grunhiu do sofá.
    — A polícia do condado precisava ver isso — disse ele. — Ora essa, é evidente, sem dúvida alguma, que...
    Mas eu levantei o dedo em sinal de advertência:
    — Meu caro, você está aqui para descansar. Pelo amor de Deus, não se envolva com outro problema quando tem os nervos em fiapos.
    Holmes encolheu os ombros com um olhar de cômica resignação para o coronel, e a conversação enveredou por caminhos menos perigosos.
    Estava escrito, porém, que todo o meu cuidado profissional seria tempo perdido, porque na manhã seguinte o problema foi-nos imposto de maneira tal que se tornou impossível ignorá-lo. E nossa estada na província tomou um rumo que nenhum de nós podia prever. Tomávamos o café matinal quando o mordomo do coronel entrou na sala sem qualquer cerimônia.
    — Ouviu as notícias, senhor?! — arfou ele. — Na casa dos Cunninghams, senhor!
    — Roubo? — indagou o coronel, com a xícara de café a meio caminho da boca.
    — Assassinato!
    O coronel assobiou.
    — Por Júpiter! Quem morreu? O juiz de paz ou o filho?
    — Nenhum deles, senhor. Foi William, o cocheiro. Alvejaram-no no coração, e nunca mais falou.
    — Quem o alvejou, então?
    — O ladrão, senhor. E depois fugiu como uma bala e desapareceu. Tinha entrado pela janela da copa, quando William se atirou a ele e encontrou a morte na defesa da propriedade do seu patrão.
    — A que horas?
    — À noite passada, mais ou menos à meia-noite.
    — Bem, vamos lá imediatamente — disse o coronel, recomeçando friamente a tomar o desjejum. — É um negócio sujo — acrescentou, quando saiu o mordomo. — O velho Cunningham é o principal fidalgo da região. É uma pessoa muito decente. Isso vai afligi-lo bastante, porque o homem estava a seu serviço há muitos anos, e era um étimo empregado. Evidentemente, deve ser o mesmo tratante que entrou na casa de Acton.
    — E roubou aquela coletânea tão estranha? — perguntou Holmes, pensativo.
    — Exatamente.
    — Hum! Talvez seja o acaso mais simples do mundo; todavia, à primeira vista, é um tanto curioso, não é? Era de esperar que um bando de ladrões, agindo no interior, variasse o cenário de suas operações, e não fizesse dois furtos no mesmo distrito em poucos dias. Quando o senhor falou a noite passada em tomar precauções, lembro-me de que me passou pela cabeça que esta provavelmente seria a última paróquia da Inglaterra a que um ladrão, ou ladrões, voltariam sua atenção; o que mostra que ainda tenho muito o que aprender.
    — Deve tratar-se de algum profissional da região — disse o coronel. — Nesse caso, as casas de Acton e de Cunningham eram exatamente as que lhe podiam interessar, pois são as maiores que há por aqui.
    — E eles são os mais ricos?
    — Devem ser, mas tiveram uma demanda durante alguns anos, o que sugou o sangue a ambos, suponho eu. Parece que o velho Acton tem direito a metade das propriedades de Cunningham, e os advogados agarraram-se a isso com as duas mãos.
    — Se o ladrão for daqui, não será difícil dar-lhe caça — disse Holmes com um bocejo. — Está certo, Watson, não tenciono intrometer-me.
    — O inspetor Forrester, senhor — anunciou o mordomo, abrindo a porta com ímpeto.
    Entrou o oficial, que era jovem, inteligente e de fisionomia viva.
    — Bom dia, coronel. Não queria incomodá-lo, mas ouvi dizer que o Sr. Holmes, da Baker Street, está aqui.
    O coronel fez um gesto com a mão em direção a meu amigo, e o inspetor fez uma vênia.
    — Pensamos que talvez o senhor quisesse intervir.
    — O destino está contra você, Watson — disse ele, rindo. — Estávamos conversando sobre o assunto quando o senhor entrou — disse ao inspetor. — Talvez nos possa dar alguns pormenores.
    Inclinou-se para trás em sua cadeira, na atitude que lhe era familiar, e então percebi que o caso era sem esperança.
    — Não tínhamos nenhum indício no caso de Acton. Mas neste temos uma porção deles para seguir, e não há dúvida de que foi a mesma pessoa que visitou ambas as casas. O homem foi visto.
    — Ah!
    — Sim, senhor. Mas fugiu como um veado depois do tiro que matou o pobre William Kirwan. O Sr. Cunningham viu-o da janela do quarto, e o Sr. Alec Cunningham viu-o do corredor dos fundos. Faltava um quarto para a meia-noite quando soou o alarme. O Sr. Cunningham acabava de se deitar, e o Sr. Alec, de roupão, fumava uma cachimbada em seu quarto de vestir. Ambos ouviram William, o cocheiro, pedindo socorro. O Sr. Alec desceu correndo para ver o que era. A porta dos fundos estava aberta, e quando chegou ao pé da escada, viu dois homens lutando do lado de fora. Um deles atirou, o outro caiu, e o assassino correu então através do jardim e pulou a cerca. O Sr. Cunningham, olhando pela janela de seu quarto, viu o indivíduo quando este chegava à estrada, mas logo o perdeu de vista. O Sr. Alec abaixou-se para ver se podia prestar auxílio ao moribundo, e entrementes o bandido fugiu. Além do fato de que era um homem de estatura média e vestido de preto, não temos mais nenhum indício pessoal. Estamos, porém, fazendo rigorosas investigações. Se for de fora, nós o descobriremos rapidamente.
    — O que William fazia lá? Disse alguma coisa antes de morrer?
    — Nem uma palavra. Mora na casa do guarda com sua mãe, e, como era um rapaz muito fiel, supomos que foi à casa com a intenção de ver se tudo ia bem. Como é natural, o caso de Acton pôs todo mundo de sobreaviso. O ladrão acabava de arrombar a porta, pois a fechadura fora forçada, quando William o apanhou.
    — William disse alguma coisa à mãe antes de sair?
    — Ela é muito velha e surda, e não lhe pudemos arrancar nenhuma informação. O choque deixou-a apatetada. Mais tarde fui informado de que ela nunca foi lúcida. Há, porém, uma circunstância muito importante. Olhem para isto!
    E tirou um pedaço de papel rasgado de uma agenda, que alisou sobre o joelho.
    — Isto foi encontrado entre o indicador e o polegar do morto. Parece um fragmento rasgado de uma folha grande. O senhor verá que a hora aqui mencionada é a mesma em que o pobre rapaz encontrou a morte. Pode supor-se que o assassino lhe arrebatou o resto da folha, ou ele, ao assassino. Parece tratar-se de um encontro marcado.
    Holmes pegou na tira de papel, cujo fac-símile vai aqui reproduzido.
    — Admitindo-se que fosse um encontro combinado — continuou o inspetor —, então deve supor-se que esse William Kirwan, que possuía a reputação de honesto, podia ter ligação com o gatuno. Podia tê-lo encontrado lá, e até auxiliado a arrombar a porta. Depois, podiam ter-se desavindo entre si.
    — Este escrito é de extraordinário interesse — disse Holmes, examinando-o com cuidado e concentração. — As águas são muito mais profundas do que pensei. — E meteu a cabeça entre as mãos; o inspetor riu-se do efeito que o caso produzira no famoso especialista londrino. — Sua última observação — disse Holmes no mesmo instante —, quanto à possibilidade de ter havido cumplicidade entre o ladrão e o empregado, e de ser esta uma nota de compromisso entre eles, é uma suposição engenhosa e, aliás, não totalmente impossível. Porém, este escrito começa... — e mergulhou novamente a cabeça entre as mãos, permanecendo por alguns instantes na mais profunda concentração. Quando levantou o rosto, fiquei surpreso ao ver que tinha o rosto corado e os olhos brilhantes como antes de sua doença. Em seguida, levantou-se com toda a sua antiga energia.
    — Eu lhe direi! — exclamou. — Gostaria de dar uma rápida olhadela nos pormenores deste caso. Há nele certas coisas que me fascinam extremamente. Se me permitir, coronel, eu o deixarei com meu amigo Watson e irei com o inspetor para verificar o acerto de uma ou duas pequenas fantasias minhas. Estarei novamente com vocês dentro de meia hora.
    Passava já de hora e meia quando o inspetor voltou sozinho.
    — O Sr. Holmes anda para baixo e para cima no campo em volta da casa — disse-nos. — E quer que subamos os quatro à casa.
    — À casa do Sr. Cunningham?
    — Exatamente.
    — Para quê?
    O inspetor encolheu os ombros.
    — Não sei, senhor. Cá entre nós, penso que o Sr. Holmes ainda não se restabeleceu completamente. Tem-se conduzido de modo muito esquisito e está muito excitado.
    — Acho que não precisa se alarmar — disse eu. — Geralmente, tenho verificado que há método em sua loucura.
    — Aliás, pode haver quem diga que há loucura em seu método — murmurou o inspetor. — Mas ele está ansioso por prosseguir, coronel, de modo que o melhor é irmos, se estiverem prontos.
    Encontramos Holmes andando de um lado para outro, com o queixo enterrado no peito e as mãos metidas nos bolsos das calças.
    — O caso ganha em interesse — disse ele. — Watson, sua excursão ao interior foi um enorme êxito. Estamos tendo uma manhã encantadora.
    — Ouvi dizer que o senhor já esteve no local do crime — falou o coronel.
    — Sim. O inspetor e eu já fizemos um reconhecimento rápido, mas completo.
    — Algum resultado?
    — Ora, vimos coisas interessantes. Eu lhes direi o que fizemos enquanto caminhamos. Primeiro, vimos o corpo do pobre homem. Morreu certamente de um ferimento a bala, como dizem.
    — Então o senhor tinha dúvidas?
    — Oh, é bom comprovar tudo. Nossa inspeção não foi em vão. Entrevistamos o Sr. Cunningham e o filho, que mostraram o lugar exato onde o ladrão pulou a cerca do jardim na sua fuga. Era de grande interesse.
    — Naturalmente.
    — Em seguida, fomos ver a mãe do pobre rapaz. Por mais que nos esforçássemos, não pudemos obter nenhuma informação dela, porque é muito velha e fraca da cabeça.
    — E qual o resultado de suas investigações? — perguntei.
    — A convicção de que o crime é muito peculiar. Nossa visita talvez possa descobrir alguma coisa que o torne mais claro. Creio que estamos perfeitamente de acordo, inspetor, em que o fragmento de papel na mão do morto, indicando a hora exata de sua morte, é de extrema importância.
    — Ele podia dar-nos uma pista, Sr. Holmes.
    — Com efeito, ele a dá. Quem quer que tenha escrito a carta, foi o homem que tirou William Kirwan da cama àquela hora. Mas onde está o resto dessa folha de papel?
    — Examinei o chão com todo o cuidado na esperança de encontrá-lo — disse o inspetor.
    — Foi rasgada da mão do morto. Por que alguém haveria de desejá-la? Naturalmente, porque ela o incrimina. E o que faria com ela? Muito provavelmente a meteria no bolso, sem notar que um canto dela ficara nas mãos do cadáver. Se pudéssemos achar o resto da folha, é claro que teríamos progredido muito na solução do mistério.
    — Exatamente! Mas como revistar o bolso do criminoso antes de prendê-lo?
    — Bem, vale a pena pensar nisso. Há ainda outro ponto claro. A carta foi enviada a William. Quem a escreveu não podia levá-la; do contrário, transmitiria sua mensagem verbalmente. Quem levou-lhe a carta, então? Ou teria sido enviada pelo correio?
    — Já investiguei — respondeu o inspetor. — William recebeu uma carta pelo correio ontem à tarde. O envelope foi destruído por ele.
    — Excelente! — exclamou Holmes, dando umas palmadinhas nas costas do inspetor. — O senhor já falou com o carteiro. É um prazer trabalhar com o senhor. Bem, aqui está a casa; se o senhor quiser entrar, coronel, mostrar-lhe-ei o local do crime.
    Passamos pela casinha onde morava o cocheiro, e subimos uma alameda ladeada de carvalhos até uma bonita casa do tempo da rainha Ana, que ostentava a data de Malplaquet sobre o dintel da porta. Holmes e o inspetor fizeram-nos contorná-la até chegarmos a um portão lateral, separado da cerca que ladeia a estrada por um trecho de jardim. Um policial estava de guarda à porta da cozinha.
    — Abra a porta, oficial — disse Holmes. — Ora, foi nesta escada que o jovem Cunningham esteve, e viu os dois lutando justamente onde nós estamos. O velho Cunningham estava naquela janela... a segunda, à esquerda, e dali viu o indivíduo desaparecer à esquerda daquela moita. O filho, também. Ambos estão certos disso por causa da moita. Então o Sr. Alec saiu correndo e ajoelhou-se ao lado do ferido. O chão está muito duro, como vêem, e não há rastros para nos guiarem.
    Enquanto falava, dois homens desceram a trilha do jardim, rodeando o canto da casa. Um era velho, de semblante grave, olhos fundos e tristes; o outro era um jovem impetuoso, cuja expressão, brilhante e sorridente, e a roupa esplêndida faziam um contraste estranho com o que nos trouxera ali.
    — Ainda continua com isso? — disse ele a Holmes.
    — Pensei que os londrinos nunca falhassem. O senhor não me parece assim tão rápido.
    — Ah, é preciso dar-nos um pouco mais de tempo — respondeu Holmes, bem-humorado.
    — Como quiser — disse o jovem Cunningham. — Podemos ajudá-lo a recolher indícios?
    — Há apenas um — respondeu o inspetor. — Pensávamos que podíamos descobrir... Céus! O que houve, Sr. Holmes?
    O rosto de meu pobre amigo apresentou de repente a mais terrível expressão. Seus olhos viraram-se para cima, seu rosto contraiu-se numa agonia e, com um sufocado gemido, caiu com o rosto no chão. Horrorizados com a rapidez e a violência do ataque, levamo-lo para a cozinha, onde o deitamos sobre um banco e o abanamos por alguns minutos. Finalmente, desculpando-se de sua fraqueza e com expressão de vergonha, levantou-se outra vez.
    — Watson pode dizer-lhes que acabo de me restabelecer de uma prolongada doença — explicou-lhes. — Estou sujeito a estes repentinos ataques de nervos.
    — Mandarei alguém levá-lo a casa de carro — propôs o velho Cunningham.
    — Ora, visto que estou aqui, quero ver uns pormenores que gostaria muito de elucidar. Podemos verificá-los muito facilmente.
    — De que se trata?
    — Ora, parece-me muito possível que a chegada desse pobre William não tenha se dado antes, mas depois de o ladrão entrar na casa. O senhor parece estar certo de que, embora a porta tivesse sido arrombada, o ladrão não chegou a entrar na casa.
    — Penso que é muito claro — disse o st. Cunningham com gravidade, — Visto que meu filho Alec ainda não fora deitar-se, certamente teria ouvido alguém a andar por aí.
    — Onde ele estava sentado?
    — Eu estava fumando em meu quarto de vestir.
    — Em que janela?
    — A última à esquerda, perto da de meu pai.
    — Nesse caso, ambas as velas estavam acesas?
    — Sem dúvida alguma.
    — Há aqui pontos muito curiosos — disse Holmes, sorrindo. — Não é extraordinário que um ladrão... e um ladrão que já tenha experiência, entrasse deliberadamente numa casa no momento em que podia ver pela luz acesa que dois membros da família ainda estavam acordados?
    — Ele deve ter agido com audácia e sangue-frio.
    — Claro; se o caso não fosse esquisito, não lhe teríamos pedido auxílio — disse o Sr. Alec. — Mas, quanto à sua idéia de que o homem teria roubado a casa antes de William atacá-lo, julgo-a absurda. Não teríamos encontrado o local desarrumado e dado pela falta dos objetos que ele levasse?
    — Depende — respondeu Holmes. — O senhor deve lembrar-se de que estamos lidando com um ladrão muito especial, que parece ter linhas próprias de ação. Olhe, por exemplo, para a porção de coisas esquisitas que levou da casa de Acton: o que eram? Uma bola de barbante, um peso de papéis e não sei que outras bugigangas!
    — Bem, estamos inteiramente em suas mãos, Sr. Holmes — disse o velho Cunningham. — Tudo o que o senhor ou o inspetor sugerirem será feito imediatamente.
    — Em primeiro lugar — disse Holmes —, gostaria que o senhor oferecesse uma recompensa... como iniciativa sua, para que os funcionários não percam muito tempo discutindo a respectiva quantia, pois essas coisas não se fazem correndo. Já rascunhei aqui a fórmula, se o senhor não vir inconveniente em assiná-la. Cinqüenta libras são suficientes, penso eu.
    — Eu daria de boa vontade cem libras — respondeu o juiz de paz, pegando na tira de papel e no lápis que Holmes lhe oferecia.
    — Mas isso não está certo — disse ele, olhando para o documento.
    — Escrevi-o muito às pressas.
    — Como vê, o senhor começa assim: "Devia faltar um quarto para a uma hora, na manhã de terça-feira, quando foi feita uma tentativa...", e assim por diante. Na realidade, era um quarto para a meia-noite.
    Fiquei angustiado com o engano, porque sabia como Holmes havia de sentir um deslize dessa natureza. A exatidão nos fatos era sua especialidade. Mas sua recente doença abalara-o, e o incidente, embora insignificante, me mostrou que ele ainda estava longe de ser o mesmo. Ficou claramente embaraçado por um instante. O inspetor arregalou os olhos, e Alec Cunningham soltou uma gargalhada. O velho Cunningham corrigiu o engano e devolveu o papel a Holmes.
    — Mande publicá-lo o mais depressa possível — disse ele.
    Holmes pôs cuidadosamente a tira de papel em sua carteira.
    — E agora — continuou —, seria realmente bom que percorrêssemos todos juntos a casa para verificar se este excêntrico ladrão não levou nada com ele.
    Antes de entrar, Holmes examinou a porta que fora forçada. Era evidente que fora introduzido um formão ou canivete na fechadura, forçando-a para trás. Vimos as marcas na madeira, no lugar onde fora empurrada.
    — O senhor não usa trancas?
    — Nunca as julgamos necessárias.
    — Não tem cão?
    — Temos. Mas está preso do outro lado da casa.
    — A que horas se deitam seus criados?
    — Cerca das dez horas.
    — Seria portanto natural que a essa hora William estivesse também na cama?
    — Perfeitamente.
    — É curioso que na noite do crime estivesse acordado. Ora, ficarei muito contente se o senhor quiser ter a bondade de nos mostrar toda a casa, Sr. Cunningham.
    Um corredor de laje, com uma cozinha ao fundo, dava, por uma escada de madeira, diretamente para o primeiro andar, e terminava num terraço fronteiriço; depois, havia uma segunda escada, mais ornamentada, que levava para o pórtico da fachada. Daí entrava-se na sala de estar e em diversos quartos, incluindo o do Sr. Cunningham e o do filho.
    Holmes andava devagar, anotando com cuidado a planta da casa. Eu podia adivinhar pela sua expressão que estava na pista certa, mas não podia imaginar, nem de longe, em que direção as suas deduções o levavam.
    — Meu caro senhor — disse o Sr. Cunningham —, isso é sem dúvida alguma desnecessário. Aquele ao fundo da escada é meu quarto, o do meu filho fica do outro lado. Deixo a seu critério se seria possível ao ladrão subir até aqui sem nos perturbar.
    — O senhor deve dar meia-volta e tentar descobrir uma pista fresca, creio eu — disse o filho com um sorriso malicioso.
    — Paciência; preciso pedir-lhes que tenham um pouco mais de paciência comigo. Gostaria, por exemplo, de ver a que distância do chão ficam as janelas da frente. Este, suponho, é o quarto de seu filho — e empurrou a porta —, e este outro, presumo, é o quarto de vestir onde Alec Cunningham estava fumando quando foi dado o alarme. Para onde dá a janela daquele? — Dirigiu-se para o quarto, abriu a porta e olhou em volta.
    — Suponho que agora já esteja satisfeito — falou o Sr. Cunningham de mau humor.
    — Muito obrigado; creio que já vi tudo o que queria.
    — Então, se for realmente necessário, podemos entrar em meu quarto.
    — Se não for pedir demais.
    O juiz de paz encolheu os ombros e abriu caminho para seu próprio quarto, que era comum e mobiliado com simplicidade. Caminhando na direção da janela, Holmes atrasou-se tanto que eu e ele éramos os últimos do grupo. Perto da cama havia uma mesa quadrada sobre a qual estavam uma fruteira com laranjas e uma garrafa de água. Ao passar por ela, para meu enorme espanto, curvou-se à minha frente e esbarrou nela, derrubando-a com tudo o que estava em cima.
    O que era de vidro fez-se em mil pedaços, e as frutas rolaram pêlos quatro cantos do quarto.
    — Que lindo serviço, Watson! — disse ele friamente.
    — Veja a porcaria que fez no tapete.
    Baixei-me confuso para apanhar as frutas, compreendendo que devia haver um motivo para que meu companheiro quisesse que eu arcasse com a culpa. Os outros ajudaram-me, e a mesa foi posta de pé novamente.
    — Oh! — exclamou o inspetor. — Aonde foi ele? Holmes desaparecera.
    — Esperem um instante — disse o jovem Cunningham. — O homem não regula bem da cabeça, parece-me. Venha, pai, vamos ver para onde foi.
    Saíram do quarto, deixando o inspetor, o coronel e eu a olharmos uns para os outros.
    — Palavra que estou quase concordando com o Sr. Alec — disse o oficial. — Pode ser o efeito da doença, mas parece-me que...
    Suas palavras foram cortadas por um grito repentino de alarme. "Socorro! Socorro! Assassino!" Com um estremecimento, reconheci a voz de meu amigo. Saí como louco do quarto para o patamar. Os gritos, que se transformavam num rouco e inarticulado berreiro, vinham do quarto que visitáramos primeiro. Precipitei-me para lá, e depois para o quarto de vestir.
    Ambos os Cunninghams estavam curvados sobre a figura prostrada de Sherlock Holmes; o mais jovem apertava-lhe a garganta com ambas as mãos, e o mais velho pareceu-me estar torcendo seu pulso. Num instante os separamos, e Holmes cambaleou para ficar de pé, muito pálido, evidentemente exausto.
    — Prenda estes homens, inspetor! — arfou ele.
    — Sob que acusação?
    — A do assassínio do cocheiro William Kirwan!
    O inspetor olhou-o, muito confuso.
    — Oh, Sr. Holmes, ora vamos — disse ele —, estou certo de que o senhor não quer dizer que...
    — Basta, homem, olhe para a cara deles! — gritou Holmes secamente.
    Era verdade; jamais vi uma confissão de culpa mais completa em rosto humano. O velho parecia entorpecido e pasmado, com uma expressão grave e sombria que lhe marcava fortemente o rosto. O filho, por outro lado, perdera toda a altivez, a maneira impetuosa que o caracterizava, e a ferocidade de um animal selvagem brilhava em seus olhos escuros, deformando-lhe as feições correias. O inspetor nada mais disse.
    Dirigiu-se para a porta e soprou seu apito. Dentro de poucos instantes, dois guardas apareceram.
    — Não tenho outra alternativa, Sr. Cunningham — disse ele. — Espero que tudo isto venha a ser um absurdo engano; mas pode ver que... Quer fazer o favor? Solte-o!
    — Bateu com a mão, e um revólver, cujo gatilho o mais jovem tentava nesse momento premir, retiniu no soalho.
    — Guarde-o — disse Holmes, pondo-lhe rapidamente o pé em cima. — Vai ver que lhe será muito útil no tribunal. Mas era isto o que realmente queríamos. — E sacou um pequeno pedaço de papel amarrotado.
    — O resto da folha? — gritou o inspetor.
    — Exatamente.
    — E onde estava?
    — Onde eu estava certo de que devia estar. Esclarecer-lhe-ei agora mesmo todo o assunto. Creio, coronel, que o senhor e Watson podem ir-se agora. Estarei com vocês dentro de uma hora no máximo. O inspetor e eu precisamos trocar uma palavra com os prisioneiros. Mas estarei de volta para o almoço.
    Sherlock Holmes cumpriu sua palavra, pois cerca de uma hora depois estava conosco na sala de fumar do coronel. Estava acompanhado por um cavalheiro baixo e de certa idade, que foi apresentado como o Sr. Acton, cuja casa fora objeto do primeiro furto.
    — Eu queria que o Sr. Acton estivesse presente enquanto eu lhes explico este caso — disse Holmes —, porque é natural que ele tenha o mais vivo interesse pêlos pormenores. Receio, meu caro coronel, que lamente a hora em que deixou entrar em sua casa um pássaro de tormenta como eu.
    — Pelo contrário — respondeu o coronel calorosamente —, considero que o maior privilégio foi ter-me sido permitido observar seus métodos de atuação. Confesso que eles excederam minhas expectativas, e que sou inteiramente incapaz de explicar seu resultado. Não vi ainda o menor vestígio de um indício.
    — Temo que minha explicação possa desiludi-lo, mas sempre tive o hábito de não ocultar nenhum de meus métodos, quer a meu amigo Watson, quer a qualquer outro que por eles mostre um interesse inteligente. Mas antes, como estou muito abalado pelo ataque no quarto de vestir, creio que me faria bem um trago de seu licor, coronel. Minhas forças foram submetidas a uma dura prova ultimamente.
    — Espero que não tenha mais daqueles ataques de nervos.
    Sherlock Holmes riu cordialmente.
    — Chegaremos a isso na devida hora — disse ele. — Eu lhes farei a narrativa dos acontecimentos na ordem certa, mostrando-lhes os vários pontos que me guiaram em minha decisão. Interrompam-me, por favor, se houver qualquer explicação que não seja perfeitamente clara.
    "É da mais alta importância, na arte da dedução, distinguir em determinados fatos os que são incidentais e os que são fundamentais. De outra forma, a energia e a concentração se dissiparão, em vez de se concentrarem. Ora, neste caso, não tive, desde o princípio, a mais leve dúvida de que a chave de todo o problema tinha de ser procurada no pedaço de papel que o morto tinha na mão.
    "Antes de entrar nisso, quero chamar sua atenção para o fato de que, se a narrativa de Alec Cunningham fosse verdadeira, e se o assaltante, depois de atirar em William Kirwan, tivesse fugido instantaneamente, então é claro que não podia ser ele quem arrancara o papel da mão do morto. Mas, se não fora ele, devia ter sido o próprio Alec Cunningham, porque, quando o velho desceu, vários criados já estavam no local. O pormenor é simples, mas o inspetor desprezara-o, porque tinha partido da hipótese de que aqueles magnatas do condado nada tinham a ver com a coisa. Ora, faço questão de nunca ter qualquer preconceito e de seguir docilmente qualquer fato que me oriente, e assim, na primeira fase da investigação, considerei com um pouco de desconfiança a parte que fora representada pelo Sr. Alec Cunningham.
    "Fiz então um exame cuidadoso no pedaço de papel que o inspetor nos tinha mostrado. Logo me pareceu que ele formava parte de um documento muito importante. Aqui está ele. Não notam qualquer coisa muito sugestiva a seu respeito?"
    — Tem um aspecto muito irregular — observou o coronel.
    — Meu caro senhor — exclamou Holmes —, não pode restar a menor dúvida de que foi escrito por duas pessoas formando palavras alternadas. Se lhe chamar a atenção para os tt fortes de "quarto" e meia-noite", e lhe pedir para compará-los com o de "quanta", reconhecerá imediatamente esse fato. Uma breve análise dessas quatro palavras o habilitaria a dizer com a máxima confiança que o "verá" e o "pode ser" também são escritos com mão forte, e o "quanta", com mão mais fraca.
    — Por Júpiter! É claro como o dia — gritou o coronel. — Por que razão esses dois homens haviam de escrever uma carta desse modo tão estranho?
    — É evidente que o negócio era sujo, e um dos homens, que desconfiava do outro, estava resolvido, acontecesse o que acontecesse, a que cada um devia ter nele parte igual. Ora, está claro que aquele dos dois homens que escreveu "quarto" e "meia-noite" era o cabeça.
    — Como chega a essa conclusão?
    — Poderíamos deduzir isso simplesmente pelas características da letra, comparada com a outra. Mas temos razões mais seguras do que essa. Se examinar este pedaço de papel com atenção, chegará à conclusão de que o homem de mão forte escreveu primeiro todas as suas palavras, deixando os espaços para o outro preencher. Esses espaços nem sempre foram suficientes, e o senhor pode ver que o segundo homem teve pouco espaço para colocar o seu "para a" entre "quarto" e "meia-noite", o que mostra que essas palavras já estavam escritas. O que escreveu todas as palavras primeiro é sem dúvida alguma o que planejou este negócio.
    — Excelente! — gritou o Sr. Acton.
    — Mas muito superficial — respondeu Holmes. — Entretanto, chegamos agora ao ponto mais importante. Os senhores talvez não saibam que o cálculo da idade de um homem pela sua caligrafia tem sido levado a considerável exatidão pêlos peritos. Em casos normais, pode-se colocar um homem em sua verdadeira década com suficiente segurança. Digo em casos normais, porque o mau estado de saúde e a fraqueza física apresentam sinais de velhice, mesmo quando o inválido é jovem. Nesse caso, olhando-se para a mão forte e ousada de um e para a aparência muito arqueada da do outro, mas que ainda conservava sua legibilidade, embora os tt tenham começado a perder os cortes, podemos dizer que um era jovem e outro, avançado em anos, sem ser positivamente decrépito.
    — Excelente — exclamou o Sr. Acton outra vez.
    — Há ainda um ponto, entretanto, que é mais sutil e de maior interesse. Há qualquer coisa em comum nessas duas caligrafias. Elas pertencem a homens que são parentes. Ao senhor pode parecer muito claro nos ss, mas para mim há pontos muito menores que indicam a mesma coisa. Não tenho a menor dúvida de que um maneirismo de família pode ser identificado nesses dois espécimes de caligrafia. É claro que estou dando agora apenas os resultados principais de meu exame do papel. Há vinte e três outras deduções que seriam de mais interesse para os peritos do que para os senhores. Tudo tendia a enraizar em mim a impressão de que os Cunninghams, pai e filho, escreveram o bilhete. Depois de ir tão longe, eu devia, sem dúvida, entrar nos pormenores do crime e ver até onde poderiam auxiliar-nos. Fui à casa com o inspetor e vi tudo o que se devia ver. O ferimento do morto era, como pude determinar com absoluta segurança, causado por uma bala de revólver atirada a uma distância de menos de quatro metros... Não havia enegrecimento de pólvora na roupa. Claro que Alec Cunningham mentira quando dissera que os dois homens estavam lutando quando soou o tiro. Além disso, pai e filho concordam quanto ao local na estrada onde o homem desapareceu. Acontece, porém, que nesse ponto há uma fossa larga, com lama no fundo. Como não houve indícios de pegadas de botas ao redor dessa fossa, não só fiquei absolutamente certo de que os Cunninghams mentiam outra vez, como ainda de que, de fato, nunca houve esse homem desconhecido em cena.
    "Então, tinha de imaginar o motivo daquele crime singular. Para chegar a ele, tive de me esforçar primeiro para descobrir a razão do primeiro furto em casa do Sr. Acton. Soube, devido a alguma coisa que o coronel nos contou, que há uma ação judiciária em andamento entre o senhor, Sr. Acton, e os Cunninghams. É claro que logo me ocorreu que eles tinham assaltado sua biblioteca com a intenção de se apossarem de algum documento que podia ser de muita importância no caso."
    — Exatamente — disse o Sr. Acton. — Não pode haver a menor dúvida possível quanto às suas intenções. Tenho o mais legítimo direito a metade de suas propriedades atuais, e se pudessem descobrir certo papel, que felizmente estava no cofre de meus advogados, teriam invalidado com certeza nossa ação.
    — Aí está — disse Holmes, sorrindo. — Foi uma tentativa perigosa e temerária, na qual procurei descobrir a influência do jovem Alec. Não tendo descoberto nada, tentaram desviar as suspeitas fazendo com que parecesse um furto comum, e para isso levaram tudo aquilo em que puderam deitar a mão.
    "Tudo isso está bastante claro, mas havia muita coisa que continuava obscura. O que eu queria, acima de tudo, era conseguir a parte da folha que faltava. Eu estava certo de que Alec a arrancara da mão do morto, e quase certo de que ele a devia ter colocado no bolso do roupão. Em que outro lugar poderia tê-la colocado? A única questão era saber se ainda estaria lá. Valia um esforço investigá-lo. E para esse fim fomos todos à casa.
    "Os Cunninghams juntaram-se a nós, como sem dúvida se lembram, do lado de fora da porta da cozinha. Era, portanto, da máxima importância que não se lembrassem da existência desse papel, pois logo o destruiriam. O inspetor estava para lhes revelar nosso interesse quando, pela casualidade mais feliz do mundo, sofri uma espécie de ataque, e assim se desviou a conversa."
    — Valha-me Deus! — exclamou o coronel, sorrindo. — O senhor quer dizer que toda a nossa simpatia foi desperdiçada, e seu ataque era uma impostura!
    — Falando como profissional, foi admiravelmente realizado — disse eu, olhando com espanto para aquele homem que sempre me confundia com alguma nova faceta da sua astúcia.
    — É uma arte muitas vezes útil — disse ele. — Quando me restabeleci, elaborei um plano que talvez tivesse um pouco de ingenuidade, para levar o velho Cunningham a escrever a palavra "meia-noite" a fim de compará-la com a "meia-noite" do papel.
    — Oh! Que tolo fui eu! — exclamei.
    — Eu notei que você estava com pena de minha fraqueza — disse Holmes com uma risada. — Fiquei triste por causar essa simpática dor que eu sei que sentia. Então, subimos juntos a escada e, entrando no quarto e vendo o roupão pendurado atrás da porta, pensei em fazer cair a mesa para prender a atenção deles por alguns momentos, enquanto me esgueirava para lhe revistar os bolsos. Entretanto, mal eu tinha conseguido o papel, que estava num dos bolsos, como esperava, quando os Cunninghams caíram sobre mim, e creio verdadeiramente que me teriam assassinado ali, não fora o auxílio pronto e amigo dos senhores. Por assim dizer, ainda sinto a pressão dos dedos do jovem ao redor de minha garganta, e o pai torcendo-me o pulso na ânsia de me arrancar o papel da mão. Viram que eu devia saber tudo a respeito do caso e, como compreendem, a mudança repentina da segurança absoluta para um completo desalento tornou-os inteiramente desesperados.
    "Depois, falamos um pouco com o velho Cunningham sobre o motivo do crime. Estava bastante tratável. Mas seu filho parecia um perfeito demónio, pronto a fazer saltar seus próprios miolos ou os de qualquer outro se pudesse agarrar um revólver. Quando Cunningham viu que a acusação contra ele era muito grave, perdeu todo o ânimo e fez uma confissão completa de tudo. Parece que William seguiu os dois amos secretamente, na noite em que fizeram o assalto à casa do sr. Acton, e, tendo-os assim em seu poder, ameaçava revelar tudo para explorá-los. Todavia, o Sr. Alec era um homem muito perigoso para um jogo daquela espécie. Foi uma façanha de gênio de sua parte ver no sobressalto do ladrão, que convulsionou toda a região, uma oportunidade para se livrar airosamente do homem que temia. William foi traído e alvejado; e, caso eles se tivessem apossado da carta toda e dessem um pouco mais de atenção aos pormenores, é bem possível que a suspeita nunca se levantasse.
    — E a carta?
    Sherlock Holmes juntou os dois papéis diante de nós.
    — É exatamente a espécie de coisa que eu esperava — disse-nos. — Certamente, não podemos saber ainda que relações pode ter havido entre Alec Cunningham, William Kirwan e essa Annie Morrison. O resultado, de qualquer modo, mostra que a ratoeira foi habilmente armada. Estou certo de que os senhores não podem deixar de se deleitar com os traços de hereditariedade mostrados no p e no g. A ausência dos pingos nos ii, na letra do velho, também é característica. Watson, creio que nosso tranqüilo descanso no campo foi um verdadeiro triunfo, e certamente voltarei muito mais revigorado à Baker Street amanhã.

    SHERLOCk HOLMES - O ritual Musgrave

    Arthur Conan Doyle
    O ritual Musgrave

    Título original: The Musgrave Ritual
    Publicado pela primeira vez na Strand Magazine,
    em Maio de 1893 e com 6 ilustrações de Sidney Paget.

    Sobre o texto em português:
    Este texto digital reproduz a
    tradução de The Musgrave Ritual publicado em
    As Aventuras de Sherlock Holmes, Volume III,
    editado pelo Círculo do Livro
    e com tradução de Hamílcar de Garcia.
    Uma anomalia que muitas vezes me chocou na personalidade de meu amigo Sherlock Holmes era que, muito embora seus métodos de pensamento fossem os mais esmerados e lógicos da humanidade, e embora afetasse também certo pedantismo sóbrio no trajar, apesar disso, nos hábitos pessoais era um dos homens menos asseados que já arrastaram um companheiro de quarto ao desespero. Não que eu próprio seja convencional nesse aspecto. A azáfama no Afeganistão levou ao cúmulo minha natural disposição para a boêmia, e tornou-me mais relaxado do que fica bem a um médico. Mas comigo há um limite, e quando encontro uma pessoa que guarda os charutos no balde de carvão, o tabaco, nos chinelos persas, e correspondência por responder, espetada com um canivete bem no centro da prateleira da lareira, então começo a dar-me ares de virtuoso. Sempre afirmei também que o uso da pistola devia ser exclusivamente um passatempo ao ar livre; e quando Holmes, num de seus humores esquisitos, se sentava numa poltrona, com o gatilho e cem cartuchos de Boxer, e começava a adornar a parede oposta com um patriótico V. R. [1] feito a buracos de balas, eu sentia que nem a atmosfera nem a aparência de nossa sala melhoravam com isso.
    Nossos alojamentos estavam sempre cheios de ingredientes químicos e relíquias de crimes, que tinham a capacidade de perambular pêlos lugares mais impróprios e reapareciam na manteigueira, ou em qualquer outro lugar ainda menos desejável. Mas seus papéis eram minha grande cruz. Tinha horror de destruir documentos, especialmente os que se relacionavam com seus casos passados. E só uma vez em cada um ou dois anos mostrava energia para rotulá-los e arrumá-los. Como já mencionei algures nestas memórias incoerentes, a explosão de energia apaixonada na execução de façanhas notáveis, às quais seu nome estava associado, era seguida por reações de letargia, durante as quais se deixava ficar com seu violino e seus livros, sem se mexer, a não ser do sofá para a mesa. Assim, mês após mês, seus papéis se acumulavam, até que cada canto da sala ficava coberto de maços de manuscritos que de modo nenhum podiam ser queimados, e só o dono podia jogá-los fora.
    Uma noite de inverno, quando estávamos sentados junto do fogo, aventurei-me a sugerir-lhe que, quando acabasse de colar os extratos de sua agenda, empregasse as duas horas seguintes para tornar nossa sala um pouco mais habitável. Não pôde negar a justeza de meu pedido, de modo que, com uma cara muito triste, saiu da sala, voltando logo depois arrastando uma caixa de zinco. Colocou-a no meio do assoalho e, acocorando-se num tamborete em frente dela, destapou-a. Reparei que já era a terceira de sua coleção, cheia de maços de papéis, atados com fita vermelha em pacotes separados.
    — Há aqui bastantes casos, Watson — disse ele, olhando para mim com expressão maliciosa. — Creio que, se você soubesse tudo o que esta caixa contém, me pediria que tirasse alguns, em vez de guardar os outros.
    — São as notas de seus principais trabalhos, então? — perguntei. — Desejei muitas vezes ter a relação desses casos.
    — Sim, meu caro; foram investigados muitos anos antes de meu biógrafo aparecer para me glorificar. — E levantou pacote após pacote, num gesto de carícia quase terna. — Watson, nem todos eles foram êxitos, sabe. Mas há aqui problemas muito curiosos. Aqui está a lista dos assassínios de Tarleton, e o caso de Vamberry, o comerciante de vinho, a aventura da velha russa, o caso singular da muleta de alumínio, bem como uma narrativa completa sobre aquele Ricoletti com o pé virado para dentro e sua abominável esposa. E aqui... ah! este é realmente muito especial.
    Mergulhou o braço no fundo da caixa e retirou um pequeno estojo de madeira, com tampa corrediça, como aqueles em que se guardam os brinquedos das crianças. De dentro extraiu um pedaço de papel enrugado, uma velha chave de bronze, uma pequena estaca de madeira cravada numa bola de barbante e três discos de metal velhos e enferrujados.
    — Bem, meu amigo, o que faria você desta bugiganga? — perguntou ele, sorrindo de minha expressão.
    — É uma coisa curiosa!
    — Muito curiosa, e a história que está ligada a ela o chocará ainda mais.
    — Então estas relíquias têm uma história?
    — Tanto que são história.
    — Que quer dizer com isso?
    Sherlock Holmes olhou-as uma por uma, e espalhou-as na borda da mesa. Depois, sentou-se de novo na cadeira, examinando-as com um brilho de satisfação nos olhos.
    — Isto — disse ele — é tudo o que restou para me lembrar do episódio do ritual Musgrave.
    Eu o ouvira mencionar o caso mais de uma vez, embora nunca tivesse conhecido os pormenores.
    — Gostaria imenso — disse eu — que me contasse o que se passou.
    — E deixar a desordem como está? — exclamou maliciosamente. — Afinal, seu gosto pelo asseio não sofrerá muito, Watson. Mas ficaria contente se você acrescentasse este caso a seus anais, porque há nele pontos que o tornam totalmente único nos registros de crimes deste ou, como creio, de qualquer outro país. Uma coleção dos meus insignificantes feitos certamente ficaria incompleta se não contivesse a narrativa deste singularíssimo caso.
    "Deve lembrar-se de que o caso do Gloria Scott, e minha conversa com o infortunado homem cujo destino lhe contei, foi o primeiro a encaminhar-me para a profissão que se transformou no trabalho de minha vida. Agora que meu nome se tornou amplamente conhecido, sou geralmente considerado, tanto pelo público como pela força oficial, a corte final de apelação nos casos duvidosos. Até quando me conheceu pela primeira vez, por ocasião do caso que registrou em Um estudo em vermelho, eu já estabelecera uma considerável clientela, embora não muito lucrativa. No entanto, não sabe como foi difícil a princípio, e como me custou esperar antes de ser bem sucedido.
    "Quando vim pela primeira vez a Londres, tinha meus aposentos na Montague Street, exatamente na esquina do Museu Britânico, e ocupava minhas inúmeras horas de lazer no estudo de todos os ramos da ciência que pudessem tornar-me mais eficiente. Constantemente me apareciam casos, devido principalmente à indicação de meus velhos colegas de estudo, porque, durante meus últimos anos na universidade, falavam muito a meu respeito e sobre os métodos que eu empregava. O terceiro desses casos foi o do ritual Musgrave. E foi devido ao interesse suscitado por essa singular cadeia de acontecimentos e às grandes questões que entraram em jogo, que dirigi meus primeiros passos para a posição que hoje desfruto.
    "Reginald Musgrave e eu freqüentáramos o mesmo curso na universidade, e mantive com ele uma amizade superficial. Não era geralmente popular entre os não-graduados, embora sempre me parecesse que sua atitude orgulhosa era, de fato, uma tentativa para encobrir sua extrema desconfiança natural. Na aparência, era um homem de tipo excessivamente aristocrático, magro, de nariz nobre e olhos grandes, maneiras lânguidas, embora corteses. Era na verdade o descendente de uma das famílias mais antigas do reino, embora viesse de um irmão mais novo que se separara dos Musgraves do norte, no século XVI, e se estabelecera no oeste de Sussex, onde o solar de Hurlstone é talvez o edifício habitado mais antigo do condado. Qualquer coisa do lugar onde nascera me pareceu retratada no homem, e nunca olhei para seu rosto pálido e vivo, ou para a posição de sua cabeça, sem associá-lo aos arcos cinzentos, às janelas de fasquias e a todos os restos veneráveis do domínio feudal. Conversávamos bastantes vezes, e recordo que mais de uma vez ele expressou interesse por meus métodos de observação e dedução.
    "Ia para quatro anos que nada sabia dele, até que uma manhã entrou em minha sala da Montague Street. Estava pouco mudado, trajava-se como jovem da alta sociedade — ele fora sempre um bocado pelintra — e mantinha a mesma maneira calma e suave que anteriormente o distinguira.
    "— Como vão as coisas, Musgrave? — perguntei, depois de cordialmente apertarmos as mãos.
    "— Provavelmente ouviu falar da morte de meu pobre pai — respondeu. — Foi-me arrebatado, há dois anos. Desde então tenho tido, é claro, as propriedades de Hurlstone para dirigir, e também, como membro de meu distrito, levo uma vida muito ocupada; mas fui informado, Holmes, de que você está pondo em prática aqueles poderes com que nos costumava assombrar.
    "— Sim — disse eu —, resolvi viver de expedientes.
    "— Fico contente de ouvi-lo dizer isso, porque neste momento seu conselho me seria excessivamente valioso. Têm se passado em Hurlstone coisas muito estranhas, e a polícia não foi capaz de esclarecer o assunto. É realmente um caso extraordinário e inexplicável.
    "Deve imaginar com que ansiedade o ouvia, Watson. A verdadeira oportunidade pela qual suspirara durante todos aqueles meses de inação parecia agora a meu alcance. No mais íntimo do coração, julgava poder triunfar onde outros haviam fracassado, e agora tinha ocasião de me pôr à prova.
    "— Por favor, dê-me os pormenores — exclamei.
    "Reginald Musgrave sentou-se à minha frente e acendeu um cigarro que lhe passei.
    "— Você sabe que, embora celibatário, tenho de manter um número de criados considerável em Hurlstone, que é um casarão muito vasto, que exige muito trabalho. E conservo-o também porque nos meses de caça ao faisão temos habitualmente uma festa em casa, e nessa altura não pode haver falta de pessoal. Há constantemente oito criadas, a cozinheira, o mordomo, dois lacaios e um menino. A chácara e os estábulos têm pessoal separado, evidentemente.
    "Desses criados, aquele que esteve por mais tempo a nosso serviço foi Brunton, o mordomo. Era um jovem professor desempregado quando pela primeira vez foi contratado por meu pai. Mas era homem de grande energia e caráter, e logo se tornou inteiramente indispensável em casa. Tinha boa estatura, era bonito, com uma esplêndida fronte e, embora houvesse quase vinte anos que estava conosco, não podia ter mais de quarenta. Com suas vantagens pessoais e os extraordinários dons que possuía, pois sabia falar diversas línguas e tocar quase todos os instrumentos musicais, era espantoso que se contentasse por tanto tempo com tal posição. Suponho que convinha bem a seu comodismo e que lhe faltava energia para qualquer mudança. O mordomo de Hurlstone é sempre a coisa mais lembrada por todos os que nos visitam.
    "Mas esse modelo tem um defeito. É um bocado dom juan, e deve imaginar que, para um homem como ele, não é um papel difícil de representar num pacato distrito do interior. Quando era casado, tudo ia muito bem. Acontece, porém, que ficou viúvo, e nossa luta com ele não tem fim. Alguns meses atrás tínhamos a esperança de que tudo se normalizasse de novo, pois ele contratou casamento com Rachel Howells, nossa segunda caseira. Mas desfez o noivado com ela e agarrou-se a Janet Tregeilis, filha do chefe dos guarda-caças. Rachel, que é muito boa moça, mas de excitável temperamento galês, sofreu um agudo ataque de febre cerebral. Passou a andar pela casa — como fez até ontem — como uma sombra, sem semelhança com o que fora. Foi nosso primeiro drama em Hurlstone, mas o seguinte atirou-o para segundo plano, e foi prenunciado pela desgraça e demissão do mordomo Brunton.
    "Foi assim que aconteceu. Já lhe disse que o homem é inteligente. E essa mesma inteligência foi a causa de sua ruína. Parece que o levou a uma curiosidade insaciável, sobre coisas que não lhe diziam respeito. Eu não tinha a menor ideia do ponto a que esta o levaria, até que o mais insignificante incidente me abriu os olhos.
    "Eu disse que é um casarão enorme. Certa noite da semana passada, na quinta-feira, para ser exato, descobri que não podia dormir por ter tomado imprudentemente uma xícara de café preto após o jantar. Depois de lutar contra a insônia até as duas da manhã, senti que era inteiramente inútil, de modo que me levantei e acendi a vela, com o intuito de continuar o romance que estava lendo. Entretanto, deixara o livro na sala de bilhar. Vesti meu roupão e saí para ir buscá-lo.
    "Para chegar ao salão de bilhar, tinha de descer um lance de escadas e atravessar a parte da frente do corredor, que vai dar à biblioteca e à sala de armas. Pode imaginar minha surpresa quando, ao olhar para o fundo do corredor, vi o brilho de uma luz que vinha da porta aberta da biblioteca. Apaguei minha vela e fechei a porta que dá para o quarto. Naturalmente, minha primeira idéia foi que se tratava de ladrões. Os corredores de Hurlstone têm paredes decoradas com muitos troféus de velhas armas. De um desses retirei um machado de guerra e então, deixando minha vela, desci na ponta dos pés o corredor e espreitei pela porta aberta.
    "Brunton, o mordomo, estava na biblioteca. Achava-se sentado numa cadeira de repouso, completamente vestido, com uma tira de papel, que parecia um mapa, nos joelhos, e a fronte mergulhada na mão, em profunda meditação. Fiquei mudo de espanto, observando-o da escuridão. Uma pequena vela na borda da mesa derramava uma luz fraca, mas suficiente para mostrar que estava totalmente vestido. De repente, quando eu olhava, ele se levantou da cadeira, e, dirigindo-se a uma secretária ao lado, abriu-a e puxou uma das gavetas. Desta sacou um papel e, voltando a seu assento, inclinou-se perto da vela na borda da mesa e começou a estudá-lo com muita atenção. Minha indignação pela calma com que examinava documentos de nossa família venceu-me, de modo que dei um passo em frente, e Brunton, olhando para cima, viu-me de pé no limiar da porta. Pôs-se de pé rapidamente, com o rosto lívido de medo, e enfiou no peito o papel, semelhante a um mapa, que estivera estudando.
    "— Então — disse eu —, é assim que paga a confiança que temos depositado no senhor? Pode deixar seu lugar amanhã.
    "Curvou-se, com a aparência de um homem que está inteiramente esmagado, e saiu sem uma palavra. A vela ficou ainda na mesa, e assim consegui ver o papel que Brunton tirara da secretária. Para minha surpresa, não tinha qualquer importância. Era simplesmente uma cópia das perguntas e respostas da velha observância chamada "ritual Musgrave". É uma espécie de cerimônia peculiar de nossa família, que cada Musgrave, por séculos, tem repetido quando chega à maioridade. . . uma coisa de interesse privado, e talvez de pouca importância até para o arqueólogo, assim como nossos brasões e armas, sem nenhum outro uso prático.
    "— Voltaremos ao papel depois — disse eu.
    "— Se acha realmente necessário — respondeu Musgrave, com certa hesitação. Então, continuando a narrativa, abri a secretária servindo-me da chave que Brunton deixara, e estava quase voltando para o quarto quando descobri que o mordomo regressara e estava de pé diante de mim.
    "— Sr. Musgrave — exclamou ele numa voz rouca de emoção —, não posso tolerar a desgraça. Fui sempre orgulhoso, mais do que permite minha condição, e a desgraça me mataria. Meu sangue cairá sobre sua cabeça... cairá, na verdade... se me lançar no desespero. Se não pode me conservar depois do que se passou, então, pelo amor de Deus, deixe-me pedir-lhe a demissão e sair dentro de um mês, como se fosse de minha livre vontade. Poderei enfrentar isso, sr. Musgrave, mas não ser despedido diante de toda a gente que conheço tão bem.
    "— Não merece muita consideração, Brunton — respondi. — Sua conduta foi muito infame. Todavia, está há muito tempo na família, e não desejo tornar pública sua desgraça. No entanto, um mês é muito. Demita-se dentro de uma semana, e dê a razão que quiser para sua demissão.
    "— Somente uma semana, senhor? — gritou com voz desesperada. — Uma quinzena, diga pelo menos uma quinzena.
    "— Uma semana — repeti —, e pode julgar-se tratado com muita indulgência.
    "Ele arrastou-se para fora, cabisbaixo, como um homem angustiado, enquanto eu apagava a luz e voltava ao quarto.
    "Durante dois dias Brunton foi muito aplicado no desempenho de seus deveres. Não fiz nenhuma alusão ao que se passara, e esperei, com certa curiosidade, para ver como iria ocultar sua desgraça. Na terceira manhã, ele não apareceu como de costume, depois da refeição matinal, para receber minhas instruções para o dia. Quando deixei a sala de jantar, aconteceu-me encontrar Rachel, a criada. Já lhe disse que ela se restabelecera havia pouco tempo de uma doença, e parecia tão pálida e lívida que a censurei por andar trabalhando.
    "— Você devia estar na cama — disse-lhe. — Volte às suas obrigações quando estiver mais forte.
    "Ela olhou para mim com uma expressão tão estranha que comecei a suspeitar que seu cérebro estivesse afetado.
    "— Estou bastante forte, sr. Musgrave — disse ela.
    "— Veremos o que diz o médico — respondi. — Você agora vai deixar de trabalhar, e quando descer diga que quero ver Brunton.
    "— O mordomo foi-se embora — respondeu.
    "— Foi? Para onde?
    "— Foi-se embora. Ninguém o viu. Não está no quarto. Oh, sim, foi-se, foi-se! — Caiu contra a parede com acessos de riso, enquanto eu, horrorizado com aquele repentino ataque histérico, toquei a campainha para pedir auxílio. A moça foi reconduzida a seu quarto gritando e soluçando, enquanto eu fazia inquérito a respeito de Brunton. Não restava dúvida de que desaparecera. Sua cama não fora usada, não fora visto desde a noite anterior, quando se retirou para seus aposentos, e, todavia, era difícil saber como podia ter deixado a casa com todas as portas e janelas encontradas fechadas de manhã. Suas roupas, relógio e dinheiro estavam no quarto — mas o traje preto, que costumava usar, desaparecera. Os chinelos também faltavam, mas não as botas. Aonde poderia o mordomo ter ido durante a noite, e o que lhe poderia ter acontecido?
    "É claro que revistamos a casa toda, mas não existia nenhum vestígio do homem. E, como disse, há o labirinto de uma casa antiga, especialmente a ala primitiva, que está agora praticamente desabitada. Mas foi examinado quarto por quarto até o sótão, sem se encontrar sinal do desaparecido. Era incrível que fugisse deixando toda a bagagem, mas onde estava ele? Chamei a polícia local, mas sem resultado. A chuva caíra durante a noite anterior, e examinamos o jardim e os caminhos em redor da casa, mas em vão. O assunto estava nesse estado quando um novo acontecimento afastou inteiramente nossa atenção do mistério original.
    "Durante dois dias, Rachel permaneceu doente. Algumas vezes com delírio, outras, com histerismo. Arranjou-se uma enfermeira para passar a noite com ela. Na terceira noite depois do desaparecimento de Brunton, a enfermeira, julgando que a doente estivesse repousando, adormeceu na poltrona. Quando acordou de manhã cedo, viu o leito vazio, a janela aberta, e nenhum sinal da moça. Fui imediatamente acordado e, com os dois lacaios, saí à procura da jovem. Não foi difícil saber a direção que tomara, porque, partindo-se de sob a janela, podíamos seguir-lhe as pisadas facilmente através do bosque até a beira da lagoa, onde desapareciam, rente ao caminho encascalhado que segue em direção aos campos. A lagoa tem dois metros e meio de profundidade, e imagine o que sentimos quando vimos que o rasto da pobre demente terminava ali.
    "Fomos buscar os ganchos, e imediatamente nos pusemos a trabalhar para encontrar seus restos; mas nada descobrimos. Por outro lado, trouxemos à superfície um objeto da mais inesperada espécie. Era um saco de linho, contendo uma grande quantidade de metal antigo, enferrujado e descolorido, e diversos pedaços de seixos ou vidros opacos e sem cor. Esse estranho achado foi tudo o que pudemos retirar da lagoa, e, embora ontem fizéssemos todas as pesquisas e investigações possíveis, não sabemos coisa alguma do destino de Rachel Howells nem de Richard Brunton. A polícia do condado já não sabe mais o que fazer, e eu venho ter com você como último recurso.'
    "Pode imaginar, Watson, com que ansiedade ouvi essa extraordinária seqüência de acontecimentos, e como me esforcei para juntá-los e descobrir uma linha comum que os explicasse.
    "O mordomo fora-se. A criada, também. Ela amava o mordomo, mas depois tivera motivos para odiá-lo. Rachel era de sangue galês, furioso e apaixonado. Ficara terrivelmente excitada logo após o desaparecimento dele. Atirou ao lago um saco que continha algumas coisas curiosas. Foram esses todos os fatores que tive de levar em consideração, e todavia nenhum deles atingia perfeitamente o âmago do assunto. Qual seria o ponto de partida dessa cadeia de acontecimentos? Aí é que estava o nó do problema.
    "— Preciso ver, Musgrave — disse eu —, aquele papel que seu mordomo julgava valer a pena consultar, até mesmo sob o risco de perder o emprego.
    "— É uma coisa muito absurda, esse nosso ritual — respondeu ele. — Todavia, tem o encanto da antigüidade para desculpá-lo. Tenho aqui uma cópia das perguntas e respostas, se quiser dar um vista de olhos.
    "E passou-me este mesmo papel que aqui tenho, Watson, e é este o estranho catecismo a que cada Musgrave tinha de se submeter quando chegasse à maioridade.
    "Vou citar as perguntas e respostas, tais como estão registradas:
    "— De quem era?
    — De quem morreu.
    — Quem a terá?
    — Quem vier.
    — Qual era o mês?
    — O sexto desde o primeiro.
    — Onde estava o sol?
    — Lá no carvalho.
    — Onde estava a sombra?
    — Debaixo do olmo.
    — Como se andava?
    — Norte dez e dez, leste cinco e cinco, sul dois e dois, oeste um e um, e então embaixo.
    — O que daremos por ela?
    — Tudo o que é nosso.
    — Por que devemos dar-lhe?
    — Por causa da confiança.'
    "— O original não tem data, mas tem a ortografia dos meados do século XVII — observou Musgrave. — Receio, todavia, que seja de pouco valor para você resolver este problema.
    "— Pelo menos — respondi —, ele nos apresenta outro mistério, e mais interessante que o primeiro. Pode ser que a solução de um seja a solução do outro. Há de me desculpar, Musgrave, se disser que seu mordomo parece ter sido um homem muito inteligente, e deve ter tido uma intuição mais lúcida que dez gerações de seus amos.
    "— Não o compreendo — disse Musgrave. — O papel parece-me sem a menor importância prática.
    "— Mas a mim parece-me imensamente prático, e penso que Brunton tinha a mesma opinião. Provavelmente vira-o antes daquela noite em que você o apanhou.
    "— É muito possível. Não tínhamos o menor cuidado em escondê-lo.
    "— Ele simplesmente queria, segundo creio, avivar a memória nessa última ocasião. Tinha, como entendo, uma espécie de mapa ou carta que estava comparando com o manuscrito, e que meteu no bolso quando você apareceu?
    "— Exatamente. Mas que relação poderia ter com este costume antigo da família, e o que significa esta embrulhada?
    "— Não me parece muito difícil descobri-lo — respondi. — Com sua permissão, tomaremos o primeiro trem para Sussex e estudaremos um pouco mais o caso no próprio local.
    "Nessa mesma tarde, estivemos ambos em Hurlstone. Possivelmente você já viu retratos e leu descrições dos famosos edifícios antigos. Portanto, limitar-me-ei a dizer que é uma construção em forma de L, sendo o braço mais comprido a parte mais moderna, e o mais curto, o núcleo antigo de onde o outro partiu.
    "Embaixo, sobre a pesada porta com verga, no centro dessa parte antiga está esculpida a data 1607, mas os peritos concordam em que as obras de madeira e de pedra são realmente muito mais antigas. As paredes bem grossas e as janelas estreitas dessa parte da casa tinham impelido a família para o edifício da ala nova, e a velha servia então de armazém e de adega, quando era preciso. Um esplêndido parque com um bonito bosque antigo rodeava a casa, e o lago, a que o meu cliente fizera referência, ficava perto da alameda, a cerca de cento e oitenta metros do edifício.
    "Eu já estava firmemente convencido de que não havia três mistérios isolados, mas um só, e que, se pudesse ler corretamente o ritual Musgrave, teria na mão o indício que me levaria à verdade, tanto no que se referia ao mordomo Brunton como à criada Rachel Howells. A esse, então, dediquei todas as minhas energias. Por que estaria ansioso esse criado por decifrar aquela velha fórmula? Evidentemente, porque via alguma coisa nela que escapou a todas as gerações dos cavalheiros do condado, e de que ele esperava vantagem pessoal. O que era, então, e como lhe afetou o destino?
    "Era-me perfeitamente claro na leitura do ritual que as medidas deviam referir-se a algum lugar a que aludia o resto do documento, e que, se pudesse descobri-lo, estaria no caminho certo para conhecer o segredo que os antigos Musgraves tinham julgado necessário perpetuar de maneira tão curiosa. Havia duas balizas para começar, um carvalho e um olmo. Quanto ao carvalho, não podia haver nenhuma dificuldade. Bem em frente da casa, do lado esquerdo da estrada, permanecia um patriarca entre os carvalhos, uma das árvores mais esplêndidas que já vi.
    "— Estaria aqui quando o ritual foi escrito? — perguntei quando passamos por ela.
    "— Estava aqui quando da conquista normanda, com certeza — respondeu ele. — Tem uma circunferência de sete metros.
    "Eu já determinara um dos meus pontos fixos.
    "— Você tem algum olmo velho? — perguntei.
    "— Havia um muito antigo lá adiante, mas foi queimado por um raio há dez anos atrás e cortamos seu tronco.
    "— Sabe onde estava?
    "— Oh, sim.
    "— Não havia outros olmos?
    "— Nenhum antigo, mas uma quantidade de faias.
    "— Gostaria de ver onde aquele cresceu.
    "Tínhamos vindo num carro de duas rodas, e nele fomos imediatamente, sem entrarmos em casa, a uma rocha solitária no bosque onde o olmo estava. Era quase meio caminho entre o carvalho e a casa. Minha investigação parecia progredir.
    "— Suponho que é impossível saber qual a altura do olmo? — perguntei.
    "— Posso dá-la imediatamente. Era de dezenove metros e meio.
    "— Como veio a saber? — perguntei com surpresa.
    "— Quando meu velho preceptor costumava dar-me exercícios de trigonometria, tomava sempre medidas de altura como exemplo. Em rapaz, lidei com todas as árvores e edifícios da propriedade.
    "Isto era um golpe inesperado de sorte. Meus dados vinham mais rapidamente do que eu podia razoavelmente esperar.
    "— Diga-me — perguntei —, seu mordomo fez-lhe alguma vez semelhante pergunta?
    "Reginald Musgrave olhou para mim com espanto.
    "— Agora que você fala nisso — respondeu —, recordo que me perguntou a altura da árvore alguns meses antes, devido a uma pequena discussão com o homem da cavalariça.
    "Foi uma excelente notícia, Watson, porque me mostrou que estava no caminho certo. Olhei para o sol. Começava a cair, e calculei que em menos de uma hora cairia justamente em cima dos galhos mais altos do velho carvalho. Uma condição mencionada no ritual se cumpriria então. E a sombra do olmo devia significar o extremo mais adiante da sombra, do contrário o tronco teria sido escolhido como baliza. Deveria descobrir então onde cairia a extremidade distante da sombra quando o sol incidisse exatamente no carvalho."
    — O que deve ter sido difícil, Holmes, pois o olmo já não estava lá.
    — Eu pelo menos sabia que, se Brunton pudera fazê-lo, eu também o poderia. Fui com Musgrave a seu escritório e preparei este bastão, ao qual atei este comprido cordel, fazendo um nó a cada metro. Então tomei dois comprimentos de uma vara de pescar, o que deu justamente um metro e oitenta, e voltei com meu cliente ao local onde o olmo existira. O sol estava roçando exatamente a copa do carvalho. Amarrei a vara numa extremidade, marquei a direção da sombra, medindo-a em seguida. Era de dois metros e setenta de comprimento. O cálculo era agora muito simples. Se uma vara de um metro e oitenta projeta uma sombra de dois metros e setenta, uma árvore de dezenove metros e meio projetaria uma sombra de vinte e nove metros, e a linha de uma seria por certo a linha da outra. Medi-lhe a distância, o que me levou quase à parede da casa, e finquei uma estaca no lugar. Deve imaginar minha exultação, Watson, quando a cerca de cinco centímetros de minha estaca vi uma depressão cónica no chão. Descobri que era a marca que Brunton fizera quando de suas medidas, e que portanto eu estava em sua pista.
    "Desse ponto de partida continuei a andar, tomando primeiro os pontos cardeais com uma bússola de bolso. Dez passos de trinta centímetros cada um levaram-me ao paralelo da parede da casa, e marquei de novo o lugar com uma estaca. Então contei cuidadosamente cinco passos para leste, e dois para o sul. E cheguei ao limiar da porta antiga. Um passo para oeste significava agora que eu tinha de descer a passagem de uma laje, o lugar indicado pelo ritual.
    "Nunca senti semelhante arrepio de desapontamento, Watson. Por um momento pareceu-me que devia haver um engano radical em meus cálculos. O sol brilhava em cheio sobre o soalho da passagem; pude ver que as pedras com que era pavimentado, cinzentas e gastas pelas pisadas, estavam firmemente unidas por cimento, e certamente há muitíssimos anos não eram removidas. Brunton não trabalhara ali. Bati no chão, mas por toda parte soava o mesmo ruído, e não havia nenhum sinal de fenda ou greta. Mas, por felicidade, Musgrave, que estava tão excitado como eu, tirou seu manuscrito para comparar meus cálculos.
    "— É embaixo! — gritou. — Você omitiu o 'embaixo'.
    "— Supunha que isso significasse que tínhamos de cavar, mas percebo que estava errado. Há uma adega embaixo, então? — indaguei.
    "— Sim, e tão antiga como a casa. Aqui embaixo, por esta porta.
    "Descemos uma escada de pedra em espiral, e meu companheiro, riscando um fósforo, acendeu um grande lampião que estava em cima de uma barrica ao canto. Ficou logo evidente que tínhamos chegado ao verdadeiro lugar, e que não tínhamos sido as únicas pessoas a visitá-lo recentemente.
    "Fora usado para depósito de madeira, mas a lenha que estivera espalhada no chão estava agora empilhada ao lado, de modo a deixar um espaço claro no meio. Nesse espaço jazia uma laje enorme e pesada, com um anel de ferro enferrujado ao centro, no qual um capuz de pastor estava arrumado.
    "— Por Júpiter! — gritou Musgrave. — É o cachecol de Brunton. Eu o vi com ele, posso jurar. O que estaria o bandido fazendo aqui?
    "Por minha sugestão, foram chamados dois policiais do condado para presenciarem a cena, e então esforcei-me por levantar a pedra, puxando-a pelo cachecol. Apenas podia mexê-la de leve, e foi com o auxílio de um dos policiais que consegui finalmente colocá-la de lado. Um buraco escuro escancarou-se debaixo dela, pelo qual todos olhamos para dentro, enquanto Musgrave, ajoelhado ao lado, atiçou o lampião.
    "Uma pequena câmara de cerca de dois metros e dez de profundidade e um metro e vinte de diâmetro se escancarava diante de nós. De lado estava uma caixa de madeira chata guarnecida de zinco, cuja tampa era trancada na parte de cima com esta chave curiosa, de tipo antigo, projetando-se da fechadura. Estava guarnecida na parte de fora por uma espessa camada de ferro, e a umidade e os carunchos tinham comido toda a madeira, de modo que uma cultura de fungos vivos ia crescendo do lado de dentro. Diversos discos de metal, moedas aparentemente antigas, tais como as que seguro aqui, estavam espalhadas por todo o fundo da caixa, mas ela não continha mais nada.
    "Nessa altura, não pensamos mais na velha caixa, porque nossos olhos se cravaram no que estava ao lado dela. Era a figura de um homem vestido de preto, acocorado sobre as nádegas, com a fronte mergulhada na beira da caixa e os braços estendidos abraçando-lhe ambos os lados. Essa postura tinha-lhe trazido ao rosto todo o sangue estagnado, e ninguém poderia reconhecer aquela fisionomia disforme, de cor de fígado. Mas a estatura, a roupa e os cabelos eram suficientes para mostrar a meu cliente, quando o corpo foi levantado, que era na verdade seu mordomo desaparecido. Morrera havia alguns dias, mas não apresentava nenhum ferimento ou contusão no corpo que mostrasse como encontrara seu terrível fim. Quando foi removido da adega, estávamos perante um novo problema, quase tão impressionante como aquele com que tínhamos iniciado.
    "Confesso, Watson, que até eu estava desapontado com minha investigação. Imaginara resolver o assunto assim que encontrasse o lugar referido no ritual; mas agora estava ali, aparentemente longe de saber o que a família escondera com semelhantes precauções. É verdade que havia descoberto o destino de Brunton, mas não esclarecera como lhe sobreviera esse destino, e qual a parte desempenhada no assunto pela mulher que desaparecera. Sentei-me num barril ao canto e pensei em todo o caso com muito cuidado.
    "Você conhece meus métodos em tais circunstâncias, Watson. Coloquei-me no lugar do homem. E, depois de avaliar sua inteligência, tentei imaginar como eu teria agido em circunstâncias semelhantes. Nesse caso, a tarefa foi simplificada pela inteligência de Brunton, que era de primeira classe, de modo que era desnecessário fazer qualquer concessão de equação pessoal, como dizem os astrônomos. Ele sabia que alguma coisa de valor estava escondida. Marcara o lugar. Sabia que a pedra que a cobria era muito pesada para que um homem, sem auxílio, a removesse. O que faria então? Podia procurar auxílio de fora se tivesse alguém em quem pudesse confiar, mas teria que tirar as trancas das portas, com um considerável risco de ser descoberto. Era melhor, se pudesse, encontrar auxílio dentro de casa. No entanto, a quem poderia solicitá-lo? Àquela jovem que lhe fora devotada. O homem dificilmente admite ter perdido o amor de uma mulher, por pior que a tenha tratado. Tentaria com pequenas provas de atenção fazer as pazes com a jovem Howells e então a usaria como cúmplice. À noite, desceriam juntos à adega, e a força de ambos seria suficiente para levantar a pedra. De forma que pude seguir-lhe os passos todos como se realmente os tivesse acompanhado.
    "Mas para duas pessoas só, das quais uma era mulher, devia ser uma tarefa difícil levantar a pedra. Um corpulento policial de Sussex e eu não a achamos assim tão fácil. Levantei-me e examinei cuidadosamente as diferentes achas de lenha que estavam espalhadas no chão. Encontrei rapidamente o que procurava. Um pedaço, com cerca de noventa centímetros de comprimento, estava todo denteado na extremidade, e achatado de um lado, como se tivesse sido comprimido por um peso considerável. Era evidente que, quando levantaram a pedra, lançaram o pau na fenda, até que por fim, quando a abertura se tornara suficientemente grande para se passar por ela, mantiveram-na aberta por meio de uma tora colocada ao comprido, que podia muito bem ficar cheia de dentes na parte inferior, desde que todo o peso da pedra fizesse pressão para baixo na borda da outra laje. Até ali, eu estava em terra firme.
    "E depois, como deveria proceder para reconstituir aquele drama da meia-noite? É claro que só uma pessoa podia entrar no buraco: Brunton. A moça devia esperar em cima. Brunton destrancou então a caixa, mandou para cima seu conteúdo, — visto que não foi achado —, e então o que aconteceu?
    "Que ardente fogo de vingança não teria repentinamente explodido em chamas na alma daquela apaixonada celta quando viu o homem que lhe fizera mal — talvez a tivesse prejudicado mais do que nos é possível suspeitar — em seu poder? Seria por um acaso que o pau escorregou e a pedra fechou Brunton no que veio a ser seu sepulcro? Ela seria apenas culpada do silêncio quanto à sua sorte? Ou teria um golpe repentino de sua mão retirado o suporte, deixando a pedra deslizar para seu lugar?
    "Seja o que for, parece-me ver aquela figura de mulher, agarrada ao tesouro achado, voando pela escada em caracol com os ouvidos a zumbir devido aos gritos ensurdecedores que deixava para trás e ao tamborilar de mãos frenéticas contra a laje de pedra, que abafava a vida do amante infiel.
    "Eis o segredo do rosto pálido, dos nervos descontrolados, das risadas histéricas na manhã seguinte. Mas o que haveria na caixa? E o que fez ela disso? Naturalmente, era o metal velho e as pedras que meu cliente retirara da lagoa. Atirou-os para lá na primeira oportunidade para remover o último vestígio de seu crime.
    "Durante vinte minutos fiquei sentado, imóvel, pensando no assunto. Musgrave estava com o rosto muito pálido, agitando a lanterna e olhando para o fundo da adega.
    "— São moedas de Carlos I — disse ele, retirando algumas que haviam ficado na caixa. — Bem vê que estávamos certos quanto à data do ritual.
    "— Podemos encontrar qualquer coisa mais de Carlos I — disse eu, quando o significado provável das duas primeiras perguntas do ritual me irrompeu de repente: — Deixe-me ver o conteúdo do saco que pescou na lagoa.
    "Subimos a seu escritório e ele espalhou os restos diante de mim. Ao olhá-los, compreendi que poderiam ser considerados de pouca importância, pois o metal estava quase preto e as pedras, sem brilho. Esfreguei uma delas em minha manga, e brilhou imediatamente como uma centelha na concha de minha mão. O metal tinha a forma de um anel duplo, mas fora muito retorcido, alterando-se assim sua forma original.
    "— Você deve recordar-se — disse eu — que os partidários do rei mantiveram-se na Inglaterra mesmo depois da morte do rei, e, quando por fim fugiram, deixaram provavelmente muitas de suas preciosas posses sepultadas com a intenção de vir buscá-las em épocas mais pacíficas.
    "— Meu antepassado, Sir Ralph Musgrave, era um cavalheiro e o braço direito de Carlos II — disse meu amigo.
    "— Ah, muito bem — respondi. — Suponho que agora temos realmente o último elo de que precisávamos. Devo felicitá-lo por entrar na posse, ainda que de maneira muito trágica, de uma relíquia de grande valor intrínseco, mas ainda de maior importância como curiosidade histórica.
    "— Qual é então? — perguntou com espanto.
    "— Nada menos que a antiga coroa dos reis de Inglaterra.
    "— A coroa!
    "— Precisamente. Considere o que diz o ritual. Como reza? 'De quem era?' 'De quem morreu.' Foi depois da execução de Carlos I. 'Então de quem será?' 'De quem vier.' Trata-se de Carlos II, cujo advento já era previsto.
    Creio que não pode haver dúvida de que este diadema arruinado e já sem forma coroou um dia a fronte dos reais Stuarts.
    "— E como veio parar aqui? Como ficou escondido?
    "— Oh, esta é uma pergunta que levará algum tempo a responder. — Então, expliquei toda a longa cadeia de hipóteses e provas que construíra. O crepúsculo findava e a lua brilhava intensamente antes de eu concluir minha narrativa.
    "— E por que Carlos II não conseguiu reaver sua coroa quando regressou? — perguntou Musgrave, colocando a relíquia no saco.
    "— Ah! Este é o ponto que possivelmente não poderemos nunca esclarecer. É provável que o Musgrave detentor do segredo tivesse morrido no intervalo, e deixasse por descuido este regulamento ao descendente sem lhe explicar o significado. Desde essa época até hoje, tem sido transmitido de pai para filho, até que chegou ao alcance de um homem que lhe desvendou o segredo e morreu na aventura.
    "Esta é a história do ritual Musgrave, Watson. Eles têm agora a coroa em Hurlstone — embora tivessem encontrado certa dificuldade legal e devessem pagar uma soma considerável antes que lhes fosse permitido conservá-la. Estou certo de que, se mencionar meu nome, eles terão o maior prazer em mostrá-la a você. Da mulher nada mais se soube, e é provável que houvesse deixado a Inglaterra, levando a recordação de seu crime para o além-mar."

    [1] Iniciais de Victoria Regina, aludindo-se à rainha Vitória. (N. do T.)